COLUNA | A atual cena Techno em Curitiba

Curitiba tem uma história bem rica com a música eletrônica, a cidade acolheu e investiu na cultura rave de uma maneira na qual poucas fizeram no Brasil, a presença de clubs, eventos, escolas de DJs e programas de rádio estimularam o público curitibano a desenvolver uma educação musical que chama a atenção do mundo clubber.

Eu ainda não tive a oportunidade de conhecer a capital paranaense e o que me levou a escolher essa pauta foi o fato de recentemente ter conhecido alguns nomes da cena local, pessoas cheias de paixão pelo que fazem! Segundo o Eudig, um dos nomes por trás da label “coletivo 4×4”, a cena curitibana dispõe de uma variedade de gêneros musicais como a House Music, Minimal, Trance, Techno, Hip Hop, Música brasileira e outros estilos. Em meio a essa cena tão diversa escolhi falar um pouco sobre como o Techno está inserido no momento atual.

Nos últimos cinco, seis anos, houve uma ascensão de festas independentes na cidade, festas que proporcionam toda uma liberdade artística aos DJs, esses eventos mesclam a música com moda e outros trabalhos artísticos, para começar a contar essa história conversei com uma pessoa que teve toda uma importância nesse movimento, a DJ Nati M.

Nati deu início a sua carreira em 2014, segundo ela existia uma vontade imensa de reviver sonoridades como o Techno de uma forma mais ampla para as gerações mais jovens, e talvez esse tenha sido um dos motivos que ajudou na construção de sua carreira e incentivar o público curitibano a se envolver com o estilo. Ela começou tocando Techno Industrial, na época ela tocou bastante em um club que era novidade na cidade, o Zeitgeist na festa Girls play Techno, ela conta que o club bombava nos finais de semana o que fez com que muita gente conhecesse o seu trabalho.

Após produzirem algumas festas, ela e seu marido, também DJ, Nassur tiveram a ideia de criar uma festa que tivesse uma identidade própria onde o público saberia que tipo de som iria rolar, ela conta que eles recolheram alguns feedbacks da galera para assim poder construir a essência do que viria a ser o coletivo 4×4. No começo Nati e Nassur se reuniram com alguns amigos que conheceram através da cena local, alguns eram DJs que estavam começando na discotecagem e outros eram amigos que compartilhavam da mesma afinidade musical e assim realizaram a primeira edição da festa, na segunda edição o fotógrafo Eudig foi chamado para fazer parte do elenco. Após a saída de alguns integrantes, o coletivo convidou novos nomes para participar do projeto, ela diz que a ideia ali era desde o início fazer uma vitrine para os novos artistas mostrarem seu trabalho. Hoje Nati e Nassur não fazem mais parte da 4×4, o coletivo continua sendo conduzido por uma nova geração de artistas. Perguntei a ela como ela enxerga essa nova galera, não só o pessoal da 4×4 mas também de outros coletivos, ela me disse que o coletivo inaugurado por eles rapidamente se tornou uma referência musical e para produtores de eventos.

“Vimos pessoas mais jovens dispostas a desenvolver a música eletrônica alternativa em Curitiba, hoje acompanho coletivos como o Sequoia, Momentum, Sense, Detroit BR, Technoteca, Phobia e artistas jovens como Nicole Lukys, Bervon, Andc, Six66 e Luna Tik.”

Perguntei sobre como ela vê a aceitação do Techno pelo público curitibano nos dias atuais, segundo ela o estilo é muito forte!

“O Techno se configura no principal estilo musical da cidade, na minha opinião temos que lembrar que as festas de psy trance são gigantes também, mas o techno é forte no dancefloor e nas open airs.”

Ela relatou sobre uma noite em que dividiu o comando da pista com o Renato Cohen no Club Vibe e a galera ficou ali até as 9:00 da manhã e também sobre o festival Carnavibe, onde se apresentou na pista de techno ao lado de nomes como Eli Iwasa, Bervon, L_cio, Aedos e Murphy. Segundo ela, a pista estava cheia, o que mostrou o quanto o Techno é forte em ambos os formatos.

Nati M – Foto divulgação, creditos @eudig_

Como eu disse acima, após saírem da 4×4 Nati e Nassur deixaram o coletivo em boas mãos, conversei com dois desses integrantes, o Eudig que tem um projeto bem interessante com fotografia e a DJ Bruna Freitas nome por trás do projeto “Fracta”, e assim pude me aprofundar mais na ideia do coletivo. Primeiro conversei com o Eudig, ele me disse que a 4×4 tem a missão de mostrar artistas independentes que não encontravam espaço e abertura do mercado para mostrar uma perspectiva diferente sobre a música eletrônica. Não apenas DJs e artistas diretamente ligados à música, mas pessoas que fazem outros trabalhos artísticos como fotografia, design, artes plásticas, tatuagem… ele diz que o importante sempre foi valorizar, desenvolver e proporcionar o artista e a arte local. Desde que o coletivo está na ativa, acontecimentos na cidade permitiram o crescimento do mesmo, e também de outros coletivos.

“Foi um verdadeiro florescimento da cultura underground e independente na cidade.”  Diz Eudig.

A ideia continua a mesma, mas hoje eles têm mais meios de fazer acontecer e buscam formas diferentes e mais ousadas de atingir esse objetivo.

Perguntei a eles sobre “identidade”, eles me disseram que a 4×4 nunca se limitou a uma única linha sonora, sempre foram um palco para experimentações e diversidade, encontraram um nicho interessante nos gêneros mais pesados, o que se consolidou junto com a identidade visual e outros aspectos do evento.

Eles ressaltam que os integrantes estão em constante mutação, testando novas ideias e encontrando nichos a serem explorados dentro daquilo que acreditam ser o evento-modelo.

Em meio a essa diversidade sonora explorada pelo coletivo curitibano, o Techno, principalmente os mais pegados, é um gosto em comum entre os integrantes, isso se deve a uma construção pessoal de cada indivíduo dentro do coletivo. Essa sonoridade mais pesada foi sendo absorvida pela estética, mas eles sempre frisam a constante mudança e evolução a que todos estamos sujeitos.

“Tocamos o que gostamos e o que faz nosso público dançar”

Evento do Coletivo 4×4 em Curitiba, creditos @eudig_

Quando perguntados sobre os desafios de se trabalhar com o Techno em Curitiba, eles me disseram que o grande ponto é trabalhar como um coletivo independente, em uma cidade que está precária em relação ao apoio cultural, a valorização da diversidade artística e a falta de incentivadores e facilitadores para adequar a infraestrutura da cidade para receber eventos como o deles. Curitiba é uma cidade em sua maioria conservadora, então está sendo um desafio que vem demandando muito suor e muita raça para essa galera fazer a cena local se desenvolver.

Minha conversa com a Bruna Fracta foi mais voltada para as experiências que ela teve em seus anos de carreira até por que ela nunca se limitou a uma única vertente, além do Techno, Fracta tem sua atenção voltada para o House e o Minimal, mas ela ressalta que isso não é uma regra.

“Minhas pesquisas sempre são baseadas em artistas que contam histórias interessantes em suas tracks, usando ingredientes como sentimento, ressonância e com breaks bem construídos”

Quando aborda produções mais retas e contínuas, ela sempre busca texturas, harmonias e graves que façam a pista flutuar em grooves sofisticados até a euforia. Ela diz que uma boa pesquisa sem limitações é uma boa maneira de entregar um set que conduza a pista. Em seus sets encontramos tracks que vão de elementos tribais a industriais.

Fracta começou a tocar profissionalmente em 2012, ela me relatou sobre alguns desafios que passou durante os anos.

“Inicialmente tive um pouco de preconceito me sondando, por ser mulher e por ter recebido algumas oportunidades de apresentação muito valiosas.”

Em 2012 a DJ Curitibana foi vista e contratada por pessoas que acreditaram em seu potencial oque foi muito importante para sua carreira. Ela disse que o machismo, apesar de doloroso, nunca foi um empecilho, sabendo das dificuldades que as mulheres passam quando o assunto é mostrar seu valor. Fracta sempre cultivou a empatia e o colaborativismo entre as mulheres que encontrou o que a fez colher bons frutos em sua trajetória.

Hoje ela diz ver um número bem maior de mulheres mostrando seus trabalhos, com forte representatividade e muita personalidade em suas apresentações na cena curitibana, o que a faz sentir muito orgulho.

Em 2018 Fracta começa a fazer parte do Coletivo 4×4 e faz sua primeira apresentação, segundo ela foi amor à primeira vista! Ela encontrou um público jovem com muita sede de ouvir música nova e que respondeu muito bem ao que ela entregou naquela noite.

“Tenho percebido uma forte ascendência da cena raver por aqui”

Fracta – Foto Divulgação, creditos @eudig_

A última pessoa com quem conversei foi a DJ Nicole Lukiys, uma das pessoas que vem fazendo um trabalho interessante quando o assunto é Techno na capital paranaense. Nicole transitou entre outros estilos como o House e o Tech House, com o passar do tempo suas pesquisas foram tendendo para sons mais densos o que fez a galera do Tech House achar seu som muito pesado. À medida que essa transição sonora foi acontecendo a DJ começou a buscar por eventos onde o estilo que nasceu em Detroit era o foco.

“Percebi que o Techno carrega na sua essência, o poder da revolução. Techno é resistência, é a arte das minorias e esse é um dos grandes motivos do meu coletivo ser voltado para esse estilo.”

Hoje ela está no comando do coletivo “Ciclo” onde a ideia é criar um ambiente de equidade, ser acessível, dar oportunidades para diferentes tipos de artistas, um ambiente livre das doenças da sociedade, de pessoas autênticas, políticas que amam a música e a arte, e o Techno condiz com esse espaço. Nicole se vê representada no estilo, segundo ela é um espaço onde as mulheres se expressam de maneira confortável e encontram incentivo para lutar por suas causas.

Sobre os desafios de se trabalhar com essa linha de som em Curitiba, a DJ falou que na verdade há pouquíssimas desvantagens, o público consome o estilo de tal maneira que é uma das vertentes na qual mais se encontram coletivos trabalhando em cima. Uma dessas poucas dificuldades é a procura por locais onde possam realizar os eventos, os clubs realizavam poucas festas do tipo então as festas independentes abraçaram o Techno e vem fazendo um trabalho bem interessante.

Hoje Nicole participa de alguns coletivos da cidade paranaense, pedi a ela para falar um pouco de cada um e de suas nuances. Vamos começar pelo Secretinho no azeite, coletivo criado pelo Frank Maeda e reúne DJs de diferentes estilos como house, Tech House, Techno, electro, Breaking beat, até eletro funk com Alcione se ouvia por lá,  algo difícil de ser ver segundo ela, essa diversidade sonora é uma das coisas que o Secretinho tem de mais especial. Lá o artista tem a liberdade de tocar o que ama tocar. O Secretinho foi o primeiro coletivo a abrir as portas para Nicole mostrar seu trabalho.

A Black industry, criada pelo Bry Ortega, é uma label com foco total nas vertentes do Techno, assim como a Desert Heat criada pelo Bragyptian, já a Zians fundada pela Stëh e a Cyber Cave trabalham outras vertentes como Electro, House, EBM, Breakbeat, trance e Hard Techno.

A Cyber Cave fundada por Alex Bueno surgiu no meio da pandemia, a ideia do coletivo é trabalhar não só com DJs, mas também fomentar a arte das performances! Lá eles abordam linhas de Techno acima de 130 BPMs.

Na Ciclo a linha de som é voltada para o Techno como referências e variantes puxadas para o Techno underground, vemos referências de electro, hard techno Techno trance, industrial etc.

 

“Amo muito a particularidade de cada coletivo/selo e acho muito importante essa união dos artistas que mantém nossa arte tão mais viva.”

Nicole Lukiys – Foto Divulgação, creditos @carolcastanhofoto

Depois dessa imersão na cena technera de Curitiba fiquei com uma imensa vontade de ir lá conhecer essa cidade que respira música eletrônica e de trazer em pautas futuras outras vertentes da cena local.

Muito obrigado Eudig, Nati M, Bruna Fracta e Nicole Lukiys pela participação!

Nos vemos na próxima. 

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