Todo álbum tem aquela faixa que carrega o peso do conceito inteiro. Em EQUILIBRIVM II (julho de 2026), esse peso caiu em cima da eletrônica — e “OKE”, parceria de Anitta com Brô MC’s e Katú Mirim, é exatamente esse momento. É a faixa que traduz em batida tudo que o álbum quer dizer: um projeto pessoal, espiritual e importante na trajetória da artista, com a música eletrônica como linguagem central pra contar essa história.
Se você é da cena eletrônica e ainda não ouviu, bora entender por que essa é a faixa pra ficar de olho.
A base eletrônica: do terreiro pro subgrave hipnótico
A produção é assinada por Carlos do Complexo e Papatinho, dupla que sabe como ninguém transformar referência cultural em batida que gruda no ouvido. E o ponto de partida da música é, no mínimo, arrepiante: um sample de “Cabocla de Pena”, ponto tradicional de Umbanda.
Carlos do Complexo isolou o cântico e a percussão de terreiro e transformou tudo em um loop hipnótico de subgrave. Em cima disso, entraram sintetizadores densos, uma pegada eletrônica de vanguarda e a batida raiz do funk carioca. O resultado? Uma sonoridade que não se parece com nada que você ouviu esse ano.
E a letra não fica atrás: cita nominalmente etnias como Pataxó, Tikuna, Múra, Terena e Guarani-Kaiowá, entre várias outras. Não é só uma referência bonita — é demarcação lírica, ponto final.
O que Anitta e o Brô MC’s têm a dizer
Anitta foi direta sobre a intenção por trás da faixa:
“O álbum foca muito nessa transição para a espiritualidade e a natureza. ‘OKE’ foi desenhada intencionalmente como uma homenagem à força e à resistência dos povos indígenas brasileiros, celebrando as energias de Oxóssi e da Cabocla Jurema.”
Do lado do Brô MC’s, o recado também veio forte. CH MC resumiu o momento como uma virada histórica, e Bruno VN foi além, tratando a música como ferramenta política:
“Essa música não é apenas entretenimento, ela é uma ferramenta política de resistência para que o Brasil lembre de quem são essas terras.”
O clipe: 10 milhões de views e um curta-metragem de verdade
Esquece aquele clipe de 3 minutos e pronto. “OKE” faz parte do curta-metragem criado para divulgar o álbum no formato de storytelling visual longo, dirigido por Nídia Aranha, Felipe Sassi e Nico Mascarenhas. E funcionou: o vídeo passou de 10 milhões de visualizações só na primeira semana.
Felipe Sassi comentou a aposta:
“A Anitta teve muita coragem de apostar em formatos longos de vídeo neste projeto. O resultado foi uma taxa de abandono do público incrivelmente baixa no YouTube.”
O figurino: quando moda nacional vira declaração política
A direção de styling, assinada por Daniel Ueda e André Philipe, também merece capítulo à parte. A proposta foi quebrar de vez os estereótipos estéticos ligados a povos indígenas na mídia tradicional, aproximando essa estética do high fashion e do streetwear global — e ainda dando palco pra moda brasileira.
O conceito? Um “patchwork de ideias e referências opostas”, juntando texturas rústicas e artesanais com silhuetas urbanas e futuristas. No look de Anitta, destaque pro top artesanal de franjas feito à mão, pelo icônico Colar d’Alma e joalheria regional. Nomes como Isabela Capeto, Ronaldo Fraga, Normando e Ateliê Mão de Mãe assinam as peças.
Por que “OKE” importa
A repercussão não parou nas redes de fã. Veículos como Letras.mus.br e Mídia Indígena trataram o lançamento como marco para a visibilidade de artistas indígenas na música pop. Já o Campo Grande News destacou o orgulho regional pela presença do Brô MC’s, grupo sul-mato-grossense, levando a cultura guarani-kaiowá pra vitrine nacional.
Em resumo: “OKE” é a prova de que a música eletrônica pode carregar peso conceitual e ser, ao mesmo tempo, ferramenta de resistência. É a faixa eletrônica desse projeto tão importante pra Anitta — e um lançamento que junta espiritualidade, ancestralidade, moda e política em menos de 4 minutos.