COLUNA | UM 2021 IGUAL

Há um tempo ouvi uma frase que dizia que só viado e sapatão podia chamar outro viado e outra sapatão desses termos. Entendeu alguma coisa? Algumas pessoas ainda não.

Na  verdade, o entendimento que falta vai muito além de gírias e se faz muito mais necessário do que isso. Estamos em 2021 e precisamos fazer um ano igual. Não repetindo as mesmas coisas e vivendo em ciclos de desrespeito, mas sim buscando diariamente reconhecer nossos erros para que a igualdade seja mais forte do que a separação que a própria comunidade LGBTQIA+ ainda vem praticando.

A minha primeira coluna de 2021 aqui na Colors é como um pedido de igualdade e respeito e que não foi escrita e nem vivida apenas por mim.

“Você é homem ou mulher? Você é operada? Qual o seu verdadeiro nome?”  São algumas das perguntas que Fabiana Mello (41) registrou em sua memória durante sua vida. “A sociedade e o CIS- tema ainda percebem os corpos travestis e de pessoas trans como objetos, e isso não é diferente nas festas LGBTQIA+. Existe uma naturalização e marginalização sobre nossas identidade”. Fabiana é mulher trans, e desde os vinte anos de idade frequenta a cena gay dentro do país e fora dele. Hoje, concluindo a graduação em psicologia e fazendo parte da ong AMOTRANS (Articulação e Movimento para Travestis e Transexuais de Pernambuco),  ela reflete sobre a contribuição da comunidade gay para a luta contra o preconceito na cena. ”Não é porque é gay ou tem amiga trans e travesti que uma pessoa não é transfóbica. Muitos usam desses argumentos para justificar suas ações intolerantes e preconceituosas. Afinal, somos preconceituosos. Perceber isso é justamente sair de uma zona de conforto e tentar desconstruir conceitos que socialmente foram naturalizados durante bastante tempo, e isso incomoda muito, pois quando você percebe que foi preconceituoso/a , vai compreender que está errado e assim ter a possibilidade de mudar, porém nem todas as pessoas querem isso”.

Sim, além das pessoas lutarem contra o preconceito elas também precisam lutar contra seus próprios pensamentos preconceituosos, que sem pensar muito sabemos que isso é uma atitude ancestral e histórica. O que você tem feito para mudar isso em você?

“Não temos mais que nos segregar, precisamos de uma noite plural, em que todos possam curtir juntes, se respeitando. Dá uma alegria gigante ver lines 100% femininos, mulheres sendo protagonistas da noite levando show, musicalidade e perfomance. Olhar pra pista e ver as gays, as pocs, as travestis, as ursas, menines e barbies todes juntes! “ Van Muller (34), mulher cis, lésbica, trabalha como DJ dentro e fora do Brasil e lembra que no início da carreira vivenciou um pouco do preconceito contra a imagem dentro da cabine de DJ: “Há um pouco mais de 6 a 7 anos, a quantidade de mulheres nos lines eram bem reduzidas e os produtores não se sentia seguros para nos colocar em horários importantes na noite por não acharem que não tínhamos competência para isso! Já cheguei a ouvir também que o meu som era “de homem”, comparando ao que os DJs meninos faziam!”

Você que acompanha a cena se assusta em ler algo assim nos dias de hoje? Felizmente algumas coisas estão mudando, mas antes a maioria dos lines das festas eram preenchidos apenas por homens. E não era por falta de mulheres DJs talentosas no mercado. Mas, mesmo assim, o preconceito nunca deixou de existir. Dentro da pista ou no backstage dos eventos, infelizmente, há relatos de comentários e atitudes discriminatórias e racistas. E o que muita gente ainda chama de mimimi é justamente o que continua separando e sendo a semente para casos de violência verbal e até mesmo física. A falta de informação, de educação e de consciência sobre o assunto acaba levando a um tom de “normalidade”, causando uma espécie de efeito dominó do preconceito. E, às vezes, sem perceber, a merda (posso falar palavrão aqui?) foi feita, ou melhor: dita.

“Uma vez, no começo da carreira, quando compartilhei com uma pessoa o sonho que eu tinha de tocar num club x, eu ouvi que deveria focar no club y, pois eu não tinha o padrão estético que a casa se interessava, não tinha o perfil de modelo”. Relatou Rob Phillips (27), DJ internacional, e que também atua na área de ciência e tecnologia. “No momento, eu não me dei conta, mas essas palavras me marcaram por um bom tempo. Porém, sempre acreditei no meu propósito, sempre soube onde eu queria chegar e principalmente COMO eu gostaria de ocupar esses espaços. Eu transformei essas experiências ruins em motivação para alcançar os meus objetivos.”    

É muito comum que o preconceito, seja ele qual for, venha de forma velada e por isso é importante estarmos atentos as falas e comportamentos que expressem qualquer tipo de discriminação. Para por um momento antes de continuar a ler e reflita sobre a forma que você já tratou sobre o assunto, falou com alguém e, por fim, quando buscou se informar sobre racismo, racismo institucional, homofobia, transfobia, lesbofobia e tudo o que contribui para a desigualdade, segregação e morte. Além do preconceito matar quem o sofre, seja pouco a pouco todos os dias e fatalmente algumas vítimas, ele também nos mata por dentro. Na mente de quem o pratica talvez não passe isso, mas eu acredito que atitudes desse tipo (e algumas outras) vão nos fazendo sumir pouco a pouco por dentro, apagando nosso sentimento de humanidade, empatia, compaixão e fraternidade. Virtudes e sentimentos que ao levantar sempre queremos que nos rodeie, mas não percebemos que também apagamos gradativamente de dentro do nosso coração.

A Fabiana, A Van, o Rob e eu somos quatro de milhões de pessoas que estão aqui para contar um pouco de histórias de superação e fazer disso uma corrente que possa chegar àqueles que que ainda não sabem sobre o amor ao próximo. Mas saiba que muitas outras pessoas não estão aqui agora para comemorar suas vitórias. Segundo a ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) o número passou de 55 lugar em 2018 para 66 em 2019 no ranking de países seguros para a população LGBT. Dentro disso gosto muito de lembrar que para que tivéssemos direitos como os (não todos, de um ponto de vista geral) que temos hoje foi preciso muita luta. Antes de muita drag aparecer na TV e se tornar artistas mundialmente famosas, antes de podermos andar nas ruas de mãos dadas e  frequentar diversas festas (por exemplo), houve muita luta. E aqui trago a lembrança e memória de Marsha P Johnson,  transexual, negra, que que lá atrás esteve ativa na luta contra o preconceito nos EUA, e com seu movimento conseguiu transformar a Rebeilião de Stonewall (1969) em um marco da luta contra a homofobia.

Da mesma forma que tivemos pessoas que fizeram história no passado, também podemos reconstruir o que for preciso no presente para construir pontes para um futuro melhor. Informação, conscientização e educação são as bases para essa jornada para que amanhã, ao invés de vermos vozes se calando por conta da cor da sua pele, gênero, ou por exemplo, o corpo, possamos celebrar a vida, celebrar a liberdade, honrar nossa ancestralidade e compartilhar de um mundo de direito e igualdade entre todes.

Termino essa coluna por aqui, agradecendo a Fabi, a Van e ao Rob por suas falas; e parabenizando pelos seus trabalhos. Na conversa com Fabi eu soube (e vi) que foi homenageada em janeiro por seu trabalho ativo na (Articulação e Movimento para Travestis e Transexuais de Pernambuco) e em breve inicia sua carreira na área da psicologia. A Van vai seguir 2021 tirando do papel alguns planos, se dedicando ao Marketing, a produção musical e aos estudos de espanhol enquanto vivencia os processos do autoconhecimento. Rob está se dedicando em mais remixes e sets próprios, aliando ao seu propósito como profissional da música. E eu… Eu sigo aqui pensando sobre minhas atitudes passadas, buscando fazer um agora com mais presença, sentido e amorosidade. Também tenho grandes planos para 2021, mas sobre isso eu vou te contar em outra edição.

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