COLUNA | “Se eu ficar em casa, eu surto!”: a desculpa para a desobediência sanitária da classe média brasileira diante da Pandemia

Em meio a quase 200 mil mortos no Brasil em decorrência da COVID-19 e com a chegada das festas de final de ano junto ao verão, esta tem sido a frase mais utilizada por um nicho específico de brasileiros: “se eu ficar em casa, eu surto!” Mas quem é o brasileiro que diz esta frase? Tentarei manter uma certa distância dos meus afetos pessoais e qualquer tipo de achismo, para olhar para este fenômeno como um antropólogo que lança mão da etnografia entendendo determinada cultura e suas trocas simbólicas, como fazia o antropólogo polonês Bronisław Kasper Malinowski, que se dirigiu a ilha de Mailu (Austrália) em 1915 para entender os costumes dos povos tradicionais fundando então um método de pesquisa específico no campo da antropologia.

Mas então, de onde vem esta frase? Eu a escutei repetidas vezes, principalmente, de colegas próximos a mim ou mesmo de vizinhos, conhecidos e até mesmo dos meus próprios pacientes em meu consultório particular que compartilham a mesma realidade socioeconômica que eu, em sua maioria pessoas brancas e de classe média residentes da Zona Sul. Pessoas que de uma certa maneira, puderam se isolar socialmente desde o início da Pandemia em suas casas ou mesmo “casas de veraneio” para cumprir a quarentena diante da Pandemia do novo Coronavírus. Pois é, não estou falando do pequeno comerciante, que seja ele um camelô ou não, da diarista, do empregado da construção civil ou dos profissionais de saúde (ainda haja diferenças radicais entre eles dependendo de suas formações e histórias de vida). Para que possamos ilustrar este último grupo, temos a Dona Joaquina, mulher negra, matriarca de uma família pobre, residente da periferia e que costuma vir a minha casa semanalmente me auxiliar nas funções domésticas. Apesar de ter permanecido em casa durante mais ou menos os seis primeiros meses, desde o início deste Pandemundo, nos últimos dois meses sua rotina se estabilizou e ela retornou às várias casas com o seu trabalho como diarista. A cada chegada de Dona Joaquina, sento com ela e no nosso café da manhã me conta do tumulto dos ônibus, dos supermercados, do filho que foi demitido, das mortes próximas a ela. Não é dela que estou falando, inclusive, apesar de discordar pessoalmente de sua decisão para se divertir, entendo que aos finais de semana ela se sente num bar mais ou menos entupido de gente e toma a sua cervejinha no bairro onde reside usando máscara e passando álcool em gel nas mãos. O proletário real já se sente privado de inúmeras coisas em sua vida, inclusive de seus direitos básicos, para conseguir cumprir de modo radical a proposta do isolamento social, ele já está exposto em grande parte de seus dias e não consegue compreender medidas que para ele soam tão radicais.

Já o público que se diz “sem saúde mental para ficar em casa” é um público que ainda tem a escolha de ficar em casa como medida necessária para a contenção da disseminação do vírus – medida sanitária principal neste momento, como nos explicou incansavelmente a pesquisadora da FIOCRUZ Dra. Margareth Dalcolmo – e que inclusive teve acesso a formações de nível superior que ofereceram instrumentos para avaliar o que seria uma Pandemia e como se multiplicam os vírus. Obviamente que não queremos pessoas deprimidas ou com crises de ansiedade por permanecerem trancafiadas em seus apartamentos, mas lembrem-se que o Brasil não decretou um lockdown como fizeram os ingleses, por exemplo. Você permanece com o seu direito de ir e vir, desde que este direito não se sobreponha ao direito do próximo de não ser contaminado, podendo-o levar à morte pelas complicações da doença.

Reprodução TV.

Podemos tomar como uma ilustração daqueles que se dizem “sem saúde mental para ficar em casa” alguns colegas (inclusive do mundo LGBTQIA+) que decidiram se aglomerar nas festas eletrônicas na cidade do Rio de Janeiro entre o Natal e o Réveillon. Esta frase foi repetida por vários deles, mas quando se coloca uma lupa em seus cotidianos, poucos são aqueles que de fato permanecem dentro de suas casas como num confinamento: frequentam as casas dos amigos uma vez na semana, frequentam as academias de ginástica entre 2 ou 4 vezes por semana, marcam com seus “crushs” quando estão muito entediados e até, alguns, mantêm aquela cor do verão carioca típico de quem frequenta Ipanema sem que utilizem máquinas de bronzeamento artificial.

Nesta altura, também gostaria de dar um outro destaque: não se trata apenas da péssima educação sanitária e falta de senso de coletividade oferecidos aos brasileiros em suas formações escolares. Há aglomerações por todo o mundo, desde o Paraguai até a Alemanha, inclusive os europeus começaram a pagar um preço caro assim que se finalizou o verão europeu e após um verdadeiro deslocamento em manada dos povos do norte da Europa para as praias do sul, como na Itália, Grécia, Espanha e Portugal.

Freud em seu texto de 1930, Mal-estar na civilização, já nos advertia que o próximo não é alguém exatamente que eu queira um bem a não ser que ele possa me servir de alguma maneira, que ele possa ser uma fonte de satisfação. Ele diz isto para destacar a impossibilidade de se exercer o altruísmo já que mesmo um religioso fervoroso que vai para as ruas levar comida aos mais necessitados, no final das contas, algo perpassa os seus próprios narcisismos, neste caso, o de ser um homem temente a Deus e que tem sua vaga garantida no Reino dos Céus.

Para vivermos em civilização, segundo o pai da Psicanálise, foi necessário que abríssemos mão de uma certa quantidade de satisfação para que pudéssemos conviver e produzir: isto acontece em nossos trabalhos, nas nossas formações, da vida em família e no desenvolvimento da ciência. Abrimos mão de uma vida de puro gozo para buscarmos algum progresso civilizatório, podendo inclusive ser o meu próprio ou o de minha comunidade. Neste mesmo texto, ele faz um destaque ao nosso próximo, dizendo que não é à toa que é ele a PRINCIPAL fonte de mal-estar, quando ele me impede que eu possa usufruir do gozo que eu queira, que me diz o tempo todo quais são os meus deveres antes de dizer dos meus direitos. Esta figura pode ser desde sua família, amigos ou até mesmo seu patrão. No momento atual, são os pesquisadores da FIOCRUZ ou os representantes da própria OMS. Não há nenhum momento da história da civilização que se pode gozar da vida sem restrições, sem que se tenha que obedecer algumas orientações (e neste caso eu me refiro a ciência e não ao achismo pseudocientífico de muitos, inclusive de muitos profissionais de saúde que prescrevem medicações sem comprovação científica) para que possamos sustentar o nosso pacto social.

Durante a Pandemia, escutando muitos pacientes, isto ficou bastante claro: ainda que o medo da morte pela doença permeasse as diferentes falas logo no início da Pandemia, depois de três meses, a convivência com o próximo passou a ser a fonte de seus principais incômodos. Deste modo, não é exatamente a circulação pela cidade que está mais restrita que te faz sofrer, mas o modo como um laço social se estabeleceu entre você e o próximo, é disso que você precisa tratar (e obviamente eu não incluo aqui as milhares de pessoas que sofrem algum tipo de violência doméstica, estas sim necessitam de evacuação de seus domicílios, proteção do estado e garantia de direitos). Um outro argumento bastante comum a esta suposta liberdade de decidir ou não em ir a uma festa com aglomeração é a inexistência de uma lei clara que proíba este tipo de evento. Não há como me alongar numa discussão entre o que seria uma lei para todos e a ética de cada um, principalmente quando estamos situados num país onde a economia, desde o início da Pandemia, foi colocada à frente da vida! Mas digamos que a ética de cada um em relação a vida do próximo (sendo um familiar ou desconhecido) é o que deveria prevalecer neste momento, já que estamos, numa certa medida, “desgovernados”.

Segundo os especialistas da epidemiologia do mundo todo, para que possamos parar o contágio, é necessário que mantenhamos o distanciamento social e isto não significa que você tenha que ficar o tempo todo dentro de suas residências à beira-mar e no ar-condicionado. Você continuará vendo pessoas circulando, entrando em ônibus lotados, convivendo com dez pessoas dentro da mesma casa, aglomerando na praia etc. Há uma parte enorme do povo brasileiro que nunca sequer teve a chance de escolher ficar em casa e que por suas formações escolares precárias, acreditam que a COVID-19 seja apenas uma “gripezinha” (o que não é o caso de Dona Joaquina que sabe muito bem dos cuidados básicos – e possíveis – que precisa tomar diante do contágio crescente).

Já você que ainda insiste em servir de massa para aglomerações em festas (sem qualquer tipo de proteção dos grupos e individuais) aos finais de semana, que sabe dos riscos que esta doença traz para si e seus familiares, não dê corpo aos que se sentam ao lado da morte colocando suas satisfações narcísicas na frente da vida. Esforce-se, você pode, talvez, tornar-se um ser humano melhor e quem sabe, servir como engrenagem para um mundo melhor para TODOS, TODAS e TODES! Se puder, fique em casa! Por um 2021 menos virulento e menos narcisista!

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