DESTAQUE | DJ DOMINICK: A virada de chave, o corre e a arte que transforma

A trajetória de DJ Dominick é sinônimo de resiliência, paixão e verdade. Indicada na categoria Destaque do Prêmio Melhores do Ano 2026, a artista coleciona histórias que vão desde o carinho familiar em Porto Velho até palcos na França, Suíça e Portugal, passando por selos gigantes como Joy, The Week e San Sebastian.

Nesta conversa sem filtros, Dominick relembra suas primeiras memórias com a música, a virada de chave que mudou seu destino e a responsabilidade de ser uma mulher trans viva e no topo aos 36 anos, inspirando novas gerações a acreditarem nos próprios sonhos.

As primeiras notas e a ferveção na adolescência
Você nasceu em um ambiente cercado de música na família. Qual é a sua primeira memória musical que carrega até hoje?

DJ Dominick: Tenho muito forte a lembrança da minha mãe, Audacy, me fazendo dormir na rede no corredor da casa da minha avó, Abidulia, em Porto Velho, minha cidade natal. Minha mãe cantava uma música do Roberto Carlos, “Quero que você me aqueça neste inverno e que tudo mais vá pro inferno”, e sempre cantava pra eu dormir. Essa música nunca saiu da minha cabeça até hoje.

Na adolescência, as festas e os amigos começaram a fortalecer sua conexão com o som. Como esse período moldou quem você é hoje?

DJ Dominick: Acredito que esse período disse muito sobre as possibilidades de sons que eu ia encontrar por aí no mundão, pois a gente ia em todos os tipos de festa, do axé ao rock. Certamente esse período moldou minha humildade e esse meu jeito fácil de ter contato com as pessoas. Sempre fui de ter muitos amigos e conhecidos.

Você cita um amigo muito importante nessa caminhada, o Cleudson, compartilhando CDs e referências. O que aquelas descobertas despertaram em você?

DJ Dominick: Aquele momento me mostrava que existia outro mundo além da minha cidade. Me possibilitou sonhar, ter vontade de conhecer festas, cidades e boates. Anos depois, toquei justamente em uma dessas boates, a Blue Space em São Paulo, em junho de 2022. Além disso, pude conhecer artistas e DJs que a gente escutava muito na época, como Offer Nissim, Mauro Borges e Robix, além de despertar a enorme vontade de conhecer o mundo, pois o Cleudson viajava muito.

A virada de chave nas pistas e o aprendizado na prática

“Aquele foi o start para eu me agarrar na oportunidade de ter outro ofício, um oficio que amei desde a primeira vez.” — DJ Dominick

Em 2018, em Curitiba, veio o convite dos DJs Marcos Roberto e Rodrigo Maia para aprender a tocar na ACEITAH. Como foi esse momento?

DJ Dominick: Exatamente nesse ano eu estava dando uma virada de chave na minha vida, pois estava largando a vida da prostituição na rua, um ofício do qual tenho muito orgulho de ter vivido, mas era algo que já não queria mais. Antes de me chamar para tocar, os meninos já haviam me dado emprego no bar como atendente. Então, já procurando outra coisa pra fazer, recebi o convite. Logo após tocar, já saí da festa com duas datas confirmadas. Ali foi o start para eu me agarrar na oportunidade de ter outro ofício, um ofício que amei desde a primeira vez.

Depois disso você foi para Florianópolis continuar aprendendo. Como foi viver essa evolução no dia a dia entre festas e pistas?

DJ Dominick: Certamente uma caminhada muito dura, entre erros e acertos. Tinha muitas críticas, às vezes até de forma desrespeitosa, com olhares de julgamento por acharem que você não vai superar a apresentação anterior. Mas foi muito importante porque também tem o lado positivo do apoio dos amigos e conhecidos que querem seu crescimento e dão críticas positivas, que são fundamentais.

A expansão nacional, carreira internacional e carreira solo
Em 2019 você entrou para a Lainer Company, onde ficou por cinco anos. O que essa fase representou na sua carreira?

DJ Dominick: Esse período foi muito importante. A agência me trouxe um profissionalismo que eu nem imaginava que teria e me abriu inúmeras possibilidades, como viajar para fora do Brasil e tocar em grandes selos como Joy, The Week, San Sebastian, Mad Club, Gibu’s e Construction. O maior aprendizado com certeza foi ter humildade para estar em todos os lugares, ter paciência, não desistir e correr atrás sem nunca esperar por ninguém.

Sua música te levou para vários estados e para países como França, Portugal e Suíça. Quando você percebeu que seu trabalho estava ultrapassando fronteiras?

DJ Dominick: Confesso que até hoje me pergunto, mas com certeza quando toquei fora do Brasil foi um marco muito grande. Toquei em cidades que sonhava conhecer, como Paris e cidades da Suíça.

“O maior aprendizado com certeza foi ter humildade para estar em todos os lugares, ter paciência, não desistir e correr atrás.” — DJ Dominick

Visibilidade trans, maturidade e inspiração
Sendo uma artista trans na cena, quais desafios e conquistas mais fortaleceram sua caminhada?

DJ Dominick: Os desafios com certeza são muitos, mas acredito que a falta de oportunidades é o maior deles. O preconceito existe sim, mas pela minha experiência digo que é até leve. Minha maior conquista com certeza é estar viva aos 36 anos no país que mais mata pessoas trans. O fato de mostrar uma nova possibilidade a outras pessoas também me conforta muito.

Hoje em carreira solo, o que mudou em você, pessoal e artisticamente, desde o começo?

DJ Dominick: Hoje com certeza sou uma pessoa mais paciente. Entendi que temos que correr atrás do nosso com muita humildade para estar em qualquer lugar. Mudei minha visão da noite. A gente pensa que vai ser sempre as mil maravilhas, mas não, vai ter noites ruins e pessoas ruins também.

Qual mensagem você deixa para quem é trans e sonha em viver de arte e ocupar seu espaço na música?

DJ Dominick: Para quem está começando agora, já digo que não vai ser fácil, mas vai mesmo assim! Vá com muita humildade, não espere por ninguém e se joga mesmo. Mas tenha paciência também, pois tudo tem o tempo certo para acontecer. Sonhe muito, mas além disso, lute para realizar cada um desses sonhos.