ENTREVISTA | THAAL: Da Retomada em Dublin à Maturação do Tribal House na Cena Europeia

Reconstruir uma carreira artística em outro país exige coragem, resiliência e um profundo amor pela música. É exatamente essa a jornada vivida por Thaal, DJ que encontrou em Dublin o cenário ideal para resgatar e expandir sua paixão pela música eletrônica, iniciada ainda em 2008 nos bastidores de produções de eventos.

Passando por desafios que testaram sua dedicação (incluindo um golpe financeiro superado com aprendizado e maturidade), Thaal hoje colhe os frutos de seu esforço de forma orgânica. Transitando com propriedade pelo Tribal House, percussões marcantes, vocais envolventes e pitadas de Afro House, Tech House e Pop, ele vem conquistando pistas importantes na Irlanda, Inglaterra, Itália e Portugal.

Abaixo, conversamos com o artista sobre sua trajetória internacional, o conceito de seu mais recente projeto “O Thaal Set, After Party” e seus planos para cruzar o oceano e reconectar-se com o público brasileiro.

Thaal, como começou sua relação com a música eletrônica e o que te motivou a fazer essa pausa e tomar a decisão corajosa de retomar seu projeto artístico morando em Dublin?

Minha relação com a música eletrônica começou em 2008, quando comecei a promover eventos. Durante cerca de três anos trabalhando com produção, fui tendo cada vez mais contato com DJs, conhecendo pessoas da cena, fazendo amizades e entendendo de perto como funcionava aquela profissão. Aos poucos, fui me apaixonando não só pela música, mas por tudo que envolvia ser DJ, os bastidores e pela experiência que se criava na pista. Foi aí que percebi que também queria viver isso profissionalmente.

Quando me mudei para a Europa, esse projeto acabou ficando em segundo plano por um período, por conta de outros desafios da vida que tive que vencer. Retomar minha carreira em Dublin foi uma decisão muito pessoal, de entender que eu ainda tinha algo para construir através da música e que não queria continuar adiando isso. Comecei novamente em um país novo, construindo minha identidade como Thaal DJ e, nesses últimos dois anos, fui transformando aquela paixão que começou em 2008 em uma carreira de verdade.

Reconstruir uma carreira do zero na Europa exige coragem e alto investimento financeiro e emocional. Como foi conquistar espaço na cena internacional e lidar com momentos difíceis, como o golpe que você sofreu durante esse processo? O que te fez manter a resiliência?

Foi um processo de muita persistência, porque reconstruir uma carreira em outro país significa começar praticamente do zero. Você precisa investir tempo, dinheiro, criar conexões e, muitas vezes, provar seu trabalho antes de conquistar espaço.

Nesse processo, acabei passando por uma situação que foi um grande aprendizado. Uma pessoa começou me oferecendo muitas promessas, começando por um serviço de distribuição dos seus sets para plataformas digitais e, depois, passou a me oferecer oportunidades de apresentações no Brasil. Ele começou a me apresentar supostas datas em diferentes cidades, inclusive mencionando clubes conhecidos em Salvador, São Paulo, Brasília e até na Colômbia e Chile. Ele apresentava documentos e registros da empresa, transmitia confiança e passou a intermediar passagens e hospedagens com a promessa de que seriam reembolsadas pelos produtores. Quando as datas chegaram, percebi que nada daquilo existia. Entrei em contato diretamente com alguns dos clubes mencionados e descobri que eles sequer conheciam essa pessoa.

Foi um golpe financeiro, mas também um aprendizado profissional muito grande. Quando você está começando e quer muito mostrar seu trabalho, conquistar espaço e provar que merece estar ali, existe uma ansiedade que pode fazer você baixar a guarda. Hoje eu entendo ainda mais a importância de buscar referências, confirmar informações diretamente com os envolvidos e não deixar a vontade de uma oportunidade falar mais alto que a necessidade de verificar se ela é real.

“Apesar disso, não deixei que essa experiência me parasse. Pelo contrário, ela me deixou mais atento e mais preparado. Acho que resiliência também é isso, entender o que aconteceu, aprender com aquilo e continuar construindo.”
 
 
 
 
 
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Você já dividiu a cabine com grandes nomes do pop e da cena eletrônica brasileira como Pedro Sampaio, Gloria Groove, Gretchen, Allan Natal e Fran Albuquerque para multidões. Como essa bagagem fortaleceu o seu nome no circuito europeu para conquistar gigs em festas como a Profile e a Sunset Party em Dublin, e a Rainbow Rodeo em Portugal?

Ter tido a oportunidade de dividir as pickups com grandes nomes da cena pop e eletrônica brasileira foi muito importante para a minha formação como artista. Cada experiência me trouxe uma visão diferente sobre palco, público, produção e sobre como um DJ precisa se adaptar a diferentes momentos e pistas.

Isso também foi me dando mais confiança e preparação para construir meu próprio caminho na Europa. Aos poucos, comecei a receber mais reconhecimento e apoio de artistas e profissionais que admiro, e isso foi abrindo novas portas. Agora, poder tocar em grandes festas em Dublin e também em Portugal, dividindo as pickups com outros grandes nomes da cena como a Má Rodrigues, Adham e Rayka Vittar, representa muito desse momento de crescimento. Também fico muito feliz em compartilhar esses momentos com amigos que estão vivendo essa mesma fase de construção, crescimento e correria, como Bruno Garcia e Denys Chavez. É muito especial poder crescer junto de pessoas que estão na mesma luta e torcendo umas pelas outras.

Para mim, é muito especial perceber que aquele trabalho que começou há alguns anos está ganhando cada vez mais espaço e reconhecimento fora do Brasil. Ainda estou construindo essa trajetória, mas sinto que estou em um momento muito importante dela.

 
 
 
 
 
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Hoje, vendo o seu trabalho dar frutos orgânicos e recebendo uma resposta tão calorosa do público no exterior, qual a sensação de colher o resultado de tanto esforço após esse período de reestruturação?

É uma sensação muito difícil de explicar, porque eu sei exatamente quanto trabalho existe por trás de cada conquista. Depois de passar por um período de reestruturação, começar a perceber que as pessoas estão conhecendo meu trabalho, se conectando com o que eu faço e, principalmente, voltando para me ouvir, é muito gratificante.

O mais especial para mim é ver isso acontecendo de forma orgânica. Não é apenas sobre números ou sobre tocar em determinados lugares, mas sobre perceber que existe uma conexão real entre o meu trabalho e o público. Quando alguém vem falar comigo depois de um set, quando alguém compartilha uma música ou aparece novamente em outra apresentação, eu sinto que estou construindo algo que vai além de simplesmente tocar, está nos conectando.

Depois de tudo que aconteceu nesse processo, colher esses frutos me dá a sensação de que todo o esforço fez sentido. E, ao mesmo tempo, me dá ainda mais vontade de continuar, porque eu sinto que isso ainda é só o começo.

Seu projeto mais recente, “O Thaal Set, After Party”, sintetiza bem o seu momento atual. Qual o conceito por trás desse set e de que forma ele consolida a maturidade da sua sonoridade?

O Thaal Set, After Party representa muito bem o momento que estou vivendo hoje como artista. Ele nasceu muito das conversas com meus amigos, da minha vivência nos afters, do que eu ouço e também do que percebo que as pessoas gostam de ouvir quando estão na pista. É uma construção muito ligada à experiência real que tenho vivido.

“Mais do que fazer um set simplesmente com aquilo que as pessoas já querem ouvir, eu gosto da ideia de apresentar coisas que talvez elas nem soubessem que queriam ouvir, mas que, quando escutam, percebem que gostam. É essa surpresa e essa conexão com o público que eu busco criar.”
 
 
 
 
 
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Minha sonoridade continua tendo o Tribal House como essência, mas hoje me sinto muito mais seguro para transitar por diferentes influências e construir uma narrativa. Acho que o After Party representa justamente essa maturidade, ter uma identidade bem definida, mas ainda ter liberdade para experimentar e surpreender.

Sua marca registrada é o Tribal House com bastante percussão e vocais, mas você adiciona pitadas de Afro House, Tech House e Pop. Como você calibra essa fusão musical para criar uma atmosfera de liberdade e intensidade única nas pistas europeias?

Meu som também foi construído a partir da versatilidade. Ao longo da minha trajetória, venho tocando em diferentes formatos de eventos, desde festas de open format, passando por Funk, Pop, House e outros estilos, até eventos privados. Isso me permite entender diferentes públicos e incorporar essas referências ao meu trabalho. Hoje, junto todas essas referências e experiências dentro da minha identidade no Tribal House, criando uma conexão entre diferentes tipos de festa em um só momento.

Embora esse novo set expresse com clareza a sua identidade atual, ele não limita sua atuação nas pickups. Como sua versatilidade para transitar por diferentes estilos ajuda a adaptar suas apresentações sem perder a sua assinatura artística?

Para mim, versatilidade não significa deixar de ter uma identidade, significa saber adaptar essa identidade ao contexto. Posso tocar diferentes estilos dependendo do público, do evento e do momento da pista, mas sempre procuro levar comigo elementos que fazem parte da minha assinatura, principalmente a energia e a forma de construir a experiência. Acho que essa capacidade de transitar entre diferentes estilos me permite conversar com públicos diferentes sem deixar de ser o Thaal.

 

 
 
 
 
 
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Diante de novas datas confirmadas e um alcance em constante expansão pela Irlanda, Inglaterra, Itália e Portugal, quais novos países, festivais e clubs estão no seu radar para os próximos meses?

Tenho alguns mercados que estão no meu radar, principalmente Espanha, França e Alemanha, além de continuar fortalecendo minha presença nos países onde já venho trabalhando. Também quero muito voltar minha atenção para o Brasil. Apesar de estar vivendo tão longe, continuo sendo brasileiro e a minha brasilidade está muito presente em tudo que faço, desde a minha sonoridade até a forma como me relaciono com o público. Tenho muita vontade de levar essa experiência que estou construindo na Europa de volta para o cenário brasileiro e criar essa ponte entre os dois mercados. Mais do que simplesmente acumular países no currículo, meu objetivo é construir conexões consistentes e levar o projeto para lugares onde a minha experiência realmente faça sentido.

 

 
 
 
 
 
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Construir pontes é essencial para o projeto Thaal. Quais parcerias ou colaborações com outros DJs e produtores você deseja concretizar nos próximos 12 meses?

Uma das coisas que eu mais queria era poder dividir um line-up com a Má Rodrigues, que é uma grande referência para mim dentro do Tribal House, e isso representa muito do que venho buscando construir. Mas também tenho vontade de colaborar com artistas em diferentes momentos de suas trajetórias, desde DJs que já têm milhões de seguidores até artistas que estão começando ou que têm uma caminhada parecida com a minha. Gosto muito dessa troca porque acredito que a inspiração pode acontecer dos dois lados.

Hoje, inclusive, estou desenvolvendo um projeto muito especial em parceria com meu melhor amigo, Marcos Wenzel, que também é DJ de Tribal, além de produtor. É uma parceria que nasceu na amizade e está se transformando em algo profissional, e acho isso muito especial.

Também quero continuar criando projetos que mostrem minha versatilidade e minha forma de contar histórias através da música. Tenho planos de apresentar meu trabalho em novos países, conhecer outros públicos e incorporar novas referências às minhas apresentações. No fim, quero que minha história também possa ser uma inspiração para quem está começando e enxergue na minha trajetória a possibilidade de construir seu próprio caminho, mesmo começando de outro lugar.

Para fechar com chave de ouro: quais são os seus planos para voltar a tocar nos palcos do Brasil e qual é a mensagem que você deixa para os leitores da Colors DJ Magazine que acompanham o seu corre pelo mundo?

Voltar a tocar no Brasil está nos meus planos para muito em breve. Tenho muita vontade de levar para o público brasileiro tudo o que venho construindo nesses últimos dois anos na Europa e poder me apresentar em diferentes palcos pelo país. O Brasil é enorme, tem públicos e cenas muito diferentes, e acho que seria muito especial poder conhecer essas pistas e mostrar o meu trabalho em diferentes lugares. Quero construir essa ponte entre a carreira que estou desenvolvendo na Europa e a cena brasileira, levando essa experiência de volta para casa e criando novas conexões por lá.

“Valorize essas pessoas, mantenha sua essência e continue mostrando seu trabalho com dignidade e consistência. Nem sempre o resultado vem no tempo que a gente espera, mas se você continuar trabalhando e fazendo as coisas da maneira certa, uma hora as portas começam a se abrir.”