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MATÉRIA | “Cromo” ou “Carbono”: A polêmica envolvendo obras de Pabllo Vittar e Lady Gaga

Esta é a minha matéria de estreia na revista Colors DJ e já de cara vou começar abordando um assunto delicado na indústria musical, o plágio; e escrever sobre duas divas do pop que eu amo e admiro. 
A matéria não vai falar das Cantoras em si; mas especificamente sobre a plástica de seus últimos trabalhos.

Nesta sexta-feira (13/11), os amigos de longa data, Chameleo e Pabllo Vittar, lançaram o clipe de “Frequente(mente)”, novo single de trabalho do cantor. No entanto, a música saiu do holofote principal dando lugar às acusações de plágio que surgiram na internet.

A polêmica tem foco no conceito artístico do clipe da dupla, que em vários momentos se assemelha muito à pegada sci-fi de todo conceito visual criado para Chromatica, álbum premiado de Lady Gaga. Sim, Lady Gaga, a mesma que também já foi acusada de plagiar Madonna em seus vídeos. “Já que a Gaga não está divulgando o Chromatica, a Pabllo está divulgando para ela kkkk” – escreveu um internauta nos comentários do Youtube.

O videoclipe, que é dirigido por Federico Devito (ex- colírio Capricho) e tem Direção de arte assinada por Italo Matos, possui looks, enquadramentos de câmera e até cenários similares aos de clipes de Chromatica. Se olharmos principalmente para as fotos da Campanha de Marketing do álbum, feitas especialmente para a revista americana Paper, as similaridades ficam mais evidentes. Através das lentes de Frederik Heyman, que é o artista idealizador do conceito original, Gaga, assim como Pabllo e Chameleo, é retratada como uma espécie híbrida de andróide.

As semelhanças vão além dos tubos cenográficos que conectam máquinas aos corpos dos cantores ou dos trajes futurísticos que ambos vestem. Se olharmos mais especificamente para alguns detalhes perceberemos que, por exemplo, o estilo de maquiagem que Pabllo Vittar usa em uma das cenas do featuring de Frequente(mente) é muito parecido com o que vemos no rosto da cantora Ariana Grande no clipe de “Rain On Me”; outro featuring, single de Chromatica. Se formos mais além, é possível observar que os figurinos de Chameleo no tubo de água e o de Vittar em sua primeira aparição em cena possuem grandes semelhanças de material, cor e efeito utilizados por Gaga e seus bailarinos em uma apresentação famosa de “Born This Way” no GRAMMY’S 2011.

Em contrapartida, não dá para ignorar também as severas semelhanças entre o clipe do primeiro single de Chromatica, “Stupid Love”, lançado em 27 de fevereiro deste ano, e “BUZINA”, último clipe do álbum “Não Para Não da Pabllo Vittar, lançado quase que exatamente, 1 ano antes, em 26 de fevereiro do ano passado. Além da estética futurista e as roupas metálicas, o enredo em ambos também é o mesmo: conflitos intergalácticos. Existe um vídeo na internet que mistura os dois trabalhos e a impressão que temos ao assisti-lo é que as duas cantam e dançam com seus bailarinos no mesmo planeta. Mas Pabllo Vittar pousou primeiro.

Veja você mesmo algumas imagens e tire suas próprias conclusões:

Não podemos esquecer que a brasileira está longe de ser desconhecida dos holofotes mundiais. Atualmente, é a Drag Queen mais seguida no instagram com mais de impressionantes 10,9 milhões seguidores na rede social. Já gravou parcerias musicais com artistas internacionais como Charli XCV, Diplo, Iggy Azalea e, mais recentemente, Thalía.

A artista também já fez turnê internacional pela Europa, EUA e Canadá. Em novembro de 2019, entrou para história sendo a primeira brasileira a performar no MTV EMA (Europe Music Awards) e a primeira drag queen no mundo a receber uma estatueta da premiação. Recentemente, em virtude da pandemia do coronavírus, foi obrigada a interromper uma nova turnê mundial iniciada na Austrália. A agenda de shows, incluiria novamente os EUA, onde se apresentaria no Coachella, um dos maiores festivais de música do mundo.

Pabllo Vittar adora quebrar recordes. Lá em abril de 2019 a gravadora Sony Music já anunciava que Pabllo Vittar ultrapassou a marca histórica de 1 bilhão de visualizações em seu canal no Youtube. O clipe de “Buzina”, sozinho, já passou de 25,6 milhões de views. Ou seja, seus clipes já foram vistos em quase todo este planeta, tornando-se referência mundial!

Para sermos mais justos, principalmente na indústria musical, muitas decisões artísticas não são tomadas pelos próprios artistas. Em um mundo onde grande gravadores cuidam de toda a carreira de um cantor, existe uma equipe enorme de profissionais antenados nas tendências mundiais, prontos para definir conceitos, figurinos, cores e até produtos que o artista poderá usar em sua nova empreitada.

Não foi o caso de Lady Gaga, que já conhecia o trabalho de Frederik Heyman e contratou o artista para que ele executasse o mesmo conceito de suas obras já conhecidas, no novo trabalho dela, o Chromatica.

Veja o ensaio:
https://www.papermag.com/lady-gaga-chromatica-2645479910.html?rebelltitem=29#rebelltitem29

Dito isto, é muito comum no cinema utilizar em filmes novos, referências ou recriações de estilos visuais de obras já consagradas. Na verdade, durante a pré-produção de um novo filme ou video clipe, um diretor de arte utiliza APENAS COMO REFERÊNCIA, fotos e vídeos dessas obras, para propor ao diretor geral a sua visão artística do que vai ser construído plasticamente através de cenários, de figurinos e de maquiagem, mas geralmente, quando estas referências são muito fortes ou óbvias, costumam ser apresentadas em tom de homenagem e o referenciado é citado, seja em entrevistas, ou no próprio caderno de produção do filme. O que não aconteceu com Heyman.

Em nenhum momento do clipe “FEQUENTE(MENTE)” Frederik (Heyman) foi citado por Federico (Devito), diretor do clipe, nem nos créditos do próprio vídeo ou na ficha técnica que consta na descrição da página do Youtube. E ainda não se pronunciou sobre o caso.

O artista belga chegou a postar em suas redes sociais uma imagem que compara uma cena do clipe dos cantores brasileiros com uma foto de outro trabalho publicitário dele para uma marca de óculos. Na publicação escreveu “Copy and Paste” (Copie e Cole), e fez questão de marcar Vittar, Chameleo e Devito.

Não distante do universo audiovisual, mas trazendo exemplos dentro da indústria fonográfica, isto seria equivalente à utilização de um trecho de uma música já existente, para criar uma nova, o famoso sample. A própria Lady Gaga utilizou na melodia principal de “Rain On Me”, samples da música “All This Love That I’m Givin” da cantora americana Gwen McCrae, lançada em 1979. Nestes casos, geralmente o artista sampleado concede a licença de utilização do trecho e recebe parte dos royalties por isso. E todo mundo sai ganhando, mas isso nem sempre acontece.

É muito comum no mercado brasileiro de música eletrônica, sobretudo na cena Tribal House, um produtor usar como base para criação de suas músicas referências musicais de outros produtores que admira e se espelha, muitas vezes utilizando um instrumental ou vocal da música original destes artistas. Mas até que ponto uma obra pode ser considerada uma homenagem e a partir de onde ela se torna plágio?

Filipe Guerra, DJ e produtor, diz que existe um limiar entre ‘samplear’ e copiar algo. Na sua opinião “Homenagem na música é fazer um cover, respeitando todos os direitos autorais” e explica que a música eletrônica é feita de samples que já existem, com licenças para esse uso. “Quando copiam e colam partes de músicas de outras pessoas, isso é um crime previsto na lei de direitos autorais. É inaceitável”, afirma.

É o que aponta o também DJ e Produtor Macau (do projeto ALTAR) sobre remixes não autorizados. Segundo ele “Quando cantoras como Ariana Grande e Madonna lançam álbuns, todo mundo quer remixar suas músicas, e para isso se apropriam do material delas, seja um vocal ou melodia, realizando um remix não autorizado. Todo mundo faz isso. Virou um senso comum, principalmente entre os produtores brasileiros”. O DJ, que já teve música no topo da Billboard salienta que “é necessário entender que se o motivo deste trabalho for promocional, para uso próprio apenas, sem auferir lucros, tudo bem. Mas se você põe a venda algo que originalmente não é seu, está errado, pois o artista original não ganha com isso. E foi ele quem investiu tempo e dinheiro naquela produção, pagando músicos e estúdios caros”. Complementa dizendo que “as pessoas devem respeitar o trabalho de todo artista, seja ele famoso, meio famoso ou anônimo” e que o ideal seria “criar uma plataforma onde o artista que fez o remix não autorizado, pudesse vender seu trabalho mas o artista original também fosse contemplado com o lucro das vendas”, porém a legislação do Brasil torna isso algo complicado. Mas o que a Constituição Brasileira fala sobre isso?

Bárbara Anastácio, que é advogada e possui uma coluna aqui na Colors DJ, justamente voltada para os questionamentos legais que implicam a música no mercado brasileiro, afirma que ainda é muito polêmico e nada simples a questão envolvendo direitos autorais no mercado fonográfico da música eletrônica, por não haver um regulamento a respeito e a Lei de Direitos Autorais ser bastante ultrapassada, sendo necessária à sua aplicação por analogia. E recomenda “Sempre procure o produtor da música, se você pretende editá-la (remix, mashup, etc.) e ganhar dinheiro com isso”. Para ler o texto na íntegra clique aqui.

Toda obra, seja ela áudio ou visual, é fruto da inspiração de um artista, que imprimiu nela, sensações e emoções individuais; particulares. É a sua maneira de se expressar sobre uma questão que pode ser íntima ou de interesse coletivo, e cabe a ele decidir compartilhá-la ou não. Sua arte é parte dele, e em muitos casos, produto de várias horas de trabalho. E todo trabalho merece reconhecimento. Mas não podemos esquecer que todo artista além de influenciar, conscientemente ou não, também é influenciável. Principalmente hoje em dia, onde o bombardeio de estímulos visuais e sonoros através da TV e internet se torna cada vez mais FREQUENTE. Logo, aquele que insistir em dizer que não sofreu influência alguma em suas criações, MENTE.

“Na natureza nada se perde e nada se cria, tudo se transforma.” Lavoisier

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