COLUNA | SYNC

Hoje trago um tema que sempre rende pano pra manga e muitas discussões entre os DJs: o uso do famoso botão “SYNC”.

Não pretendo esgotar o assunto. Daria para escrever um livro sobre as tretas e as polêmicas envolvendo-o, mas irei mostrar dois lados da questão, e provocar algumas reflexões.

Para quem não está familiarizado, trata-se de um recurso em que ao apertar um botão, como num passe de mágica, as duas músicas que estão tocando ficam perfeitamente sincronizadas.

O SYNC foi “inaugurado” no CDJ-2000 Nexus, do fabricante norte-americano Pioneer DJ, em 2012 e desde então está presente em todos os lançamentos da marca, que domina o mercado de equipamentos para DJ.

A mágica, porém, só acontece em determinadas condições: as picapes, ou seja, as CDJs, devem estar “linkadas” através de um cabo de rede e as músicas devem ter sido previamente “tratadas” no computador, usando o software Rekordbox da Pioneer.

É a salvação da lavoura, né non?

Basta chegar com seu pendrive, apertar o SYNC na hora de fazer a passagem e está tudo resolvido.

Assim qualquer um pode ser DJ, não é mesmo?

Esse é o motivo da revolta de muitos DJs, especialmente alguns veteranos.

Vários deles aprenderam a tocar no vinil, ou ainda nas primeiras CDJs, que eram tão rústicas que sequer mostravam no visor a velocidade da música (BPMs, ou batidas por minuto).

O primeiro passo para sincronizar duas músicas é garantir que as mesmas estejam tocando na mesma velocidade.

Você tinha que anotar na capinha do CD o BPM de cada música, e para passar de um BPM para outro, usava intrincados cálculos matemáticos, que com o tempo acabava decorando.

Por exemplo, se a música era gravada em 128 BPMs, que é o padrão da indústria, para tocar em 130 BPMs, você acelerava em +1,5% na régua do aparelho.

Aí sim, estando as duas no mesmo BPM, você dava início ao processo de mixagem.

Que embora pareça difícil para um leigo, para quem toca não tem grandes dificuldades.

Por isso, segundo eles, o SYNC não deve ser usado em hipótese alguma. Quem usa SYNC não é DJ de verdade.

Estão sempre de olho pra ver se alguém está usando o recurso e ficam tão revoltados que chegam a fazer posts com indiretas em redes sociais. Que feio!

Já uma outra corrente de DJs, prega que o SYNC pode ser usado em duas situações bem específicas:

1) Fazer live mashups usando uma base instrumental e uma “acapella”. Ou seja, misturar os dois ao vivo, lá em cima, no palco. Nesse caso, o uso estaria justificado. É bastante difícil, mesmo para ouvidos muito treinados, sincronizar com perfeição a voz com a base. A voz contida no “acapella” não tem nenhum elemento rítmico que sirva de referência para ajudar.

2) Você é o Alok ou o Vintage Culture. Está numa mega apresentação, usando quatro CDJs simultaneamente.

Nesse caso, alimentar e mixar tudo realmente fica humanamente impossível, então nesse caso o SYNC estaria “liberado”.

Ano passado a Pionner lançou um mixer top de linha com seis canais. Agora dá pra tocar até seis CDJs ao mesmo tempo. Todas devidamente “linkadas” e “syncadas”!

A reflexão que eu trago é a seguinte: ser DJ é somente sincronizar batidas?

Se fosse só isso, a profissão já tinha acabado. Uma jukebox, com inteligência artificial, já teria dominado as pistas, tocando os últimos hits.

Sincronizar batidas é apenas uma parte da técnica. Esta que pode, e deve, ser aprendida em qualquer curso, e que precisa sim ser bastante dominada por qualquer DJ.

Porém, a arte de tocar é muito mais que isso e não se aprende em curso.

Tocar é se expressar. É emocionar e surpreender seu público.

Existem dois passos importantes para se tornar um grande DJ. O primeiro deles é buscar sua identidade musical. Seu repertório. É passar madrugadas em claro pesquisando músicas, produzindo suas próprias versões, para poder tocar a música certa, na hora certa, no momento certo.

Encontrar a própria identidade musical é algo que cada um faz no seu tempo, mas pode demorar anos.

O segundo passo, na minha visão, é ter a capacidade de construir um bom set. Construção de SET é algo que vem também com o tempo e a experiência. Passar sua mensagem, de acordo com o local, horário e público, mantendo sua identidade musical. Contar uma história através de músicas, que combinadas formam uma jornada musical, com começo, meio e fim.

A cena atual é cada vez mais frenética e o próprio público parece não ter mais paciência para ouvir uma música inteira.

Muitas vezes o DJ tem que trocar a música na metade. O tempo é cada vez mais reduzido para procurar a próxima faixa, colocar no ponto, olhar a pista, interagir com o público…

Se o profissional achar que aqueles segundos gastos sincronizando duas músicas, poderiam ser mais bem utilizados para tornar seu SET mais dinâmico usando efeitos, fazendo live mashups, interagindo mais com seu público? E se quiser usar o SYNC em alguns momentos, que mal tem? Ele está ali para agradar ao público ou aos outros DJs?

Precisar usar, não precisa. Mas se quiser usar, também não tem problema. Não cometeu crime nenhum. Crime é entregar uma pista morna, é tocar um set tecnicamente perfeito, mas apagado, que não agradou nem desagradou, passou batido e do qual ninguém vai lembrar.

Então aqueles veteranos, fiscais de “SYNC”, poderiam primeiro olhar para o próprio umbigo e fazer uma reflexão: Será que é isso mesmo que precisamos para fortalecer nossa cena? Será que não seria melhor nos unirmos todos? DJs são a classe mais desunida. Precisa urgente de mais amor, respeito e cooperação. A mudança começa por cada um.

Ajudar o colega não traz concorrência, traz parceria!

A gente admira muito quem tocava na famigerada CDJ-100S da Pionner, da época em que os dinossauros habitavam a terra e os remixes tinham oito minutos de duração.

Vocês são realmente guerreiros, porém o mundo agora é outro.

Os remixes agora tem quatro minutos de duração, dos quais a pista vai ouvir só dois. A tecnologia está aí para ajudar e não para roubar o emprego de ninguém.

Quem é talentoso sempre terá seu lugar ao sol.

Por último, acrescento ainda :

– SYNC sincroniza BPMs, não compassos. Toda música é composta por batidas, e estas batidas formam conjuntos chamados compassos, que podem ser de 4 ou de 8 batidas. Para duas tracks tocarem juntas, além dos BPMs, os compassos devem estar sincronizados. Se não estiverem, pode acontecer uma confusão sonora, embolando tudo.

Por isso, até para usar o SYNC, o ouvido tem que estar treinado. Tem que apertar o play no momento certo.

– SYNC não tem 100% de eficiência. Sem entrar em muitos detalhes, mas se a música não estiver corretamente alinhada à “grade” no Rekordbox, a passagem vira uma sofrência.

– SYNC não garante pista fervida.

Então, respondendo à pergunta lá de cima: Não, não é qualquer um que pode “virar” DJ usando o SYNC.

Ele é apenas um recurso que está lá e pode ou não ser usado. É da consciência de cada um se vai usar e quando vai usar.

Usar o SYNC não faz mais DJ ou menos DJ do que ninguém. O que faz ser DJ é repertório, feeling de pista, presença de palco e conexão com o seu público.

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