COLUNA | Um ano de tirar o sono

Alguns atos compulsivos, os excessos de ingestão de álcool e comida, o aumento da ansiedade e episódios de tristeza tem assolado pessoas pelo mundo inteiro no ano de 2020, em decorrência do confinamento diante da pandemia de Coronavírus. Contudo, são as perturbações do sono o que mais identificamos como queixa principal, oscilando desde a hipersonia (um sono em excesso), até a insônia (a falta de sono). Isto é, mais grave nos momentos de confinamento obrigatório, como no lockdown imposto em alguns países do mundo. Diante disso, selecionei três perguntas comuns sobre este fenômeno – como se eu estivesse diante de um leigo – com o intuito de esclarecer algumas dúvidas sobre as perturbações do sono.

1 – A Pandemia é uma queixa recorrente das pessoas neste momento de Pandemia e incertezas?

Muitas pessoas relatam que seus sonos tiveram profundas alterações desde o início da pandemia, mas, principalmente, a partir do estado de isolamento social que é um certo marco simbólico, digamos assim, para que as pessoas se dessem conta da gravidade do que está acontecendo no mundo. Numa linguagem mais popular, podemos dizer que a orientação dos governantes dos países para que as pessoas se mantivessem em isolamento social “fez a ficha cair” (Não para todos, lógico! Temos uma parcela enorme de pessoas no Brasil que negam a existência de uma pandemia).

Mas precisamos destacar que a produção de complicações no sono para cada sujeito é algo muito singular e, muitas vezes, multifatorial. Há pessoas que, expostas a enormes quantidades de informações sobre a pandemia, passam a apresentar quadros ansiosos por medo da morte, de perder pessoas queridas, de perderem seus empregos etc. Ao mesmo tempo, destaco que é preciso ter muito cuidado para não entendermos como uma doença algo que pode ser passageiro e que diz respeito a este momento específico de suas histórias. É absolutamente compreensível que diante de catástrofes naturais, crises socioeconômicas em larga escala e pandemias, algumas pessoas se sintam mais vulneráveis, pois tocam em pontos específicos das suas fantasias que foram constituídas ao longo de suas vidas.

Outras pessoas apresentam suas perturbações do sono como algo mais relacionado a sua falta de organização das atividades diárias e isto acontece, principalmente, entre os mais jovens que, sem a velha rotina cobrando horários específicos, passam a ficar dispersos e muitos passam a trocar o dia pela noite. Às vezes, isto também é um modo de se alienar da realidade, vivendo a noite ao invés do dia, onde as trágicas informações circulam mais entre os membros de uma família.

Há ainda outras pessoas que já possuem algum tipo de sofrimento psíquico importante (algum transtorno mental mais específico) e que, neste momento, acabam se desestabilizando, mas não podemos afirmar que todas as pessoas que possuem algum tipo de diagnóstico psiquiátrico sejam de fato as mais vulneráveis, pelo contrário, algumas facilmente se adaptam a catástrofe com a justificativa de que seus sofrimentos já vem de longa data e são ainda maiores. Sempre vale lembrar que cada caso é um caso e dificilmente podemos definir um grupo daqueles que irão sofrer menos ou mais e que por isto terão perturbação do sono.

Para finalizar, não podemos esquecer que com a Pandemia e todas as exigências de higiene necessárias para que se evite o contágio acaba por produzir ainda mais estresse na vida cotidiana, o que também pode implicar na perturbação do sono e isto costuma ser mais agudo com aqueles profissionais da linha de frente e que estão mais expostos ao contágio.

2 – Dormir bem é um sinal de boa saúde mental? Quando há alguma alteração, quais as mais comuns?

No campo da psicopatologia, o sono é um indicador importante para avaliarmos a saúde do paciente. Nem toda perturbação do sono é sinal de algum tipo de transtorno mental ou sofrimento de qualquer espécie. Há pessoas que não dormem por outras complicações localizadas no corpo, como pacientes que possuem refluxo gástrico, dificuldades respiratórias etc. Contudo, em casos importantes de quadros ansiosos e depressão, o sono rapidamente sofre alterações.

Entretanto, é de fundamental importância dizer que num mundo cada vez mais medicalizado – já que a indústria farmacêutica segue em festa desde os anos 80 com a invenção do Prozac – banalizamos o uso das medicações, tudo em nome de uma performance cotidiana ideal. Em tempos de Pandemia, a falta de sono, a insônia ou outros tipos de perturbação do sono ao longo da noite são absolutamente aceitáveis como um indicador de estresse e não exatamente de um transtorno mental específico. Aceitável não significa que precisamos conviver com isto, precisamos sim pedir ajuda profissional e nos envolvermos em atividades que nos auxiliem na diminuição do estresse, geralmente, permeado de muitos pensamentos catastróficos. Não podemos aceitar com naturalidade que o uso indiscriminado de psicotrópicos para indução do sono seja algo sem consequências futuras. Não podemos cair no engodo fast food da indústria farmacêutica, que quer fazer as populações acreditarem que o milagre está nela. Paga-se um preço alto quando idolatramos as medicações.

3 – Como podemos recuperar o sono quando identificamos profundas alterações?

O encontro com um bom psicanalista ou psicólogo pode trazer à tona a causa psíquica, o fantasma, aquilo que passou a lhe fazer companhia nas noites e que impede que o paciente durma tranquilamente. Como disse, acho absolutamente delicado que as pessoas de modo geral recorram às medicações indutoras do sono como primeiro tratamento em situações de estresse. O momento da Pandemia é um momento de estresse para todos, incluindo os próprios profissionais de saúde. Costumo, inclusive, estranhar aqueles que não sentem algum tipo de mal-estar ou alteração do sono neste momento. A situação mundial é grave e no Brasil soma-se a crise política, geradora de um mal-estar ainda maior.

Obviamente que há transtornos mentais que demandam o uso destas medicações, mas muitas vezes de modo temporário e não permanente. Neste caso o acompanhamento não apenas por um psicólogo é importante, mas também por um psiquiatra que seja atento a estas questões e não um mero representante da indústria farmacêutica, o que é cada vez mais comum. Há também uma quantidade enorme de médicos não psiquiatras que recebe em seus consultórios ou instituições de saúde pública pacientes em situações de estresse e que, rapidamente, os prescreve medicações ansiolíticas. Nada mais comum que um paciente se dirigir ao cardiologista achando que está com um problema cardíaco, quando seu problema é um quadro ansioso, mas que com as famosas “palpitações e dor no peito” imagina que está com algum problema no coração. O médico em questão, que não é o especialista sobre aquele assunto, insere uma medicação com a qual não sabe lidar e fazer o seu desmame. Isto vira uma bola de neve, pois a insônia persiste e agora somada às dosagens cada vez maiores desta medicação levam os pacientes a dependência do remédio. Tenho recebido muitos pacientes assim. No final das contas, temos um quadro de ansiedade com insônia, somado ao uso abusivo de ansiolíticos.

Obviamente que além da procura por um profissional qualificado, seja um psicólogo, psicanalista ou psiquiatra, a busca por atividades geradoras de prazer podem e devem contribuir para a melhora da qualidade de vida e, consequentemente, do sono. Evitar o “bombardeio” de informações trágicas para alguns também é muito recomendado, pois a maior parte destas informações não são apenas para transmitir um dado importante sobre a COVID-19 ou uma decisão governamental, mas sim para capturar cognitivamente o telespectador como um sujeito diante de um filme sem fim, apenas gerador de IBOPE e de mal-estar. Esta captura se dá também por um fascínio que a humanidade tem pelo trágico: todos nós carregamos esta força psíquica que flerta com a destruição e, na psicanálise, a chamamos de pulsão de morte.

Ao mesmo tempo, precisamos cuidar para que não nos sintamos culpados por não conseguirmos manter uma super produtividade assistindo todas as lives do Instagram, trabalhando perfeitamente em home office, além de cuidar da casa e dos filhos. Isso acaba funcionando como uma censura para todos aqueles que não cumprem esse ideal de vida performática diante da pandemia (a maior parte das pessoas), o que os levam ao mal-estar que também podem perturbar o sono, além do sentimento de insuficiência, inadaptabilidade etc.

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