COLUNA | O Êxodo de DJs ícones da cena LGBTQIA+ para outras tribos

Se hoje estivesse vivo, Peter Rauhofer estaria ainda tocando na cena LGBTQIA+ ou teria como vários outros DJs migrado para outro estilo ou para a cena “hétero”?

Levando em conta que a última vez que Peter se apresentou no Brasil foi no carnaval de Floripa pela The Week em 2013, eu deixo uma pergunta para reflexão de cada um de vocês, que deve apenas ser respondida após a leitura dessa singela matéria.

“No final dos anos 90, os clubes gays e heterossexuais tocavam o mesmo tipo de música, não importava aonde você̂ ia. Hoje há muitos estilos diferentes de dance music. Nos clubes de público heterossexual, é muito difícil saber qual estilo estará́ tocando. Há trance, deep, house, disco…
Nos clubes gays a música é sempre a mesma. Você vai ouvir a mesma coisa no Brasil, em Nova York, em Los Angeles… É um tipo de som que funciona em qualquer lugar. Os frequentadores de clubes heterossexuais têm a cabeça mais aberta e estão dispostos a ouvir coisas novas.”
(Peter Rauhofer – São Paulo, domingo, 22 de maio de 2005 para a Folha de SP)

Vamos então lembrar alguns desses super DJs que já foram residentes de clubs e festas 100% LGBTQIA+ e hoje em dia não tocam mais para este publico “exclusivamente gay”.

Começando com o meu favorito, Mr. Danny Tenaglia (Nascido em NYC), que em 1995 lançou seu primeiro álbum autoral “Hard & Soul” pelo selo “Tribal Records”. Neste álbum, Tenaglia usou como base o house clássico dos anos 90, adicionou percussões, vozes étnicas e elementos bem obscuros/darks transformando praticamente o “Hard & Soul” no que hoje poderia ser o álbum-pai da vertente que no Brasil chamamos de “Tribal House”.

Uma outra teoria para a criação desse termo “Tribal House” seria pelo nome da gravadora “Tribal Records”, já́ que quase todos os DJs famosos dos clubes gays da época estavam e/ou começando lançar os seus singles/álbuns/projetos por ele. Nomes de peso como Junior Vasquez, Murk, Angel Moraes, e até Peter Rauhofer que começou nele assinando como “Danube Dance”, todos figuravam no catálogo da Tribal Records. 

Em 1998 Danny Tenaglia lançou “Tourism” (disco obrigatório de cabeceira de qualquer DJ da cena gay). Uma obra-prima-zero-defeitos aclamada por público e crítica e imortalizada com o clássico “Music is the answer” com vocais de Celeda.

Eu poderia falar da sua discografia, das nominações ao Grammy, dos remixes fundamentais que Tenaglia fez e tocou, e das suas residências icônicas nos mais famosos clubes gays de NYC como RoxyTwilo. Também da única (e última) vez que Danny Tenaglia tocou na The Week SP na semana da pride de 2006, onde ele mesmo já dizia e deixava claro: “Não gosto de ser associado a um tipo específico de público”. E de lá pra cá seu som seguiu se atualizando até a presente data, o que levou à sua agenda lotada mundo a fora e sua residência todo verão em Ibiza, porém ele está longe de qualquer pista LGBTQIA+ por não comportar mais seu som.

Outro DJ de NYC que era figura de carteirinha ao redor do mundo nas festas gays, sempre chamado por divas do calibre de Gloria Estefan, Beyoncé, Goldgrapp, e um dos DJs queridinhos de Madonna (presente em 9 singles dela), Victor Calderone, tinha um som com elementos darks da velha escola nova-iorquina, mas que já flertava com o Progressive House, tornando sua sonoridade única. Em 2007 Victor Calderone se apresentou na The Week SP, e como quase todas as vezes, um DJ gringo com uma nova sonoridade, dividiu as opiniões dos clientes.

Embora suas realizações como remixer/produtor e DJ fossem bem conhecidas e consolidadas entre os frequentadores da cena gay (até projetos com Peter Rauhofer ele fez), Victor escolheu evoluir musicalmente e se reinventou dando 180 graus na carreira e tocando hoje em dia Techno e Tech-House.

Outro veterano e um dos primeiros DJs a tocar sem camisa nas cabines, David Morales, ganhador de Grammy, remixou de Mariah Carey a U2, de Michael Jackson a Aretha Franklin, de Madonna a Whitney Houston passando por Pet Shop Boys. Pode ser considerado além de um dos pais da House Music junto com Frankie Knuckles, um dos primeiros DJs superstar a fazer turnês pelo mundo. Mesmo com toda essa bagagem ele tocou pela última vez em club gay no Brasil em 2007 na The Week Rio. David segue fiel a sua sonoridade Classic-House até hoje e claro fora dos olhos de qualquer pista ou evento LGBTQIA+.

Eu poderia falar também dos espanhóis “Chus e Ceballos”, e do seu “Tribal Ibérico” que reinou das pistas gays da Espanha e depois pro mundo e claro também aqui no Brasil e na The Week. Poderia também falar do “Oscar G” (que fazia dupla com o Murk) e fez um dos discos mais emblemáticos da cena gay como “Funky Green Dogs. Mas hoje em dia tanto “Chus e Ceballos” quanto “Oscar G” migraram a sua sonoridade para as tribos do “Tech-House” e do “afro-house” (um tribal mais lento e elegante).

Mais do que “o porquê” desses DJs terem “desistido” – digamos assim – da cena LGBTQIA+ e as suas sonoridades atuais terem ficado inviáveis para os clubes/festas no Brasil importarem e apresentar-se pra o seu publico gay atual, é preciso saber “o porquê” que o nosso estilo carinhosamente apelidado de “Tribal” ou de “Bate-cabelo” e que já pariu uma sub vertente chamada “TAGARADADA” estagnou e não temos sequer um único representante deste estilo em grandes festivais que abraçam vários estilos como deep, tech, techno, EDM? Será que não sobra um espacinho pra o tal do Tribal House em um Tomorrowland por acaso?

Quem acompanha Offer Nissim (digamos que hoje a última DJ celebridade gay) vem notando a tempos um processo de mudança no seu som e na sua obra. Ela vem baixando gradualmente o BPM e se aproximando mais da velocidade do house clássico (124-126bpm). Você pode conferir essa mudança no último set de Offer em seu SoundCloud.

No Brasil temos o caser da “ex” DJ Paty Laus (que foi residente na Concorde em Floripa) e migrou pra cena eletrônica e hoje é residente do Warung com o seu reconhecido projeto Blancah. Por que será que Paty desistiu da cena gay e migrou para uma cena considerada “hetero”? Bem isso rende uma matéria completa a ser feita a parte com a própria Blancah.

E os DJs do calibre de Ralphi Rosario e Abel Aguilera que chegavam a vir tocar 2 vezes por ano no Rio e em São Paulo e desde 2016/2017 não pisam mais por aqui? O som deles não se encaixa mais com a nossa realidade?

Neste 2020 eu presenciei outro veterano e talvez um dos últimos sobreviventes dessa levada rica de DJs maravilhosos, Tom Stephan (a.k.a Superchumbo), que esteve tocando no Rio e dividindo o line com essa biba que vos fala.
Nesta ocasião eu pude presenciar 2 aulas dadas por Tom. Uma aula foi de musica (O cara misturou hits históricos, clássicos passados com beats e hits atuais), e a outra aula foi de esforço pessoal dele como DJ em tentar entregar o melhor e se conectar com o publico LGBTQIA+ carioca que preferia ouvir na hora e no lugar da musica que ele escolhia com tanta dedicação e entrega, um remix da Anitta ou do Pabllo Vittar (Não que não tenha bons remixes dessas 2 estrelas, eu mesmo já fiz um pra Pabllo! rs).

Aí fica a questão:

Existe DJ errado para público certo, ou um público errado ouvindo um DJ certo? Afinal o DJ que antes levava para a sua pista a informação, dedicação, pesquisa, e novidades foi substituído pelo DJ-Junkebox que o publico paga (a entrada) e o mesmo publico dita as regras das músicas que quase sempre são as mesmas?

Até onde ele precisa obedecer a esse mercado pra agradar os contratantes e garantir uma agenda cheia? Existe limite?

Uma coisa é certa, ele toca para o público. Ele precisa dessa energia para abastecer o feeling dele, mas o público precisa entender que uma pista de dança são várias cabeças, vários estilos, vários grupos, e que cada profissional tem a sua identidade (ou ao menos deveria ter) e a sua sonoridade.

Ler um flyer nunca custou adicional de preço a entrada (#FicaAdica). E justo nós que cobramos tanto respeito aos LGBTQIA+ devemos dar o exemplo como público e também respeitar os profissionais da noite (tenha certeza que mesmo errando a mão em alguma apresentação, ele errou porque tentou agradar, levar algo novo ou não foi bem naquela noite porque a tal vibe não pousou na pista).

Ninguém quer voltar pra casa com o público falando mal e fechando uma porta com um contratante. Ninguém, meus caros, podem ter certeza!

Apenas com atitudes assim (de respeito) poderemos ver um dia os DJs retro-mencionados nesta matéria voltando a tocar nas nossas pistas gays que sempre foram sinônimos de pluralidade, qualidade e alegria.

Ahh, lembra da pergunta que fiz no início da matéria? Trouxe a respostas de profissionais conhecidos da cena Gay pra você ver o que eles também acham… (na dúvida vou repetir pra vocês a pergunta)

“Se hoje estivesse vivo, Peter Rauhofer estaria ainda tocando na cena LGBTQIA+?

Seguem as considerações de alguns DJs veteranos.

DJ Gustavo Vianna
NÃO! Peter Rauhofer manteria sua essência com aquele groove somente dele e que hoje não agradaria boa parte da cena LGBT tão acelerada.
Creio que ele estaria produzindo desta forma, inspirado em suas próprias produções quando assinava como Club 69, com versões: Future, Anthem, Underground, Dub. Mas exclusivamente para cena LGBT não estaria. Assim como aconteceu com Victor Calderone, Danny Tenaglia, Deux entre outros.

Paulo Agulhari
SIM! mas ele transitaria entre as duas cenas com maestria. Peter sempre foi visionário em questão de musicalidade.

Macau (da dupla Altar)
SIM! Creio que o Rauhofer, se vivo fosse, estaria tocando ainda na cena LGBTQIA+. Ele sempre teve um DNA marcante e ousava na pista com suas produções. Mesmo que tivesse que se render aos vocais da cena pop, o Peter com certeza iria dar o seu toque inusitado. Ele de fato imprimiu novidades na pista, que variavam do comercial ao underground.

Paulo Pacheco
NÃO! Ele migraria pra outra cena porque o nível e a qualidade da música do Peter não atende ao esse público atual que consome musicas curtas, BPM rápido em um set curto.

Andre Garca
SIM! Quando o mainstream começou a consumir a House, um leque se abriu e muitos DJs se posicionaram fora da cena gay pra tocar o que queriam e aproveitar a demanda de uma cena maior e com mais dinheiro. E o Peter continuou focado e começou a ditar o rumo da sonoridade na pista gay. Isso funcionou tão bem que colocou ele numa posição confortável: de um DJ gay, tocando o que queria para as gays, sem rejeição, tornando-se o nº 1 do circuito, ganhando um cachê altíssimo. Não faria sentido sair de uma cena onde ele ditava as regras.

Mauro Mozart
NÃO! Ele mudaria porque o público não iria se adaptar com o som dele!

Gsp
Definitely he would still be playing for the gay scene. His style was never too “circuity” (the way we know it today). He had his own signature. His style was appropriate in any scene. The reason he would still be playing was because he was a big supporter of the gay scene and maybe now would still have a class as it had back then.

Definitivamente, ele ainda estaria tocando para a cena gay. Seu estilo nunca foi muito “Circuito” (do jeito que conhecemos hoje). Ele tinha sua própria assinatura. Seu estilo era apropriado em qualquer cena. O motivo pelo qual ele ainda estaria tocando na cena era porque ele era um grande defensor da cena gay e talvez agora ainda tivesse uma aula como naquela época.

Tom Stephan
I actually think Peter changed his sound for the gay scene already. His later productions and remixes were more big room circuit sound compared to his earlier work on Twisted. I played a few Nervous Records parties with him and I know he was interested in playing outside that scene. But I believe it was because he wanted to appeal to both crowds in the way that Chus & Ceballos do. It’s hard to say though because years ago, the two scenes were closer together musically than they are now. Either way, I’m sure he would be making amazing music as he always did!

Na verdade, acho que Peter já tinha mudado seu som para a cena gay. Suas produções e remixes posteriores foram mais som de circuito “Big Room” em comparação com seu trabalho anterior no selo Twisted. Eu toquei algumas festas do selo Nervous Records com ele e sei que ele estava interessado em tocar fora dessa cena. Mas eu acredito que foi porque ele queria atrair os dois públicos da mesma maneira que Chus & Ceballos fazem. É difícil dizer, porque anos atrás, as duas cenas eram musicalmente mais próximas do que estão agora. De qualquer forma, tenho certeza que ele estaria fazendo músicas incríveis como sempre fez!

Bruno Knauer
Sim, ele continuaria na cena LGBTQIA+ porque era muito respeitado e consagrado neste meio, mas isso não o impediria de também atuar com outros estilos, como tem acontecido com muitos DJs hoje.

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