COLUNA | A sexualização dos flyers e dos DJs da cena LGBTQIA+

Vocês já pararam para observar os flyers dos grandes clubes nacionais tipo Warung, D-edge ou Laroc? E os flyers de selos ou festas gringas tipo Defected ou Ministry of Sound?

Por favor, antes de ler essa matéria joguem no Google (flyer + festa + nome da casa ou evento).

Agora observem os flyers dos clubes e festas LGBTQIA+ mundo afora (não apenas no Brasil) e, sobretudo, os flyers do segmento House Tribal (quase sempre com aquele gostosão praticamente pelado + o nome da festa). Vocês não têm a impressão que já viram o mesmo flyer e o mesmo gostosão umas 800 vezes antes?

Um flyer deveria ser para resumir o espírito, a sonoridade e a proposta da festa e destacar os DJs/atrações que irão tocar. Tendo como base essa informação, eu vos pergunto: por que quase todo flyer de festa gay se resume a um Boy musculoso seminu ou sem camisa?

Em quantas artes vocês já viram Alok ou Vintage Culture sem camisa? (e olha que os dois são 2 gostosos). Ou as DJs Sam Divine da Defected ou Nina Kravitz (ambas referências mundiais) de biquíni? Bem, se em 1 ou 2 flyers (dos 100) que eles estampam pelo mundo, eles estavam botando as carnes para jogo, estaria tudo ok! Afinal, seria 1 para 100 e não 100 pra 1 (caso da nossa cena).

Nas publicidades desses ditos clubes “héteros” o DJ-atração é valorizado com sua foto de rosto ou vestido ocupando mais da metade dela, e sempre com a sua logo fazendo do profissional o que realmente é: o condutor e a atração da festa que o clube em si acredita e aposta para a noite escolhida.

Já no cenário LGBTQIA+, os DJs quase sempre são substituídos pela foto de um “gogo” ou de um modelo em trajes mínimos e os seus nomes estão sempre ali no canto, pequeno, ou detrás da imagem do gostosão pelado que chama mais a atenção das Syag do que os verdadeiros comandantes da festa.

E quando e como começou essa “cultura do nu”? Da “descamisação” dentro da cena musical gay? Por que em festas ou baladas ditas héteros, 90% delas é proibido tirar a camisa?

Em resumo, e pela observação (eu, opinião minha) essa cultura do público descamisado começou junto a cultura do próprio DJ ficando descamisado (porque parte do público mais exibicionista estava ficando). Tipo um efeito dominó de espelhos e narcisos, só que sem camisa! Rs 🙂

Mas saindo do flyer e focando agora no DJ sem camisa, que malhou a semana toda e quer exibir seu shape do alto de um púlpito para os seus seguidores, você abre as suas redes sociais e lá está ele quase sempre sem camisa ou de sunga… Por algum momento você chega a pensar que entrou em um app de pegação e não em uma rede social de DJ. Agora, o tal DJ tem culpa de ser gostoso, bonito e malhado? Não, ele não tem! Mas ele tem a culpa de explorar mais a sua embalagem (do que o seu conteúdo) e sexualizar a sua imagem. Lembrando que, quem vive de imagem é modelo, DJ vive e trabalha com e para a música. Não se deve fazer desse “Nu” o seu principal atrativo e motivo de venda como profissional da música.

Um profissional (de qualquer área) de verdade gostará de ser lembrando pelo seu talento, pelo seu trabalho e, no nosso caso, pela nossa música. Afinal, o DJ é apenas um elemento conector da música com o público. O criador nunca será mais importante que a criatura. David Guetta não é maior que seu hit “Titanium” (mesmo nesse caso tendo sido ele o criador do hit). Porque no final de tudo é a música que fica pra posteridade e com o passar dos anos será tocada.

A desculpa de que tá muito calor na boate e precisei tirar a camisa (ai mana, não me faça rir!), não rola! Até porque:

1 – não existe boate gelada;

2 – euzinha aqui toco montada praticamente a vácuo e nunca fiquei nua;

3 – a grande maioria dos outros DJs também tocam e suportam o calor vestindo suas camisas.

O DJ deve lembrar que a cabine é um local de trabalho e chega ser um local sagrado para alguns (para mim, por exemplo!). Um local onde você tem o privilégio de exercer uma profissão quase sempre que se divertindo, sorrindo, dançando e, até mesmo, bebendo, mas você continua TRABALHANDO (deixa pra biscoitar quando descer e terminar o trampo).

O problema não é ver 1 ou 10 DJs sem camisa, o problema é ver que todos eles seguem a mesma cartilha que parece ter sido escrita por um personal trainner. Lembra dos flyers que falei acima? pois os flyers passaram também a ditar o material gráfico/visual e promocional da maioria dos DJs. Todas as poses e fotos ficaram muito parecidas, muito sexualizadas, seja com ou sem ajuda do photoshop para angular melhor os peitorais definidos, os closes de sovacos e caras e bocas a la Bel-Ami. Será que eles pensaram: “oras, já que vão colocar um gostoso pelado no flyer, que seja eu mesmo esse gostosão!” rs:)

Se voltarmos aos primórdios das festas gays do Studio 54 ou do Paradise Garage, ou até nas fotos das boates nacionais como Homo Sapiens ou a Nostromundo, veremos um público gay montadíssimo, beirando o fashionista, ditando moda e cheios de adereços (e eles faziam as mesmas loucurinhas no banheirão que os descamisados-biscoiteiros de hoje fazem).

Por que se perdeu essa cultura da “festa” se o próprio nome diz “FESTA”? Por que tudo ficou tão sexualizado? Culpa das drogas? Do boom das academias? Da liberdade conquistada com o passar dos anos (lembrando que antes, dentro das boates GAYS, também éramos livres)?

Aliás, as boates gays foram feitas para isso, para cada um ser o que deseja, se vestir ou se despir como queira, mas não é normal ver um público 85% massificado apenas usando uma calça jeans? Toda unanimidade é burra, já dizia Nelson Rodrigues. Se já temos bares e saunas com essa finalidade sexual, por que as boates também passaram a ser tão “sexuais”? Bem, isso daria pencas de matérias, estruturadas em centenas de artigos, alguns até científicos…

Partindo do ponto de vista de que “o belo é para ser admirado e visto”, eu (leia-se eu, opinião minha) quando vou a um club, não me importo com o público descamisado, mas me incomoda ver um DJ sem camisa. Apenas ressaltando, que eu não condeno quem sexualiza seu material promocional como DJ (desde que a sua música e o seu trabalho esteja a altura), mas não venda “Biscoito por lebre” para um público que necessita voltar a valorizar profissionais verdadeiros independentes do seu tanquinho.

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