COLUNA | O INVISÍVEL DENTRO DO VISÍVEL

Transfobia internalizada é uma questão muito séria e é um assunto que necessita ser debatido, principalmente dentro do meio LGBTQIA+.

Não se trata apenas de militância, como se fala muito nos dias de hoje, é muito mais abrangente. Trata-se de empatia, compaixão, união e principalmente amor!

Meu nome é Roberto ou DJ Rob Vause (da cena tribal) como muitos conhecem, sou um homem trans e hoje venho trazer um pouco do meu universo e da minha percepção dentro do meio com a população trans.

Percebo que muitas pessoas têm dificuldade em entender o que se passa com os transgenders ou transgêneros.

O que na minha opinião é algo muito simples de ser entendido, obviamente quando bem explicado. E o que não nos falta hoje são ferramentas para chegar a esse entendimento!

Passamos por todo o processo que os gays, as lésbicas, os(as) bissexuais etc … passam!

Só que com mais complexidade, não se trata somente de sair de um armário; o que por sinal já é difícil, uma vez que vivemos em uma sociedade que nos impõe regras do “certo” e “errado”. Saímos de vários armarios para que possamos ser nós mesmos!

O que nos gera muito sofrimento, culpa, medo, autopunição, dentre outros sentimentos.

Falando da minha trajetória até aqui, primeiro tive que passar pela aceitação de hétero para lésbica, o que foi muito sofrido por pressões sociais, como familiares, por exemplo …

Depois continuava sem entender porque ainda faltava alguma coisa, eu não me encaixava, não me sentia completo e liberto.

Depois, fui para o armário do não binário; aquele que transita entre as duas identidades de gênero (homem x mulher) e ainda assim, continuava sofrendo sem entender.

Até que depois de muita luta contra mim mesmo, percebi que o problema não estava somente na minha sexualidade e sim na minha identidade de gênero!

Mais uma vez, outra luta interna para sair de um terceiro armário e finalmente me encontrar para ser feliz.

Imagine-se nascer em um corpo no qual você não se identifica?

Eu me olhava no espelho e não me via, não conseguia olhar meu corpo e ainda não consigo pois estou em processo de transição (uso de hormônios e afins).

Explicando de uma forma mais genérica, é o mesmo que forçar um gay a se relacionar com uma mulher ou vice-versa. A diferença é que temos que nos relacionar com um corpo que não nos pertence, que nos agride e nos machuca.

Temos que nos relacionar com a nossa aceitação e com a aceitação da sociedade!

O ponto que eu quero chegar é de que não trata-se apenas de uma sigla no nosso meio, mas de seres humanos que também querem se sentir amados, respeitados e sobretudo acolhidos. O que há de errado nisso?

Essa é a pergunta!

Já se perguntaram sobre isso?

Será que não chegamos em um momento onde precisamos de fato nos unir, unir todas as siglas mas com o coração?

Desarmando-se dos padrões.

Espero ter passado um pouco da minha experiência para que todos possam refletir!

Muita luz e união para todos nós!

Essa é a voz que eu quero representar a comunidade LGBTQIA+ na cena eletrônica.

DJ Rob Vause.

Foto divulgação

Depoimento por Paola Valentina Xavier (Mulher Trans)

A pauta do momento é sobre militância em diversas linguagens, me pergunto se estamos vivendo a militância de impacto com aplausos gourmetizados ou se estamos vivendo a militância de TRANSformação?

Como corpo Trans me pergunto se realmente faço parte da comunidade LGBTQIA+, muito se diz sobre união, mas não sinto, não vejo e não compartilho dela. Ainda vivemos no mundo dos egos e há muito egoísmo por parte da mesma. Se fizermos uma análise mais profunda, não precisamos ir muito longe para perceber que o boicote de nossa existência não vem apenas do patriarcado Cisgênero, não podemos deixar de apontar nosso incomodo dentro desse coletivo tão “unido” (só que não) rsrs.

Diante da minha vivência e luta diante de uma sociedade intolerante, sinto abruptamente essa transfobia por parte dos nossos, a visibilidade é ampliada para os GBs, o L é a margem mais próxima da nossa realidade, afinal são mulheres e não podem ter voz ativa. O T coitado, é mencionado por uma questão de inclusão ilusória. Não consigo enxergar interseccionalidade, estamos fadados pela mesma configuração por séculos e o que de fato estamos TRANSformando?

Foto divulgação

Vivemos nas margens em busca de ascensão e quando conseguimos chegar ao centro, replicamos a mesma metodologia do patriarcado. Penso na coletividade em forma de fortalecimento para além das etiquetas de status e preços. O valor real está na humanidade, na empatia em lidar com as pessoas e isso serve em toda forma de militar. Somos corpos minorizados e não minorias, e como engajar essa maioria de pessoas? Temos a maior parada LGBTQIA+ do mundo, penso como seria se esses milhões fossem às ruas pela exigência de políticas públicas e ações afirmativas para comunidade.

A verdadeira militância não está nas academias, está na simplicidade de cuidar do outro, na vontade de um futuro onde possamos ser o que quisermos. Precisamos desnaturalizar a intolerância e o preconceito, precisamos praticar o cancelamento da autofagia que nos ronda internamente, ser militante não significa competir pela dor, a lágrima não pode ser uma mercadoria.

Falo através de um corpo onde a existência dribla as estatísticas de vida, onde o acesso é barrado na maioria dos lugares, onde o sepulcro é troféu para uma sociedade desumana. TRANSformo toda essa dor em conquistas coletivas, abertura de caminhos para uma geração emancipada. Até quando assistiremos os nossos partirem  Até quando as causas serão segregadas?

Findo esse texto no propósito da provocação, pensando que podemos ser bem melhores e que de forma cordial e civilizada podemos acariciar todos os umbigos. Sejamos força e engajamento dentro e fora da comunidade. Axé!

Paola Valentina Xavier. 

Em tempos sombrios, onde jamais imaginávamos passar pela situação atual que estamos vivendo, DARK BALLET é um set envolvente e surpreendente a cada track, onde busco trazer alegria e que vocês expressem esse sentimento através da dança, afinal é para dançar MESMO!

SE JOGUEM!!!!

FEITO COM MUITO AMOR E SAUDADE!!!

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