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MATÉRIA | Série: “A arte do absurdo” #02

“A arte do absurdo” é uma série de matérias que explora o lado mais obscuro e fora dos padrões das artes (seja performance, dança, teatro etc.), as lutas diárias desses artistas independentes e as relações com o cenário noturno.

Dentro do cenário artístico encontramos variados estilos de intervenções, pois a arte não se limita e traz consigo a bagagem pessoal de cada artista. Corpos marginalizados e vistos como fora do padrão encontram na arte uma forma de autenticar a beleza de ser diferente, empoderam-se de suas individualidades e usam-nas a seu favor para desmistificar e conscientizar o público.

Utilizando de meios chocantes a olhos mais leigos, por muitas vezes, esses artistas buscam uma expressão de conceitos obscuros e estéticas controversas, porém carregadas de mensagens e lutas cotidianas.

Dando continuidade à série apresentamos para nossos leitores a segunda matéria da “Arte do absurdo”. Caso você não tenha lido a primeira, clique aqui.

Nessa matéria apresentamos aos nossos leitores Aline Esha, catarinense de muita atitude e que tem o empoderamento do corpo gordo como principal bandeira.

Aline Esha
Créditos: @tatabphoto

Performer Burlesca, terapeuta tântrica, Bruxa, Designer de Moda e Produtora de Eventos, Aline Esha é uma artista atuante no cenário noturno e cabarés de São Paulo. Conhecida por ser uma das referências do burlesco brasileiro, ela combina a sensualidade exótica a um visual intitulado pela mesma como bruxa tântrica do burlesco.

Com posicionamento político e ativista do corpo gordo, seu show é repleto de quebra de padrões e traz a expansão dos conceitos e limites do burlesco tradicional. Foi uma das idealizadoras da Feira das Vaidades, Cabaret burlesco que atuou em São Paulo, tendo participações também em festivais como o Yes Nós Temos Burlesco – Festival Internacional de Burlesco que atuou em diversas cidades e foi obra de uma exposição em Lisboa.

“Que possamos ocupar todos os espaços e desconstruir esta pressão estética e gordofóbica que nos atravessa” – Aline Esha.

Créditos: @tatabphoto

O Burlesco é uma arte performática que utiliza de algumas fontes como a comédia, dança, teatro e circo. Porém, isso vai mais adiante, pois ele tem origem na literatura de Scaron a “Le Virgille Travesty” colocando divindades em situações ridículas mesclado com a subversão da “commedia dell’ arte”, uma forma de teatro popular comum na Europa renascentista. Segundo Aline, a expressão era usada por mulheres para burlar o questionamento social e político, levando em consideração que a presença de mulheres no palco de teatros era proibida naquela época, restando-lhes apenas as ruas como palcos.

“A partir dos anos 90 temos o surgimento do movimento do Neo Burlesco que resgata esta essência política do burlesco e nos becos de Nova York surge este movimento para burlar toda política padrão de corpos, gênero e sexualidade.”

Créditos: @juqueirozfotografia

Quando indagada sobre os paradigmas formados ao redor dessa arte que envolve a padronização de corpos femininos, Aline afirma o encontro no burlesco um lugar de desconstrução do corpo gordo, mostrando a outras mulheres “a possibilidade de poder desnudar suas corpas também”.

Ao contrário do pensamento geral, que classifica o Burlesco como a objetificação do corpo feminino, para muitas essa é uma forma da mulher se despir de seus pudores camada por camada, encontrando assim uma forma de libertação.

Levando em consideração que vivemos em uma sociedade sustentada no patriarcado, com forte presença da misoginia e machismo enraizados, sentimos a pressão estética do capitalismo presente nos cinemas, publicidade, revista e internet que idealizam a estrutura de corpo ideal. Ela aponta também a gordofobia presente em diversos momentos do cotidiano. Um exemplo são as cadeiras, roletas de ônibus e metrô, que levam à exclusão social por não terem tamanhos acessíveis. A artista ainda cita a fetichização como um problema que atinge os corpos gordos no âmbito sexual.

“Nesse cenário o corpo gordo é um dos mais fetichizados dentro da sexualidade, mas ele não é assumido, assim sendo existe um estereótipo de que a mulher gorda é boa de cama uma vez que ela faz de tudo afinal esta é a única oportunidade de fazer sexo.”

Créditos: @juqueirozfotografia

O Burlesco então é encarado como uma forma de descoberta profunda do “eu interior”, despindo-se não apenas de roupas, mas também do preconceito, do racismo, gordofobia, homofobia, transfobia e misoginia estrutural. E, com essa metodologia, sair cada vez mais do personagem padronizado e potencializar os processos de auto entendimento.

Créditos @tatabphoto

A cena underground de São Paulo tem contribuído para a ascensão desses artistas independentes, sempre elevando a percepção do público a outros patamares de percepção da realidade. Aline já participou de coletivos como “Venga Venga” e “Dando”, projetos bem atuantes na noite de paulistana, e frequentou o começo de projetos vanguardistas como Caps Lock, Voodoohop e Mamba Negra, conhecidos nacionalmente pelos conceitos estéticos e sonoros incomuns e fabulosos. Ela relata que existe toda uma psicodelia interna no desenvolvimento desses eventos, que agem como “um facão” desbravando um novo centro da cidade e ressoando em outras regiões.

Créditos @tatabphoto

“Os artistas independentes foram se multiplicando e criando arte no corpo. O que antes era uma dançar em cima da caixa de som hoje se transformou em arte política, vi tantas performers trans e travestis encontrarem sua forma de expressão pelo seus corpes e posso dizer vi por muitas vezes meu corpo de mulher cis gorda ser o único gordo lá em cima mais que ao inspirar outros corpes hoje temos mais corpes gordes em cima do palco.” – Aline Esha.

Redes Sociais da artista:

Descrição da imagem de capa: 

Aline em uma de suas apresentações. Créditos: @tatabphoto.

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