Bárbara Anastácio

COLUNA | Indústria do Pink Money: Quanto vale o seu dinheiro?

Você já parou para refletir que uma “boa ação” coorporativa pode estar apenas visando o seu dinheiro, sem estar de fato buscando solucionar a causa envolvida?Sempre friso a necessidade de as empresas ou artistas promoverem uma política inclusiva e de representatividade na cultura da sua marca.

A inclusão é extremamente importante e não basta que isso seja apenas estratégia de marketing, para obtenção de lucros.

Você certamente já ouviu falar em Pink Money. Você sabe na verdade o que significa?

O Pink Money é uma expressão estrangeira – ao meu ver, pejorativa -, que representa o poder de compra da comunidade LGBTQIA+.

Isso surgiu devido ao fato de os casais homoafetivos, no geral, possuírem uma renda superior aos heteroafetivos[1], por diversos fatores, incluindo a ausência de filhos – o que reduz as suas despesas.

“SEM FILHOS EM SUA MAIORIA, OS CASAIS HOMOSSEXUAIS TÊM SUA RENDA REVERTIDA PARA CULTURA, LAZER E TURISMO”, comenta Paul Thompson, fundador da LGBT Capital, companhia especializada em administração, consultoria financeira e empresarial orientada à comunidade de gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros.[2]

Visando atingir o consumo desse público, muitas empresas lançam campanhas “gay-friendly”, que, na minha opinião, se trata de uma estratégia oportunista de lucro.

Isso porque no mercado capitalista se paga por respeito e espaço. Se você tem dinheiro, tem tudo.

O que é mais interessante nesse mercado é que esse poder de compra da comunidade LGBTQIA+ está nas mãos de um pequeno subgrupo: homens cis homossexuais brancos de classe média.

Hoje esse público não é tão discriminado, uma vez que pagou por esse acesso.

Se o indivíduo tem poder de compra, ele consegue negociar a sua posição na sociedade. É o sistema.

Diferentemente do restante da comunidade, como os transgêneros, que – infelizmente – sequer emprego conseguem e, muitas vezes, acabam na prostituição.

Na maioria dos casos o pink money não visa uma transformação social, mas, busca atingir exatamente esse pequeno grupo bem sucedido e privilegiado, por meio de frases de efeito e símbolos.

A comunidade LGBTQIA+ é bem além disso e, como já alertei em colunas anteriores, existe uma falta de apoio entre os seus subgrupos.

Ao escrever essa pauta me recordei de uma situação em que vivi em uma balada cara, considerada “hétero” em São Paulo. Eu estava em um camarote, super selecionado, e ali conheci um rapaz homessexual. Conversei bastante com ele e começamos a falar sobre algumas questões referentes ao preconceito existente em relação à comunidade gay.

Nesse momento fui surpreendida por ele, que me disse o seguinte: “Olha eu nunca sofri preconceito. Acho muito exagerado isso tudo”.

Ouvi essa frase em uma balada hétero super cara, vinda de um gay, que disse andar apenas com héteros e que nunca sofreu preconceito. Eu fiquei bem assustada com essa postura, porque sempre imaginei que houvesse apoio à causa por todos que estão incluídos na comunidade.

Certamente, a visão dele sobre a realidade é bem distorcida, e não reconhece, talvez, algumas agressões/preconceitos/opressões que possa ter sofrido no decorrer de sua vida pela sua orientação sexual. Ele tem memória curta ou é tolerante demais?

Esse é um problema estrutural.

Isso vale para todos que estão dentro de um grupo considerado vulnerável, como mulheres, pretos (mulheres pretas), transgêneros, etc.

Problematizar esse mercado “progressista” “gay-friendly” é importante inclusive para a Colors DJ, que viu a necessidade de lutar pela causa das pessoas que fazem parte da comunidade LGBTQIA+, que vivem da música, mas sofrem preconceito devido ao rótulo, não são bem remunerados e que necessitam desse espaço dentro do capitalismo.

Existe inclusão mesmo? Ou apenas uma inclusão seletiva de quem possui poder de compra?

O que você espera dessas empresas que lançam essas campanhas “gay-friendly”: representatividade de qualidade ou simbólica?

Você quer entrega de valor ou mero marketing? A empresa que fornece os produtos ou serviços que você consome pratica internamente o que ela anuncia?

Essa empresa realmente abraça a diversidade? Existe representatividade em sua gestão e em seus colaboradores? Essa cultura é de dentro para fora da empresa?

No mês do orgulho gay o que mais vemos são bandeiras coloridas e arco-íris para todo lado!

Me lembro da campanha do orgulho gay feita pelo Burger King em São Paulo, em 2018: “Burger Queen, Burger Gay” – Milkshake Unicórnio!

Fonte: Exame

“Abraçar a diversidade está no DNA da nossa marca, e ficamos muito felizes por esta campanha ter sido uma das mais lembradas pelos consumidores no ano passado”, explica Ariel Grunkraut, diretor de Marketing do Burger King.

Ocorre que esse abraço à diversidade não é uma realidade.

Em 2015 e 2018 dois episódios de racismo dentro dos estabelecimentos da empresa (no Rio de Janeiro e em São Paulo) chamaram a atenção dos noticiários.

Fonte: Globo G1
Fonte: IG Economia
Fonte: IG economia

Olha o oportunismo aí, minha gente!

Já no mundo da música, um caso interessante me veio à cabeça enquanto escrevia essa coluna. Quem se lembra da polêmica envolvendo o cantor Negro do Borel, quando lançou o clipe da música “Me solta”?

Fonte: Globo G1

No referido clipe, Negro do Borel, de forma caricata se transveste – confesso que não entendi se ele queria aparentar um homem gay ou travesti – e beija um homem. Várias críticas foram feitas ao cantor, principalmente por não ser essa a postura que ele leva em sua vida, em relação à comunidade LGBTQIA+.

Antes de lançar o referido clipe, Negro do Borel, fez um comentário transfóbico públicamente direcionado à artista Luisa Marilac, dizendo que ela era “um homem muito bonito”.[3]

Tal comentário foi alvo de cancelamento pelo público.

Essa não é a única polêmica envolvendo o cantor. Recentemente foi denunciado por sua ex-namorada, a influencer Duda Reis, sendo acusado de ter feito ameaças a ela, agressões físicas e emocionais. Foi traçado um perfil extremamente abusivo.

Estamos ou não diante de outro caso de oportunismo e hipocrisia?

Mais uma vez reforço que não basta a busca pelo Pink Money, dizer a que a marca é voltada para a diversidade, se a empresa/artista não é inclusiva, pratica preconceitos de diversas naturezas, como racismo, gordofobia, homofobia, transfobia, capacitismo[4], assédio, trabalho análogo ao escravo etc. – seja essas posturas preconceituosas praticadas internamente com funcionários, ou com o próprio consumidor. Não adianta a publicidade ser “gay friendly” se estruturalmente não construir essa política.

Eu particularmente busco consumir de empresas e/ou artistas que cultuam a diversidade. Na minha opinião, essas empresas estão mais próximas da ética e visam um mercado representativo.

A diversidade é representatividade. Não somente em relação à comunidade LGBTQIA+, mas também de todos que fazem parte do lado vulnerável da sociedade.

Temos que nos alertar a essas questões culturais das marcas, se isso é praticado internamente, para não alimentarmos essa indústria do Pink Money, que só quer o dinheiro da comunidade LGBTQIA+, sem qualquer propósito social.

 

[1]

G1 – Globo

 

[2]

SEBRAE

 

[3]

UOL TV  e Famosos – Acesso em 25/04/2021

 

[4]

O capacitismo significa a discriminação de pessoas com deficiência, sua tradução para o inglês é ableism. O termo é pautado na construção social de um corpo padrão perfeito denominado como “normal” e da subestimação da capacidade e aptidão de pessoas em virtude de suas deficiências” hand talk Acesso em 25/04/2021

 

 

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