COLUNA | A música é uma ferramenta de manifestação política?

Talvez este texto que vos escrevo, honestamente, o mais pessoal que já fiz, seja uma fonte de libertação das palavras que estão entaladas em minha garganta. Essas palavras estão inseridas em um cenário nacional que beira o colapso social, onde vive-se um momento de retrocesso ao direito à existência, nas quais vidas são deliberadamente descartadas, a autoafirmação vem se tornando sinônimo de exibicionismo e a palavra “militância” sendo reduzida a piada.

O advento da internet, nosso principal meio de interação social em tempos de pandemia, nos proporcionou o acesso amplo à informação, mas também disseminou a desinformação em prol de pautas que beneficiam uma parcela da população indisposta a abrir mão de seus privilégios socioeconômicos. Esta mesma fatia de cidadãos, formadora e influenciadora de opinião, historicamente questiona, boicota e sabota a livre manifestação artística, transformando liberdade de expressão em moeda de troca.

Mas afinal, quem tenta silenciar a arte realmente entende o seu significado?

De uma forma geral, a definição formal de arte é sempre debatida e ressignificada, tendo como pilares as seguintes classificações: representação, expressão e forma. É importante frisar que são habilidades exclusivamente humanas e com um importante papel no estudo de comportamento de nossa espécie ao longo de gerações, onde a realidade e os pensamentos de cada época foram e vêm sim sendo retratados.

Através da subjetividade, técnica e contexto, o seu resultado final pode estar aberto a interpretações a respeito da obra e do artista. Assim, a arte, quando materializada, tende a instigar sentimentos e comportamentos em seu espectador.

E por falar em sentimentos, quem nunca se sentiu conectado a uma música? Seja pelo ritmo, melodia, harmonia ou sua letra, a sensação de identificação nos faz querer levantar para dançar, provoca risos, nos acalma, nos faz refletir e até pode derramar lágrimas.

Os registros musicais são tão antigos quanto a história da raça humana e é um dos principais instrumentos de sua conexão a milênios. Nelas, foram eternizados grandes marcos, contadas as histórias de diferentes culturas, retratadas guerras e descritos reinados. Algumas obras foram tão impactantes que imortalizaram os seus autores e intérpretes, onde muitas delas são consideradas referências na atuação de grupos sociais.

Sabendo, então, que a música conecta pessoas, instiga a reflexão e retrata toda uma sociedade, fica o questionamento: como ela NÃO pode ser um elemento de manifestação política?

Trazendo este debate para mais perto, vemos que grande parte dos movimentos e gêneros musicais importantes tiveram seu surgimento a partir de fatos históricos sensíveis. Seja protagonizada por uma classe intelectual ou por grupos sociais oprimidos, a música sempre foi uma fonte de pensamentos, reflexões e críticas.

O jazz, gênero originado na cidade de Nova Orleans por grupos afro-americanos, materializou a cultura popular e a realidade das comunidades negras. Em um triste momento de segregação racial e marginalização latente, o jazz foi reprimido e classificado como imoral no início do século XX. Como fruto da resistência e disseminação do gênero ao longo dos anos dentro da luta de toda uma comunidade, as demandas começaram a ser enxergadas para o início da conquista de direitos civis. A importância do jazz é tamanha que ele é uma das principais bases influenciadoras dos ritmos contemporâneos, assim como outros ritmos também surgidos a partir da cultura negra.

Jorge Ben, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Os Mutantes e Gal Costa - Créditos - Divulgação

No Brasil, um movimento protagonizado pela classe intelectual artística visou denunciar e combater o regime autoritário e ditatorial que se instalou no país ao longo de mais de duas décadas. Chamado de Tropicália, o movimento reuniu artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rita Lee e Gal Costa, inspirado em movimentos vanguardistas e culturais da música brasileira.

Através do uso constante de figuras de linguagem e subjetividade, as letras das músicas expunham indiretamente a realidade de tamanha repressão que o Brasil sofria, misturando cultura popular com a erudita. Em reação a este conteúdo, uma forte censura foi aplicada fazendo com que muitos artistas fossem perseguidos e precisassem recorrer ao exílio. Anos mais tarde, o descontentamento da população brasileira estimulado pela expressão artística levou a uma série de manifestações populares a favor das eleições diretas nas principais cidades do país, o que levou ao fim do regime militar em meados de 1985.

Ritmos contemporâneos como o rap e o funk tiveram seu amadurecimento em periferias brasileiras. Seu papel sempre foi dar voz aos moradores de comunidades, mostrando toda a sua riqueza humana e cultural mesmo diante da presença seletiva do governo, que peca no excesso de violência e na ausência em prover serviços básicos. As mensagens contidas no material musical reforçam o amor do povo preto, a liberdade sexual, o cotidiano cru da população, a violência, a quebra de estereótipos construídos e o questionamento deste modelo de sociedade excludente.

Assim como o jazz nos Estados Unidos, ambos os ritmos até hoje sofrem resistência moral pelo conservadorismo, com projetos de lei que propunham a proibição destes gêneros no país, mas encontraram um espaço sólido no mercado mundial. Segundo a FGV, em 2017 a indústria do funk gerava uma receita mensal de R$10 milhões só na cidade do Rio de Janeiro.

Toda esta visibilidade promoveu uma transformação social nas comunidades, injetando uma maior diversidade sexual, de gênero e raça na indústria da música nacional e garantiu oportunidade a pessoas que não enxergavam perspectiva de mudança de vida. Um exemplo de dar orgulho foi a presença de Lacraia, integrante de uma dupla de funk junto com MC Serginho, no auge das paradas de sucesso da época. A travesti ocupou um espaço de tamanha visibilidade no funk carioca, em pleno início dos anos 2000, que nenhum outro artista LGBT havia alcançado e merece a eterna homenagem por sua trajetória.

Ballroom – Créditos -TheAtlantic.com by Anja Matthes Dua Lipa – Créditos: Hugo Comte

Falando na comunidade LGBTQIA+, é notório que a música pop vem sendo a sua principal aliada. Através deste gênero foi possível o fortalecimento dos “ballrooms”, espaço de reunião de jovens afro-americanos e latinos a partir do final da década de 70 em prol da expressão artística e autoaceitação em uma época em que o preconceito e o HIV eram igualmente mortais.

Artistas como Madonna contribuíram para as demandas de direitos civis LGBTs ganharem força e, através de sua música, o debate foi estendido ao mundo. Madonna, inclusive, destaca-se como uma das principais figuras da cultura pop por também confrontar diretamente a instituição católica e defender a pauta feminista junto com a liberdade do corpo feminino, sejam nas letras das músicas, performances artísticas ou posicionamentos pessoais.

Algumas décadas depois, Lady Gaga trouxe para a indústria mundial do entretenimento uma representatividade e visibilidade nunca vistas antes. A artista, abertamente bissexual, lançou a música ‘Born this Way’ que viria a ser tornar uma das canções mais impactantes com respeito à afirmação da sexualidade e autoaceitação. Gaga nunca escondeu seus posicionamentos sociais, com um discurso voltado para o combate ao preconceito e sendo uma ativista pró-LGBT, criando projetos e financiando instituições filantrópicas a favor da causa.

Lady Gaga - Born This Way Era Outtake 2011 - Créditos - Nick Knight Born

E é impossível deixar de citar Pabllo Vittar como o grande marco revolucionário da música brasileira do século XXI. A sua presença ativa na música possibilitou o aumento exponencial de artistas LGBTs em selos de renome e deixou as pautas da comunidade em um holofote longe de ser apagado. A disseminação da arte drag também teve sua influência, tornando-se uma realidade no país e que levou à penetração destes artistas em diversos ramos do entretenimento.

A arte é uma das ferramentas mais poderosas de transformação social, porque juntamente com um sistema educacional eficiente, estimula o pensamento crítico da sociedade. Justamente por isso que o silenciamento das manifestações artísticas, pelo governo ou classes economicamente mais poderosas, é uma forma de manter sólido todo um sistema de desigualdades, pois um povo que não questiona também não clama por mudanças. 

Entretanto, a arte resiste e sempre resistirá, e isto inclui a música com toda a sua magia que propicia uma conexão interpessoal como nada neste mundo.

A maior realização de quem respira música é a de disseminar ao máximo a sua ideia tocando na alma de cada ser humano. Por isso é importante não perdermos a nossa essência, resistirmos a quem quer nos calar e defendermos o que acreditamos se quisermos mesmo sonhar alto e mudar o mundo, sendo honestos com nossa própria verdade.

Uma transformação política não significa ser partidária; é uma transformação do modo de pensar e agir de toda uma sociedade em busca, acima de tudo, de maior equidade, melhores oportunidades e bem estar. Se quisermos evoluir e almejar uma vida com mais dignidade precisamos fazer isso coletivamente, com a música auxiliando a formar os laços de união entre os indivíduos.

Assim, coloque um pedaço de seu coração dentro de cada melodia, suas crenças em cada letra, sua força em cada acorde. Desta forma conseguiremos transmitir mensagens que podem impactar positivamente os espectadores que forem sensibilizados pelo impacto da nossa paixão.

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