COLUNA | O suicídio e suas causas: de ontem até os tempos pandêmicos

Gripe espanhola: os Freud nunca superaram totalmente esta perda - Farol Blumenau
Sophie Freud, filha de Sigmund Freud que foi vítima da gripe espanhola em 1920.

O tema do suicídio atravessa os séculos provocando inúmeros questionamentos numa busca incessante para que a humanidade dê algum sentido a este ato limite de interrupção da vida. A busca por algum sentido que nos conforte perpassa o campo das religiões, da sociologia, da antropologia, filosofia e medicina sem que tenhamos um entendimento único sobre este fenômeno humano.

Nos últimos anos a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) trouxe ao público brasileiro o movimento Setembro Amarelo, “mês de prevenção ao suicídio” como uma aposta para que a comunidade como um todo se debruçasse sobre este tema ainda tabu e para que seja elaboradas novas estratégias de prevenção. E não é para menos: segundo a Organização Mundial de Saúde aproximadamente 800 mil pessoas se suicidam todos os anos no mundo e este número vem crescendo numa progressão geométrica entre pessoas entre 15 e 29 anos. Além deste dado, sabemos que a população indígena brasileira tem uma chance três vezes maior de cometer suicídio do que a o resto da população em geral.

Entretanto, nossa aposta neste texto de hoje é provocarmos uma espécie de “despatologização” deste ato, ou seja, entende-lo não apenas pelo prisma das doenças descritas nos manuais de psicopatologia, mas abordá-lo também numa perspectiva psicossocial. Não são apenas as pessoas portadoras de quadros de depressão mais graves que se matam ou mesmo os esquizofrênicos que possuem alucinações auditivas [1] que lhes dão ordens para que façam algo contra si.

O suicídio antes mesmo de ser catalogado como um fenômeno da psicopatologia teve sua apresentação de maneira brilhante pelos sociólogos Durkheim e Karl Marx onde apontavam os impactos de uma sociedade ocidental do século XIX produtora de muitas mazelas a partir de uma crescente industrialização.

O suicídio no final do século XIX na Europa veio também através da fome, das longas jornadas de trabalho e porque não dizer também como resistência de um povo que não queria se submeter ao sistema capitalista que plantava o ovo da serpente para o necrocapitalismo atual. Antes dos europeus, os povos escravizados no Brasil, ao serem trazidos para cá durante a colonização – marcados por uma violência desumana, e de fato eram considerados não humanos pelo colonizadores – também cometiam suicídios como um modo de não se submeterem aos modos vigentes de dominação. Também falavam do “banzo” que era uma melancolia extrema que os dominava diante das saudades de suas terras de origem e da distância de seus povos.

Numa leitura retroativa da história não podemos dizer que os escravizados apresentavam alguma depressão, isto seria impor um olhar atual para fenômenos históricos passados. O banzo está mais próximo de um sentimento de nostalgia (e com muitos motivos para isso) do que uma doença que causa qualquer disfunção neuroquímica, modo como a psiquiatria entende hoje o impacto de uma depressão sobre um sujeito.

O isolamento social como paradigma dos dias atuais

Na atualidade, mais especificamente nas últimas três décadas até o momento Pandêmico atual, o isolamento social tem sido um fenômeno notável para que muitos apresentem algum tipo de sofrimento psíquico, uma espécie de paradigma da vida social hoje… A psiquiatria do início dos anos 90 ao inventar o antidepressivo Prozac (reconhecido como “pílula da felicidade”, uma droga como qualquer outra, mas vendida sob prescrição médica) traduziu tudo em disfunções neuroquímicas não dando mais espaço ao conflito psíquico tão debatido entre os psicanalistas e os psiquiatras clássicos.

Ainda que Freud em 1930 em seu texto O mal-estar na Cultura deixe claro que o recurso dos humanos aos artefatos químicos sejam o meio mais estúpido mas também o mais eficaz de combate a angústia produzida pela vida civilizada (onde abrimos mão de uma grande quantidade de satisfação para produzirmos: no trabalho, em família, nos estudos, etc.), o próprio pai da Psicanálise construiu um método de trabalho para que cada um pudesse encontrar, do seu próprio modo, um modo de se exercer na vida pautado pelo desejo (inconsciente) e não apenas pelas suas pequenas necessidades de consumo: a famosa talking cure, a cura pela fala ou, simplesmente, a oferta de uma escuta para aquele que sofre com seu mal-estar possa falar sobre isto, e isto produz muitos efeitos de tratamento. As drogas sejam elas lícitas ou ilícitas produzem seus efeitos de anestesiamento diante o mal-estar, contudo, é através da fala a um profissional qualificado que um sujeito pode encontrar um lugar no mundo menos hostil e a longo prazo.

Observamos nos últimos sete meses, desde que se iniciou o cenário pandêmico brasileiro, um aumento considerável do uso de álcool e outras drogas in door, ou seja, dentro dos domicílios – fenômeno também presente em outros países como nos revelou a BBC de Londres ao relatar o aumento da venda de bebidas neste período. A própria Organização Mundial de Saúde nos adverte que junto destas ondas de vírus que nos assolam, uma outra não menos grave também nos assolará: a onda do sofrimento psíquico causado pelos fantasmas da contaminação, do isolamento social, da fome e do desemprego. Alguns destes sofrimentos podendo se configurar como quadros de ansiedade e depressão, e outros não sendo apenas um sofrimento humano não “patologizável”.

O grande problema da atualidade é a imposição de uma vida feliz sem que possamos ter momentos para experimentarmos também os nossos mal-estares pois de acordo com a psiquiatria atual, tudo é depositado na conta dos transtornos mentais.

A principal proposta para o enfrentamento desta pandemia de sofrimento é a escuta, ofereçam seus ouvidos. Caso o sofrimento persista, busque ajuda na Rede de Atenção Psicossocial de sua cidade, sempre há um Centro de Atenção Psicossocial próximo a você.

  1. Fenômeno comum em muitos quadros de psicose e que geralmente se apresenta como vozes de comando, ou seja, que em algumas situações funciona como ordens para que um sujeito, sem que ele possa escolher, cometa alguma violência contra si. Vale destacar que o suicídio não é um fenômeno cotidiano entre a maioria dos pacientes psicóticos, entretanto, alguns acabam tendo este destino a partir de suas alucinações.

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