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MATÉRIA | As dores e delícias de ser quem é

Os desafios do universo trans. Em 2020 ainda existe preconceito?

Com base na situação política atual, mediante a todas as tentativas desse governo em retirar os direitos conquistados com muito sofrimento pela comunidade LGBTQIA+, nesta edição decidimos conversar com pessoas trans e conhecer um pouco mais da realidade delas.

DOMINICK

Dominick, mulher trans, 30 anos, assistente de telecomunicações durante o dia e também atua como DJ, que é sua verdadeira paixão. Paixão esta que ela deseja atuar integralmente pós pandemia, e somente porque todos no ramo do entretenimento estão de mãos atadas até que tenhamos a vacina e os eventos de música eletrônica voltem ao normal.

Ela nos contou que começou a dar entrada na sua documentação em 2016, em Florianópolis, mas devido a uma mudança de cidade não deu seguimento até que estivesse instalada e estabilizada. Hoje reside em Curitiba e, no ano de 2018, novamente foi ao cartório pegar a relação de documentos necessários para troca. Começou então toda aquela burocracia brasileira, dos difíceis e custosos procedimentos em repartições públicas, além do fato de que algumas certidões têm validade e por fazer sozinha todo esse trâmite o processo estava bem complicado.

Dominick se viu com a necessidade de adiar mais uma vez, mas agora, em 2020, com a ajuda de um advogado, e ela diz, “o recomendo para quem esteja planejando dar entrada nesta documentação no próximo ano, pois já sabem exatamente como proceder, onde ir, então o processo flui mais rápido”, e já com os custos que estão em torno de R$ 360 reais (em papelada), acredita que até o fim de novembro consiga, finalmente, a audiência com o juiz para obter sua documentação como mulher.

Ela conta que ainda existe muito preconceito, que apesar de já ter a aparência totalmente feminina, ainda existe uma barreira em locais como hospitais, onde mesmo que ela solicite ser chamada pelo nome social, as pessoas ainda a chamam pelo nome no documento, causando assim um constrangimento devido a muitas vezes estar numa sala de espera com outras pessoas.

Dominick acredita que só terá esse respeito quando estiver de posse de sua documentação no gênero com qual se identifica. Ela não quer nada além de respeito e não vê a hora de ter uma foto no documento condizente com a sua aparência e sexo. Além do preconceito dentro da sociedade, também existe no próprio meio, mas que graças a Deus muita coisa mudou e vem mudando no decorrer dos anos.

Até o final dessa edição Dominick estava finalizando o processo, desejamos muita felicidade em sua nova vida!

MB

Conversamos com MB, como prefere ser chamado. Um homem trans que nos contou que essas siglas vem da abreviação de seu nome “Mariana Braga”.

Ele percebeu a homossexualidade desde novo e, no decorrer dos anos, foi se entendendo melhor, contou aos pais e obteve total apoio da família.

MB conta que as primeiras mudanças foram visuais (cabelo/ vestimenta); a mudança do nome veio quando começou a ver a música como profissão e não mais apenas como hobby. Começou como o clichê Mari e recebeu algumas sugestões de nome, mas nenhum com o qual se identificasse. “MB veio de um longo processo de procura. Queria que o nome me desse a liberdade de me apresentar como A MB ou O MB porque não me vejo cabendo em um só gênero. Assim como eu posso ser O MB e usar um vestido, posso ser A MB e usar terno, já que a liberdade de ser quem eu quiser ser está nas minhas mãos, então eu fiz valer 1/2”, nos contou MB.

“Durante esse processo de achar um nome que eu me sentiria bem, também teve a parte mais difícil que é ser preto, gay e ainda não ter uma condição boa e querer entrar no mundo da música, que abre facilmente espaço pro padrão, mas pra gente é 10 vezes mais difícil. Se você não lutar todo dia, meter a cara mesmo com as críticas, o preconceito, você não chega aonde quer chegar e isso vale pra qualquer outra profissão.”, relata e ainda conclui, “A gente vê mudança nos últimos anos, mas ainda não acabou. Não dá pra relaxar ou fingir que está tudo bem porque há muita desigualdade com a galera do LGBTQ, infelizmente. O preconceito é evidente. Tá escancarado no nosso dia. Eu até hoje não passei por agressões verbais, mas a gente vê os olhares que estão ali te condenando por você ser simplesmente você.”

Fernanda Tavares

Conversei também com a Modelo e DJ Fernanda Tavares. Ela já tem toda documentação com seu nome social e me contou que começou a solicitação por vias públicas. O processo foi longo – 2 anos entre idas e vindas – para apresentar laudo psiquiátrico, fotos pra mostrar o dia-a-dia como mulher e ainda teve que levar duas testemunhas, credenciais dos trabalhos que fazia como modelo, fotos de revistas e redes sociais. No meio do processo, eles informaram que haviam perdido toda sua documentação e foi quando, por intermédio de uma amiga, Fernanda deu entrada de forma particular. Conseguiu em três meses o tão esperado documento condizente com o que ela de fato é, mulher!

Sobre preconceito, ela conta que sofreu muito. Passava por alguns constrangimentos nas idas ao banco, médicos, dificuldade para arrumar emprego com identidade masculina, “toda hora ouvia falar que o documento não era eu, que era do meu marido”,

“Agora, em muitos locais, aceitam o nome social, mas a mudança nos documentos continua sendo necessária para engrenar no mercado de trabalho e na sociedade” , desabafa.

“Essa luta enfrentamos todos os dias enquanto não conseguimos a troca, mas só saber que já pode ser feito é uma grande conquista para todas nós q somos trans”.

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