Com passagens por Curitiba, Belo Horizonte e agora desbravando o Norte do país, o DJ e produtor abre o jogo sobre carreira, superação pessoal e sua busca por uma assinatura sonora única no Tribal House.
A história de Kaleu Venture é um roteiro de paixão e persistência. O que começou com fitas cassete gravadas do rádio e as icônicas compilações do início dos anos 2000, transformou-se em uma carreira sólida, iniciada na exigente cena de Curitiba. Após enfrentar hiatos necessários para cuidar da família e da própria saúde, Kaleu ressurge em 2026 focado na produção musical e na conexão emocional com a pista. Nesta entrevista, ele detalha como suas referências de infância, que passam pelo Pop, Rock e o Eurodance, moldaram seu estilo de contar histórias através dos beats.
Kaleu, sua conexão com a música começou de um jeito clássico: gravando rádios em fitas cassete e colecionando CDs do “Summer Eletrohits”. Como essa curiosidade infantil de “montar seu próprio set” moldou o DJ que você se tornaria anos depois?
Minha conexão começou de forma muito orgânica. Eu buscava músicas no rádio e, com o tempo, consumia as eletrônicas da época, como o Summer Eletrohits de 2005. Ouvia nomes como Benny Benassi, Kasino, Bob Sinclar e as divas do Pop e do Rock, de Madonna a Nirvana. Eu não ouvia de forma passiva: eu buscava pensar em como criar uma sequência entre elas que gerasse energia. Isso moldou diretamente o DJ que me tornei, sempre preocupado em contar uma história na pista ou nos meus sets no SoundCloud e YouTube. Ser DJ não é apenas tocar músicas soltas, é transmitir o que você sente para quem está ali. É um trabalho de coração e alma.
Sua carreira profissional deu o pontapé inicial em 2013, no Side Club, em Curitiba. Como foi a experiência de passar quase quatro anos como residente em uma das cenas mais exigentes do país e o que essa fase te ensinou?
Curitiba foi uma escola real. É uma cena onde o público percebe imediatamente se o DJ está conectado ou apenas executando. Essa fase me ensinou disciplina, consistência e, principalmente, leitura de pista. Aprendi a entender o momento da noite e como conduzir a energia do público de forma inteligente. Embora eu não tenha ficado sete anos como residente lá, aqueles quase quatro anos foram fundamentais para desenvolver minha base e referências como profissional.
Após o ciclo em Curitiba, você mergulhou na produção musical com o curso do Diego Santander. Como entender o “esqueleto” das músicas mudou sua percepção artística?
A produção me fez querer ir além das mixagens. Eu queria entender a estrutura, as escalas tonais e a dinâmica para criar meus próprios enredos sonoros. O curso com o Santander foi um divisor de águas: passei a enxergar que eu posso e quero ir mais longe. Hoje, toco com muito mais intenção e vontade porque entendo como cada elemento da música funciona para impactar a pista.
A vida de artista pede pausas, e você precisou se ausentar para dar suporte à sua família e cuidar da saúde. Como esse tempo fora dos holofotes ajudou a amadurecer sua visão sobre a música como refúgio emocional?
Essa pausa foi mais que necessária. Foi uma escolha para cuidar de quem precisava de mim, especialmente minha mãe, e para me afastar de coisas que me prejudicavam no passado. A música me ensinou a lidar com perdas, inclusive a do meu pai, e com o processo do perdão. Esse tempo me ajudou a entender quem é o Josimar por trás do Kaleu e como a música é minha força emocional para seguir em frente.




Você passou por Belo Horizonte e agora está em Rondônia. Quais são os maiores desafios de desbravar o Tribal House em regiões onde o som predominante é outro?
Cada região tem sua dinâmica. Infelizmente, ao sair de Curitiba, enfrentei dificuldades de reconhecimento e poucas oportunidades dos produtores, mas sigo pronto para negociar e mostrar meu valor. Em Rondônia, onde predominam o sertanejo e o funk, o desafio é ainda maior. Acredito que o potencial do Tribal acontece quando o público se permite ouvir. É um trabalho de formiguinha para influenciar as futuras gerações e criar uma cultura eletrônica mais enraizada.
Qual é o diferencial sonoro que você busca imprimir para que o público identifique imediatamente um “beat” assinado pelo Kaleu Venture?
Busco um lugar de refúgio e identidade. Minha assinatura traz o peso do Tribal House atual, mas com a história de um DJ que começou lá atrás. Gosto de trabalhar com elementos rítmicos marcantes: atabaques, agogôs e trompetes, que remetem às nossas raízes brasileiras e religiosas. Adiciono também texturas como o leque e o chicote, buscando criar um enredo que seja nostálgico e moderno ao mesmo tempo.




Temos notícias de novos mashups prontos para lançamento. O que a galera pode esperar desses novos trabalhos?
Eles trazem uma mistura de vocais icônicos, tanto do Pop quanto de clássicos da cena, com elementos fortes de percussão. Têm uma pegada nostálgica, mas com o peso necessário para as pistas de hoje. Estou em constante evolução para que cada novo trabalho soe melhor que o anterior.
Qual o segredo para manter a técnica e o ouvido atualizados mesmo quando não se está tocando todos os finais de semana?
O segredo é nunca parar de ouvir. Ouço rádio, ouço o que meus colegas estão produzindo e estudo constantemente. A técnica hoje não está só nos decks, mas também no software de produção. O ouvido é nosso melhor aliado: é preciso analisar o que funciona e o que não funciona na cena atual.
Qual você considera que foi a sua maior conquista pessoal dentro do universo da música eletrônica?
Foi criar o Kaleu do zero. Em Curitiba, recebi muito incentivo para não desistir e persistir nos meus sonhos. Minha maior conquista é saber quem eu sou todos os dias e entender que não preciso viver de um passado ruim, mas sim do que me motiva e me dá forças para continuar.
Para fechar: quais são as metas do Kaleu Venture para 2026? Como pretende reconectar seu som com as grandes pistas do Brasil?
Minha meta é o diálogo constante com produtores para agendar novas datas e estar aberto a negociações que façam sentido para ambos os lados. Quero continuar estudando, produzindo mashups exclusivos para as festas e fortalecendo minha conexão com o público. O objetivo é entregar 50/50: o que o público quer ouvir e o que eu acredito que vai surpreendê-los positivamente.