Em um bate-papo exclusivo, o DJ e produtor celebra marcos na carreira, analisa representatividade transmasculina e antecipa os detalhes do b2b histórico com Delcu.
Celebrando 13 anos de carreira como DJ e uma década dedicada à produção musical, Evehive vive um dos momentos mais emblemáticos de sua trajetória. Natural do Rio de Janeiro e radicado em São Paulo há oito anos, o artista se prepara para levar a densidade do underground e a energia vital da cultura Ballroom para os palcos da Só Track Boa 2026, onde se apresenta em um aguardado formato back-to-back com a DJ Delcu.
Sendo uma pessoa transmasculina não binária, Eve enxerga sua ocupação em grandes festivais mainstream como parte de um legado coletivo necessário para descentralizar antigas influências da cena eletrônica.
Confira a entrevista completa:
Olhando para trás, desde que você adotou São Paulo, como enxerga a sua evolução artística e a importância de coroar essa trajetória no palco da Só Track Boa?
Eve: Muito obrigado! É uma sensação de dever cumprido, de um “até que enfim!” bem forte, e vivenciar isso ao lado da Delcu será muito divertido. Alcançar esse lugar em um palco da Só Track Boa me motiva a seguir firme. Como os acessos para o underground nesses espaços de grande porte ainda são algo novo, sinto que fazer parte dessa curadoria quer dizer que estou fazendo bem o meu trabalho.
Sua identidade é fortemente fincada no underground e na cultura Ballroom. Qual é a responsabilidade de levar essa essência e os ritmos desse movimento para um festival de proporções tão massivas?
Eve: Não considero uma responsabilidade pesada, e sim uma bênção! A Ballroom me alimenta de forma afetiva e criativa durante quase toda a minha carreira, então as coisas soam de forma muito natural e me sinto muito à vontade em mostrar a nossa cultura. Só gostaria que tivessem mais pessoas comigo dividindo esse espaço, e não só comigo, mas todas as vezes que quiserem a nossa presença. A cena é composta por famílias (as Houses) que caminham juntas, e acho importante mostrar essa pluralidade de corpos e formas de expressão.
Como o vogue beat, o baltimore e a house music já são bem latentes nas pistas, somados ao funk brasileiro, sinto que minha curadoria mais atual enriquece esses espaços. Muita gente toca esses ritmos, mas, quando se tem a vivência real da cultura, isso traz todo um diferencial. É exatamente isso que quero mostrar nessa oportunidade.
Você se identifica como um transmasculino não binário. O que significa para você ocupar este espaço de destaque e como a sua transição influenciou a sua expressão artística na cabine?
Eve: Significa que minha história faz parte de um legado muito maior, que minha existência se soma a tantas outras para fortalecer um movimento historicamente marginalizado. Basicamente, eu me entendi como uma pessoa trans dentro da Ballroom, convivendo com outras pessoas que estavam no mesmo processo de descoberta, e isso foi crucial para trabalhar na minha autoestima e na minha evolução sonora. Isso me deixou mais motivado a alimentar o meu lado artístico e a melhorar minha performance tanto nas pistas quanto fora delas. Considero que podemos explorar a imagética como um alterego, mas, se isso vem de um lugar genuíno, soa verdadeiramente estético.
“A Ballroom me alimenta de forma afetiva e criativa durante quase toda a minha carreira. Muita gente toca esses ritmos, mas quando se tem a vivência real da cultura, isso traz todo um diferencial.” — Eve
Na Só Track Boa, você vai fazer um b2b com a DJ Delcu. Como vocês estão construindo o esqueleto desse set e como surgiu essa sintonia?
Eve: Fazer b2b é sempre um desafio, mas eu me considero meio especialista nisso! Adoro tocar nesse formato e sinto que aprendo muito com essa troca. Inclusive, eu e alguns amigos idealizamos a Back2Back, uma festa onde acontecem b2b a noite toda, trazendo duplas que nunca dividiram os decks antes. Já toquei com vários nomes da cena e a Delcu foi um desses encontros que deu muito certo.
A primeira vez que tocamos juntos foi na festa Pronta, no Ephigenia, e a pista foi à loucura. Depois também nos apresentamos na Veneno.live, uma rádio underground que fomenta a cena há vários anos. Para além da proximidade profissional, nós temos uma amizade e muito carinho um pelo outro, então rola um entusiasmo natural de que essa fusão na Só Track Boa será mais uma ótima experiência.
O público de festival muitas vezes está acostumado com sonoridades comerciais. Qual a estratégia de vocês para introduzir essa atmosfera mais densa e conceitual sem perder a conexão com a massa?
Eve: Apesar de ser conhecido por sets mais agressivos, tenho uma pesquisa de repertório bem ampla, onde também exploro construções mais limpas, lentas, melódicas e groovadas. Já fiz sets focados puramente em house ou apenas em techno de low BPM. Isso não me torna refém do público, mas me dá alternativas para inserir coisas novas e educar esses ouvidos.
Gosto de ler a pista e ir moldando o set aos poucos. Acho que se o circuito mainstream abrisse mais oportunidades, os curadores conheceriam de perto a nossa versatilidade e veriam como vários artistas do underground podem ocupar qualquer line-up. Basta nos dar o espaço. A cena está mudando, novos subgêneros musicais estão surgindo e é preciso se descentralizar de antigas influências limitantes.
Como produtor há uma década, você sabe criar tensão e liberação em uma faixa. Podemos esperar algum lançamento autoral ou edit exclusivo feito por vocês especialmente para esse show?
Eve: Sim! Estamos trabalhando no nosso primeiro feat juntos. Já tínhamos essa vontade guardada e a ocasião do festival motivou a ideia a sair do papel. A faixa já ganhou uma personalidade forte e mostra muito do que curtimos e gostaríamos de ouvir no festival. É algo dentro da nossa estética noturna que vai agradar em cheio os clubbers.
O “corre” para se consolidar em São Paulo exige estratégia. Qual foi a maior barreira que você superou nesses 8 anos de cidade?
Eve: Para além das dificuldades culturais e da óbvia falta de recursos econômicos que a cena underground LGBTQIA+ enfrenta, migrar de bolhas por conta da minha transição de gênero foi muito desafiador. Muitas portas se abriram com o tempo, mas, até isso acontecer, passei por momentos em que me senti excluído de lugares onde deixei minha colaboração histórica, mas não tive apoio quando precisei.
Hoje vejo isso como uma limpeza necessária, pois me sinto muito mais pertencente aos lugares onde circulo atualmente. Mudar do Rio para São Paulo também pesou muito nas minhas decisões. Precisei trabalhar duro para me inserir, deixar de frequentar alguns ambientes e me provar para continuar frequentando outros. É um movimento estratégico, de muita insistência, porque na nossa realidade os resultados demoram mais a chegar.
Como é a sua preparação mental minutos antes de subir ao palco, sabendo que você se tornou uma referência para tanta gente no público?
Eve: Gosto de pensar que, para fazer uma boa apresentação, a primeira regra é eu me divertir. Me preparo bastante na parte técnica para me sentir completamente seguro. Assim, consigo entregar uma performance cativante, me conectar de verdade com o público, dançar e deixar a minha marca registrada na pista.
Se você pudesse escolher apenas uma track da sua vida para definir o momento atual do Eve na cena hoje, qual seria?
Eve: Acho que a minha faixa “Techno Bolado” expressa bastante a minha atual fase. Após passar pela experiência de realizar algumas turnês internacionais, me vi diante de uma grande evolução na produção musical ao vivenciar outras pistas, sons e culturas no exterior. É uma track muito dançante e que carrega bem essa bagagem.
Para fechar: qual é o recado que você e a Delcu mandam para quem vai colar nesse b2b histórico? O que a pista pode esperar?
Eve: Individualmente, nós dois temos pesquisas muito enérgicas e uma técnica avançada. Quando estamos juntos na cabine, isso se potencializa. Estamos muito animados e felizes em ter esse momento em evidência para mostrar o que podemos construir juntos. Minha curadoria, que traz fortes referências africanas, unida ao som elegante, animado e cheio de latinidade da Delcu, com certeza vai surpreender.
SERVIÇO
Atração: Evehive b2b Delcu
Festival: Só Track Boa 2026
Datas: 5 de junho de 2026
Local: Autódromo de Interlagos (São Paulo/SP)