COLUNA | EU QUERO FESTIVAL

A vivência singular nos festivais de Psytrance

Falar de festival de Psytrance é como falar sobre estar em casa, à vontade com os meus amigos, ouvindo as nossas playlists favoritas, hahahahahahah… É REAL!

Conheci a cena no ano 2000, frequentando pequenas festas (privates) em sítios do RJ. Em 2003, passei a frequentar festas raves e no Universo Paralello Festival 2008  eu tive a minha primeira experiência em festivais. Eu me encantei com a forma particular e impactante desta vivência que nos leva a desapegar de estereótipos superficiais criados pela sociedade tradicional.

No meu ponto de vista, o “mergulho” nos festivais de Psytrance está atrelado à liberdade de podermos nos expressar como indivíduos que seguem na busca incessante por quebras de paradigmas internos e externos, sem contar o desbunde de inúmeras formas de vivenciar a arte e o chamado para uma maior consciência emocional, social, ambiental e, principalmente, cultural. Para quem sente na alma, o festival é um canal de cura muito importante, no que se refere a nossa forma de viver e enxergar uma sociedade.

De 2008 até hoje, tive a oportunidade de vivenciar diversos eventos no Trance e toda essa magia experimentada em cada paraíso me aguçou o desejo de mostrar este mundo em forma de imagens. Por isso, em 2013, em parceria com a minha amiga e museóloga / produtora cultural Wendy Girondi, criamos um projeto inédito no Trance. O documentário longa metragem e websérie chamado CONSCIÊNCIA EM TRANSE , sobre a vivência em festivais alternativos.

CONSCIÊNCIA em TRANSE – Zuvuya Festival 4ª edição

O documentário possui como foco principal o conceito infinito de psicodelia, na visão de cada pessoa que experimenta, seja ela artista, produtor, público e trabalhadores em geral, pegando um gancho para desconstruir essa marginalização enxergada pela sociedade tradicional em relação ao Trance e mostrar que existe uma vivência muito enriquecedora nos festivais. Além disso, é um espaço importante para um estudo  de conhecimento de diversas culturas e eu afirmo aqui com toda certeza que existe em meu ser: não há lugar melhor para se deparar com arte pulsando em cada detalhe, que vem desde a concepção do conceito de tudo que é elaborado, até chegar na “chuva torrencial” psicodélica, embalada na frequência sonora dos diversos BPMs e toda magia que a expansão da nossa consciência livre pode alcançar.

Não menos importante, outro foco do projeto é este grande levantamento sobre os conceitos sócio-culturais e as filosofias vivenciadas dentro deste universo, realizando um resgate de memória pelo viés dos recursos audiovisuais e muita pesquisa!

Por isso, ao longo de todos esses anos eu fui percebendo como o Trance produz de forma intrínseca um estudo de conhecimento peculiar no cenário alternativo, para que desta forma seja reconhecido como um potencial de cultura em geral e o principal, despertar a nossa sociedade para uma consciência real sobre o respeito que todos devem ter sobre a vivência nos festivais, mostrado que existe de fato um movimento consciente por trás de tantos mitos conhecidos pela maioria.

É importante ressaltar os trabalhos sociais que muitos festivais fazem em prol de comunidades próximas dos eventos, firmando um elo forte de pertencimento local.

Curta Metragem Círculo Solidário Circulou – Universo Paralello Festival #13

O Universo Paralello Festival, por exemplo, há mais de 10 anos faz anos um lindo trabalho social nas comunidades quilombolas de Ituberá (BA), através do projeto Círculo Solidário, produzido pelo Circulou  – zona de preservação das culturas (coletivo itinerante e rotativo de brasileiros e estrangeiros que fazem parte do festival), antes da grande festa começar. Sim, é muito verdade! Na edição #13 do UP, além de ter acompanhado a montagem insana deste festival gigante, eu tive o imenso prazer de acompanhar este trabalho social, com o meu grande irmão, o fotógrafo Rodrigo Della Fávera. Nunca os meus olhos viram tanta pureza no olhar, tanto amor, tanta vontade de aprender e tanta sinceridade no sorrir, por parte das pessoas que foram beneficiadas pelo projeto, com apresentações culturais e oficinas relacionadas à sustentabilidade.

Assim como o Universo Paralello, outros festivais também fazem trabalhos como este, como o Pulsar Festival Respect Arte e Cultura, Mundo de Oz “Arte, Cultura, Ecologia e Música”, Festival Terra Azul Origens Gathering , entre outros.

A vivência experimentada nos festivais me permitiu e me permite conhecer não apenas uma pista de dança cheia de cores, som bom e público miscigenado.

No Trance temos a oportunidade de enxergarmos além do óbvio, ou seja, a vivência num festival não é baseada apenas no dance floor, na mitificação do DJ e afins. Sem desmerecer o espaço dos DJs, que são o coração do festival, com as batidas ritmadas de uma celebração. Enxergo a importância de tudo que envolve um evento deste porte, desde o segurança que fica na portaria horas a fio, a produção geral do evento e as equipes que montam o festival, como se fossem “vikings” se preparando para uma guerra, hahahaha…

Não posso esquecer de citar as “tiazinhas” locais, que lavam as roupas das equipes durante a montagem, pois estes trabalhadores passam a viver ali, para que um festival seja construído com toda aquela magia que o público vê. São muitos dias e por vezes meses de construção, dependendo da proporção do evento.

No Trance eu pude conhecer pessoas especiais, amigos e profissionais que considero parte da minha vida e que caminham comigo até hoje. Tive e tenho contato com o meu eu interior através da ancestralidade das áreas de cura e meditação e foi onde consegui ter um acesso não marginalizado sobre como equilibrar a nossa saúde mental, fazendo o uso vital da redução de danos no meu cotidiano, refletindo sobre essa postura de forma leve. Aprendi e aprendo a cada vez que vivencio, a ter mais consciência ambiental. Que não é suficiente apenas não jogar lixo no chão, pois manter uma sustentabilidade geral depende da forma como você aceita essa condição para si mesmo, em todas as suas ações. No festival eu pude conhecer o conceito do que é bioconstrução aplicado na prática e de como a arte alternativa é sustentada pela beleza da natureza em suas melhores formas.

Teaser Quantum Stage Pulsar Festival 2017

Foi através dos festivais de Trance que eu tive a oportunidade de seguir com o meu sonho de trabalhar com produção audiovisual e fotografia dentro e fora dos festivais, com a minha empresa chamada Interfaces facebook / Instagram  e consequentemente, me deu abertura para estar aqui hoje, fazendo parte da equipe da Colors, contando para vocês um pouco de como é vivenciar um festival de Psytrance.

Com a chegada avassaladora da pandemia, os festivais deram uma pausa que parece não ter fim, mas que foi e está sendo importante no sentido de repensar novas formas de viver e produzir as celebrações psicodélicas e por incrível que pareça, isso aproximou mais as produções, com formatos online de seus eventos, com lives de diversos artistas e debates inéditos para a interação dos diversos viés que fazem parte da vivência no Psytrance, abrindo espaço para falas anteriormente pouco ouvidas. Isso é muito positivo!

Teaser Montagem Pulsar Festival 2018

O festival “Ojos Del CieloTributo a Munsmawa Chuimampi, criado de forma coletiva em março deste ano, após a passagem do nosso amigo Jacinto Rosa, surgiu neste formato online com o sentido de reunir toda a família Trance numa celebração de despedida que durou 11 dias (rito de passagem + festival), em forma de união e amor.

Foi lindo ver as produções, artistas e público atuando numa real parceria, apenas com o propósito de propagar o amor que existe no bem-querer ao próximo.

Rodrigo Sobrinho conta um pouco mais deste festival especial e deste momento atual do mercado do Psytrance em sua coluna “Audiovisual, arte psicodélica e live streaming: como as raves têm sobrevivido à pandemia”. Vale a pena conferir!

Pulsar Festival – Ações Socioambientais 2016

Por fim, além de ser um festival cultural, as celebrações psicodélicas também devem ser reconhecidas como um espaço para discussão de estudos acerca de diversos temas sociais e ações preventivas para o melhor do nosso mundo, por isso, as pessoas devem buscar um maior conhecimento a respeito desta rica cultura e da música produzida nestes festivais e, principalmente, do respeito mútuo pelo fazer de cada um.

Despeço-me agradecendo a oportunidade de escrever sobre um movimento que eu sempre acreditei e que hoje, com a chegada de canais como a Colors no Psytrance, que toda diversidade do mercado da e-music seja respeitado, sem tirar nem pôr.

Nas minhas próximas colunas, pouco a pouco pretendo contar cada faceta que é vivenciada nestes festivais, para que assim, mais pessoas tenham a oportunidade de expandir a consciência através das inúmeras formas de enxergar uma sociedade e digam para si mesmo: EU QUERO FESTIVAL!!!!!!!!

 

Bora produçãooooo!!!

Vídeo Aftermovie Pulsar Festival 2018

Créditos da capa: Rodrigo Della Fávera – Katayy Festival 2019 (Mairiporã, SP)

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