Na segunda parte da nossa conversa exclusiva, o produtor abre o diário de estúdio, comenta a instabilidade de suas criações mais vulneráveis, a engenharia de som com Diego Santander e o lançamento em vinil.
Na primeira parte da nossa entrevista com Tiago Santaroza, conhecemos o panorama geral e as motivações emocionais que deram vida ao EP “Echoes from My Heart”. Hoje, na continuação dessa conversa íntima, o DJ e produtor nos leva diretamente para dentro do estúdio para dissecar a identidade musical do projeto.
ENTREVISTA | TIAGO SANTAROZA: A vulnerabilidade e a cura através das melodias em “Echoes from My Heart”
Em um relato sincero e sem filtros, Tiago destrincha a atmosfera de cada composição, explica como desafiou o mercado atual com remixes progressivos de longo formato, detalha a busca pelo rigor técnico longe das facilidades da Inteligência Artificial e a sensação de ver suas memórias digitais de 2026 ganhando vida no formato mais clássico da música: o vinil.
“This Love” foi a primeira canção escrita e o ponto de partida de todo o projeto. Ela carrega a dor crua de um romance que acabou sem despedida na frase “I never got to say goodbye”. Como foi o processo de escolha dos instrumentos e da atmosfera dessa balada pop emocional para que ela funcionasse como a “carta musical” original do EP?
Tiago: “This Love” nasceu de um lugar muito direto, muito cru mesmo. Ela veio de uma dor que ainda estava acontecendo, sabe? Não era uma lembrança antiga, não era uma coisa elaborada com o tempo. Era uma sensação muito presente, uma ferida muito aberta, de interrupção. E por isso eu queria uma música lenta, com poucos elementos. Não podia ser muito enfeitada ou muito produzida no sentido de esconder a emoção. Ela precisava soar como uma carta mesmo, só que uma carta cantada.
A letra tem dois momentos bem diferentes: uma parte fala de como o relacionamento estava bem, e a outra fala do choque de nunca mais ver meu parceiro. Essas partes se intercalam. Elas têm pesos emocionais diferentes. E tem também o bridge (ponte), que traz uma pausa mais dramática, como se aquele último lugar de alegria virasse dor.
Em cima dessa construção, quando comecei a pensar na atmosfera, eu queria que a música tivesse esse lugar de balada pop emocional. A letra já carregava muita dor, então o arranjo precisava sustentar essa dor sem exagerar. As frases “I never thought I’d lose you” e “I never got to say goodbye” são muito simples, mas para mim elas carregavam tudo. Era exatamente isso: eu não tive essa despedida, eu não consegui fechar aquela história do jeito que eu gostaria.
Eu queria um arranjo com piano, violão, violino, camadas atmosféricas melódicas e uma voz muito próxima, quase como se estivesse falando diretamente com a pessoa. Então o desafio foi encontrar uma produção que deixasse a música respirar. Eu não queria que ela explodisse o tempo inteiro. Eu queria que ela tivesse momentos de contenção, momentos de crescimento e, principalmente, que a voz carregasse a vulnerabilidade da letra.
Porque, na minha cabeça, “This Love” não era só uma música sobre um término. Era uma tentativa de dizer algo que eu não consegui dizer diretamente. Era a carta que eu não entreguei, mas que encontrou outro caminho. É como se eu começasse a ler a carta tentando segurar a emoção e terminasse chorando, colocando todos os meus sentimentos para fora. E acho que a escolha dos instrumentos veio muito disso. O piano e as texturas mais atmosféricas ajudam a criar esse espaço íntimo, quase como uma lembrança passando na cabeça. Os elementos de pop entram para dar estrutura, para transformar aquilo em canção, mas sem tirar o sentimento principal. Eu queria que a pessoa escutasse e sentisse que havia uma história real ali, uma emoção real, uma tentativa muito honesta de entender o que fazer com um amor que, dentro de mim, ainda não sabia terminar.
“Your Song” – Escrita em 25 de fevereiro de 2026, esta é uma balada pop melódica acolhedora e dedicada a todas as pessoas intensas que cruzaram seu caminho. A letra traz a aceitação de que quem passou por nós vira melodia interna (“Know you were poetry to me”). Como foi desenhar esse arranjo para que a música funcionasse, literalmente, como um abraço de gratidão?
Tiago: “Your Song” tem um lugar muito especial para mim porque ela não fala de uma dor específica do mesmo jeito que “This Love” fala. Ela surgiu logo depois que eu vi meu ex pela primeira vez, cerca de um mês depois do término. Foi um momento de confusão mental e emocional muito grande. Inicialmente parte da letra surgiu em relação a ele, mas, com os dias passando, a letra ganhou outro corpo e se tornou algo maior.
Como eu disse antes, as músicas desse EP são os meus sentimentos, e quando eu estava nessa ebulição emocional, a letra se tornou algo além de uma gratidão para uma pessoa apenas. Ela é mais ampla, mais acolhedora. É como se, depois de olhar para histórias diferentes, pessoas diferentes e momentos diferentes, eu chegasse num lugar de gratidão. Não necessariamente uma gratidão fácil, porque algumas histórias também deixam marcas, deixam perguntas, deixam saudade. Mas é uma gratidão por entender que cada pessoa que passa pela nossa vida deixa alguma coisa dentro da gente.
Quando eu penso nessa música, eu penso muito nessa ideia de abraço mesmo. Ela precisava soar como uma música que acolhe, que não cobra, que não acusa, que não tenta resolver tudo. Ela simplesmente reconhece: você passou por mim, você foi importante, você virou parte de alguma coisa dentro de mim. E a frase “Know you were poetry to me” tem muito disso. Não é uma frase sobre posse, não é sobre querer voltar, não é sobre exigir nada. É sobre reconhecer beleza no que foi vivido. E eu me coloco ali como essa canção que a pessoa pode lembrar, como esse lado bonito do que foi vivido.
Por isso o arranjo precisava ser mais melódico, mais quente e mais emocional, sem carregar aquele peso de sofrimento. Eu queria que ela tivesse uma sensação calma, de final de jornada, quase como alguém dizendo: está tudo bem, aquilo existiu, aquilo foi bonito de alguma forma. Na minha cabeça, ela precisava ter uma instrumentação que trouxesse esse conforto, com uma base mais suave, uma melodia fácil de abraçar e uma interpretação que não gritasse a emoção, mas que conduzisse a pessoa por ela.
Até por isso a versão de estúdio é um dueto. Acho que duas vozes abraçam mais, acolhem mais. E o contraste entre elas traz esse equilíbrio emocional que a música pedia, como se fossem razão e emoção cantando juntas, alinhadas na mesma história. E por isso que “Your Song” fecha o EP. Ela não fecha dizendo que tudo foi perfeito. Ela fecha dizendo que tudo deixou alguma coisa. E isso, para mim, é muito verdadeiro porque a gente passa a vida tentando entender pessoas, relações, encontros, despedidas, e às vezes a única conclusão possível é essa: algumas pessoas viram memória, algumas viram aprendizado, algumas viram saudade, e algumas viram música. “Your Song” é exatamente isso. É um agradecimento para quem, de algum jeito, virou canção dentro de mim e por quem eu também desejo ser lembrado como canção.
‘Secret Track”, escrita em 27 de fevereiro de 2026, essa música é um Synth-Pop com uma estética super noturna e introspectiva, inspirada nas faixas escondidas de álbuns antigos. Musicalmente, como você trabalhou as texturas eletrônicas e os vocais sussurrados para dar a sensação de um afeto que existe em segredo, “quando ninguém está olhando”?
Tiago: “Secret Track” nasceu de uma memória diferente. Ela não tem a mesma exposição emocional das outras faixas do EP. Ela fala de uma conexão que existe num lugar mais íntimo, mais escondido, quase como aquelas lembranças que a gente não comenta muito, mas que continuam ali. E a ideia da “faixa secreta” veio justamente disso. Eu sempre gostei desse conceito de músicas escondidas em álbuns antigos, aquelas faixas que pareciam estar ali só para quem realmente ficou até o final, para quem prestou atenção, para quem descobriu.
Essa música faz parte da minha história, e eu precisei de coragem para trazer isso para a vida real em formato de canção, não porque fosse algo errado, porque nunca seria, mas porque é um sentimento que, como a faixa diz, “don’t fit in a name”. Por isso que eu digo que as letras de “Echoes” são muito reais, vulneráveis, e muitas pessoas podem se conectar. Somos todos humanos, guiados por sentimentos que podem surgir quando a gente menos espera.
Musicalmente, eu queria que ela mantivesse essa sensação de segredo. Por isso fazia sentido ir para um universo mais synth-pop e dream-pop, mais noturno, com elementos eletrônicos e texturas que não fossem tão óbvias. Eu queria que a música parecesse um pensamento acontecendo tarde da noite, quando as luzes estão mais baixas, quando a cabeça começa a passear por memórias que talvez não estejam tão resolvidas, mas que também não são dolorosas. É um afeto guardado, uma lembrança que não precisa de nome, não precisa de explicação, mas existe e continua quente no fundo do coração.
Os vocais mais sussurrados entram muito nesse lugar. Eu não queria uma interpretação muito aberta e expansiva. Eu queria uma voz mais íntima, jovem, quase como se a música estivesse sendo confessada. Porque tem sentimentos que não combinam com grito, mas combinam com silêncio. E “Secret Track” é muito sobre isso: aquilo que toca quando ninguém está olhando, quando ninguém está ouvindo, quando a pessoa aparece na memória de um jeito quase secreto.
As texturas eletrônicas ajudaram a criar esse espaço meio suspenso, de algo que talvez nunca tenha sido uma história formal, mas que teve significado. E eu acho bonito isso também. Nem toda conexão precisa virar uma grande narrativa de relacionamento para ser importante. Algumas ficam ali, escondidas no fim do álbum, tocando baixinho na memória. “Secret Track” é isso: uma música escondida, mas tão especial quanto às demais.
“Replay in My Heart”, também escrita em 27 de fevereiro, esta música quebra o clima denso com um Indie Dance luminoso e solar, celebrando com gratidão uma história linda de 22 anos que você viveu com seu ex-marido. Como foi traduzir em música a maturidade de que “even anger leaned to kindness” — até a raiva se inclinou para a bondade — e peitar a ideia de que fins precisam ser feitos de rancor?
Tiago: “Replay in My Heart” talvez seja uma das músicas que mais mostram uma virada emocional dentro do EP. Porque ela fala de um fim, mas não fala de um fim pelo lugar da destruição. Ela fala de uma história enorme, de 22 anos, que obviamente teve muitas camadas, muitos momentos, muitas alegrias, muitas dores, muitas transformações. E eu acho que, quando uma história desse tamanho termina, seria muito fácil tentar resumir tudo pelo cansaço final, pela mágoa final ou por aquilo que não deu certo. Mas essa música nasceu justamente do movimento contrário.
Escrevendo “This Love” e vendo ela nascer e ganhar vida, muitas emoções vieram à tona, como comentei na entrevista anterior. Olhando para como a minha história mais recente se desenrolou, eu revisitei a história do meu primeiro relacionamento, que durou 22 anos, com um olhar de gratidão. Não uma gratidão ingênua, como se tudo tivesse sido perfeito, mas uma gratidão madura, de entender que aquela relação construiu uma parte muito grande de quem eu sou.
E nesse momento pós-separação, a frase “even anger leaned to kindness” é muito importante para mim, porque explicita que eu sofri sim com o fim dessa relação. Afinal, 22 anos juntos é uma vida. Mas, olhando para trás alguns meses depois, essa letra diz exatamente o sentimento que fica: até quando eu tentei sentir raiva, alguma coisa dentro de mim voltou para o carinho, para a bondade, para o reconhecimento de que existiu um amor gigantesco ali. E isso, para mim, é muito emocionante. De novo, sou eu sendo honesto com os meus sentimentos, trazendo sentimentos diferentes dentro da mesma história.
“Do ponto de vista artístico, considero muito acertada a escolha de apresentar primeiro essas composições em sua forma original. Antes de qualquer releitura eletrônica, o público tem a oportunidade de conhecer a essência das músicas, suas melodias, letras e principalmente a mensagem que elas carregam. Isso fortalece a identidade do projeto e cria uma conexão mais profunda com quem escuta.” — Diego Santander (Engenheiro de Masterização no projeto Echoes From My Heart)
Por tudo isso, musicalmente ela não podia ser uma música pesada. Ela precisava ter luz. Ela precisava ter movimento, uma energia mais solar, mais indie dance, mais leve, porque a emoção dela não é de lamento. É de memória, de movimento. É como se a música estivesse dançando com o passado, mas sem ficar presa nele. Eu queria que ela tivesse uma pulsação positiva, uma coisa que desse vontade de ouvir caminhando, sorrindo, lembrando, respirando. Porque algumas saudades não vêm só para machucar. Algumas saudades também vêm para lembrar que a gente viveu algo bonito.
E acho que essa música peita sim essa ideia muito comum, que é a de que todo fim precisa virar rancor ou distância. Eu não acredito nisso. Existem fins que doem, existem fins que desorganizam a gente, mas isso não significa que a história inteira precise ser apagada ou transformada em raiva. “Replay in My Heart” fala justamente sobre isso: algumas pessoas continuam sendo capítulos importantes da nossa vida, mesmo quando a relação muda de forma. E, no meu caso, essa história vai ser sempre um replay no meu coração, não como prisão, mas como memória bonita.
“Too Heavy to Hold”, escrita em 31 de março de 2026, esta é a faixa mais frágil e experimental do álbum, nascida do esgotamento mental e de um momento em que as cores sumiram (“My colors are all gone”). Como você conseguiu traduzir a sensação de uma mente em colapso e do silêncio engolindo a gente para dentro do arranjo instável dessa música?
Tiago: “Too Heavy to Hold” é uma música muito difícil para mim, porque ela vem de um lugar de esgotamento físico, mental e emocional. Ela é sobre uma sensação de colapso interno, de não saber muito bem onde você está dentro da própria vida. É aquela sensação de tentar seguir, tentar trabalhar, tentar responder as pessoas, tentar parecer minimamente funcional, mas por dentro estar tudo muito confuso, muito barulhento e, ao mesmo tempo, muito silencioso e assustador.
Eu lembro que eu estava muito mal e, na minha sessão de análise, a primeira frase que falei para minha psicanalista foi: “Estou uma bagunça”. Daí já surgiu a parte da letra que diz: “If someone asked me where I am now / I’d say I’m a mess somehow”. A frase “My colors are all gone” veio traduzir depois esse meu estado, porque quando a gente está nesse lugar, não é só tristeza. É como se as coisas perdessem contraste, sentido. O mundo continua acontecendo, mas você não consegue acessar os prazeres e o sentido de tudo. Tudo fica meio sem vida, meio distante, meio instável.
E depois da letra feita, eu fiquei pensando muito em como trazer aquilo para a vida, sendo que eu estava sem vontade de fazer aquilo acontecer. Olhando para esse exato momento da criação de “Too Heavy to Hold”, vejo como o processo de execução do EP me ajudou nesse caminho de cura, não apenas de um fim de relação, mas de um lugar emocional muito depressivo. Não digo que curou ali, naquele momento, mas aliviou, me deu foco, me trouxe ritmo.
Pensando no arranjo, eu não queria uma música perfeitamente confortável, redonda, previsível. Ela precisava ter uma certa instabilidade, uma fragilidade, uma sensação de que alguma coisa poderia quebrar. Por isso eu vejo “Too Heavy to Hold” como a faixa mais vulnerável e talvez mais experimental do EP. Ela precisava ter espaço, silêncio, tensão. O arranjo tinha que deixar a voz quase exposta, como se a pessoa estivesse tentando se explicar, mas não conseguisse organizar totalmente o pensamento. E, ao mesmo tempo, a música precisava crescer o suficiente para mostrar esse acúmulo interno, esse monte de dúvidas batendo ao mesmo tempo, esse “am I falling apart?”, essa pergunta que a gente faz quando sente que está perdendo o controle de si.
O silêncio também era muito importante. A letra fala dessa sensação de o silêncio engolir a gente, e eu acho que isso é uma das coisas mais reais quando a mente está em colapso. Às vezes não é o barulho de fora que pesa, é o silêncio interno, ou o barulho interno que ninguém escuta. Então o arranjo precisava carregar esse vazio e essa pressão ao mesmo tempo. “Too Heavy to Hold” não é uma música para resolver a dor. Ela é uma música para mostrar o momento em que a dor ainda está sem forma, ainda está grande demais, pesada demais para segurar.
No vídeo dessa música no YouTube, justamente por ela ser uma faixa densa e pesada, eu coloquei um texto de apoio. Eu não falo abertamente de depressão na letra, mas ela também não tem uma reviravolta, não tem um momento bom. A letra discorre sobre esse momento triste, e eu senti que precisava oferecer algum tipo de acolhimento para quem se identificasse com aquilo.
Nota de apoio em saúde mental: Na descrição oficial da faixa no YouTube, o artista disponibilizou canais de acolhimento: “Se você sente que está pesado demais para carregar, por favor, saiba que você não precisa passar por isso sozinho(a). Se estiver enfrentando um momento difícil, peça ajuda. Canais de apoio emocional gratuito e sigiloso no Brasil (24h): Ligue para o número 188 (CVV) ou converse pelo chat: cvv.org.br”.
Essa validação não ficou apenas no campo emocional. Antes de lançar “This Love” e o EP, você buscou um cuidado técnico que considerava indispensável para que as músicas chegassem às plataformas com qualidade profissional. Como funcionou essa parceria com o Diego Santander, seu antigo professor de produção musical de 2020?
Tiago: Eu sabia que não bastava simplesmente subir um arquivo gerado por inteligência artificial nas plataformas. A IA ainda tem limitações sonoras, e eu queria que minhas músicas tivessem cuidado, respeito e qualidade profissional. Após registrar as obras, procurei o Diego Santander, meu professor de produção musical em 2020 e referência como DJ e produtor, para conduzir a masterização das faixas.
Mais do que masterizador, o Diego se tornou uma espécie de tutor técnico do projeto, ajudando-me a entender finalização, equilíbrio sonoro e entrega para o mercado fonográfico. Eu cheguei para ele e falei: “Diego, a história é essa. Eu gerei essas músicas e quero lançar. Dá para transformar esse material em algo com qualidade profissional para o streaming?” E ele me deu a mão nesse processo.
Para mim, essa etapa racional também teve um papel emocional: enquanto uma parte de mim tentava reorganizar o luto, a outra aprendia sobre distribuição, direitos autorais e tudo o que era necessário para transformar uma carta íntima em música pronta para o mundo.
“Um dos pontos que mais me chamou a atenção foi a preocupação do Tiago em desenvolver uma direção musical própria. Isso permitiu que a masterização fosse além da técnica, atuando como uma etapa de refinamento estético. Trabalhamos juntos para que todas as músicas do EP conversassem entre si em termos de energia, impacto e assinatura sonora, mantendo consistência do início ao fim.” — Diego Santander (Engenheiro de Masterização no projeto Echoes From My Heart)
Além das versões original e acústica, “This Love” ganhou vida nova com os remixes, com destaque para o seu Club Mix em formato Tribal House. Em uma era de faixas ultra rápidas de 3 minutos feitas para o algoritmo, você apostou em uma versão longa e progressiva. Como foi criar essa ponte entre o apelo emocional da letra e a energia imersiva da pista de dança, sem pressa e sem confusão sonora?
Tiago: Para mim, os remixes de “This Love” nasceram naturalmente, porque eu venho da pista. Quando eu escutei a música pronta, na versão balada pop, eu sentia que ela tinha uma emoção muito forte, mas também comecei a perceber que aquela melodia poderia ganhar outros corpos. E acho que isso tem muito a ver com a minha história como DJ. Eu sempre gostei dessas versões de músicas emocionais que iam para a pista sem perder o coração da música original. Aqueles remixes que fazem a pessoa dançar, mas que ainda carregam letra, memória, melodia e sentimento.
No caso do Club Mix, especialmente, eu queria uma versão que não tivesse pressa. Hoje existe uma tendência muito grande de músicas cada vez mais curtas, que focam no refrão, no consumo rápido. A sensação que tenho é que as pessoas na pista estão com pressa, mas, poxa, elas ficam ali 7, 8 horas dançando… pra que a pressa? Hehehe.
E eu sei que a pista não funciona assim, ou não deveria funcionar assim. Pelo menos a pista que me formou emocionalmente não funciona só assim. A pista também precisa de construção, de expectativa, de entrada, de crescimento, de respiro, de novidade. E essa minha versão Club Mix em Tribal House tem muito isso para mim. Ela cria uma energia física, corporal, imersiva, bem construída e que não vira bagunça.
O desafio era não deixar a música perder o que ela tinha de emocional. Primeiro, eu queria conduzir a pista pela história. E eu queria contar quase a letra toda, senão não faria sentido ter um remix apenas para ter um refrão cantado, porque “This Love” não poderia virar só uma batida em cima de um trecho de letra triste. Daí veio a versão longa, de quase 7 minutos, que tem esse corpo, essa crescente.
E, segundo, ela precisava continuar dizendo “I never got to say goodbye”, só que agora em outro ambiente. Na versão original, essa frase é quase uma confissão íntima. No remix, ela vira uma catarse coletiva. É como se uma dor que nasceu dentro de casa, dentro de um quarto, pudesse ir para a pista e encontrar outras pessoas. E isso é muito bonito para mim. Também tive muito cuidado com a questão sonora. Eu não queria confusão, excesso de elementos, frequência brigando, nada atropelando a voz. Eu queria percussão, peso, energia, mas com espaço para a música respirar. Porque uma música emocional na pista não precisa perder a clareza. Ela pode ter impacto, pode ter corpo, pode ter explosão, mas a mensagem precisa continuar ali. Então esse remix é muito esse encontro: a carta original de “This Love” encontrando o lugar de onde eu venho, que é a pista de dança.
Tiago, além das faixas originais do EP, você expandiu o universo de “Echoes from My Heart” lançando diferentes roupagens para as músicas, incluindo versões acústicas e múltiplos remixes. Quais são todas as versões extras que você colocou no mundo até agora e qual foi o propósito artístico de dar tantas vidas, ritmos e dinâmicas diferentes para as mesmas histórias?
Tiago: Eu acho que, quando uma música nasce de um sentimento muito verdadeiro, ela pode ter mais de uma vida. E isso aconteceu muito com “This Love”, principalmente. A versão original é a carta musical, a balada pop emocional, o ponto de partida de tudo. Mas depois eu comecei a perceber que aquela mesma história podia ser sentida de outros jeitos.
Até agora, além da versão original, eu coloquei no mundo a versão acústica de “This Love” e os remixes da faixa: Afro House, Disco House, Anthem Remix e Club Mix. Cada uma dessas versões olha para a mesma história por um ângulo diferente. A acústica aproxima a música da carta original, quase como se a pessoa estivesse ouvindo aquilo numa sala, numa conversa mais íntima. É uma versão mais crua, mais próxima do sentimento real.
Já os remixes levam a emoção para um lugar coletivo, para a pista, para o corpo, para o movimento. E isso faz muito sentido para mim porque eu sou DJ. Eu sei que a mesma música pode mudar completamente dependendo do contexto em que ela toca. Uma letra que, em casa, faz você chorar, na pista pode virar um momento de libertação. A dor pode virar dança. A saudade pode virar energia. A memória pode virar celebração. E eu acho que os remixes de “This Love” fazem isso: eles não negam a dor da música original, mas transformam essa dor em outra experiência.
Para as demais quatro músicas de “Echoes”, eu também lancei versões acústicas, porque elas trazem para perto a naturalidade do arranjo com poucos instrumentos, o vocal mais solto e uma leitura levemente diferente da versão de estúdio. É como se fosse um encontro mais íntimo entre a música e o ouvinte, com essa sensação de sentimento real, de vulnerabilidade, de “ao vivo”.
O propósito artístico nunca foi simplesmente lançar várias versões por lançar. Foi entender que as mesmas histórias podem ter dinâmicas diferentes, porque a gente também sente de formas diferentes dependendo do dia, do lugar, do corpo, do momento. Às vezes você precisa ouvir uma música sozinho, em silêncio. Às vezes você precisa dançar aquela mesma emoção com outras pessoas. Às vezes seu momento de dor pede uma versão encorpada de estúdio e, às vezes, pede a simplicidade e a naturalidade de um acústico. Então essas versões extras ampliam o universo de “Echoes from My Heart” porque mostram que uma emoção não tem um único formato. Ela pode ser balada, pode ser pop, pode ser acústica, pode ser pista. O sentimento é o mesmo, mas ele encontra novas formas de existir.
O EP ganhou um formato físico em vinil sob demanda direto pelo site Elastic Stage, reunindo as versões de estúdio e acústicas. E qual é a sensação de ver um diário afetivo digital e tecnológico de 2026 ser prensado no formato mais clássico da música?
Tiago: Eu não me considero exatamente um colecionador de vinis, mas tenho muitos discos de artistas que eu gosto, porque o vinil traz para o físico algo que vai além do streaming: conceito, fotos, encarte, arte e, principalmente, a sequência das músicas. Todo set que fiz na minha vida, toda vez que toquei, eu sempre quis contar uma história. Às vezes as pessoas nem percebem, mas existe uma construção. Eu começava com músicas mais ligadas ao amor, depois passava para músicas com um groove parecido e, muitas vezes, terminava com vocais mais poderosos. Existia uma crescente, uma intenção, uma construção musical.
E quando a gente fala de vinil, acho que isso fica ainda mais evidente. Os artistas pensam na ordem das músicas. E, no meu caso, o EP também foi construído dessa forma. A ordem das faixas não é a ordem em que eu escrevi as letras. A ordem das músicas conta uma história. Ela fala de um passado, de um acontecimento dentro desse passado, depois chega ao presente, à dor, ao sofrimento, e termina falando sobre como eu quero ser visto e o que quero representar para as pessoas.
Então são músicas que funcionam de forma independente, claro. Mas existe um motivo para elas estarem naquela ordem. E talvez seja justamente por isso que o vinil faz tanto sentido para mim. O streaming muitas vezes faz a gente ouvir uma música isolada, colocar numa playlist e seguir em frente, e já o vinil convida você a ouvir a obra inteira, na ordem em que ela foi pensada. E o “Echoes” foi construído exatamente assim, onde as músicas contam uma história quando estão juntas.
Quando vi a possibilidade para fazer um vinil sob demanda pela Elastic Stage, pensei: por que não? A arte já existe. As músicas já existem. O projeto já está pronto. Se alguém quiser ter isso em formato físico, ele pode existir dessa forma também. Para mim, tem uma emoção muito grande nisso. Eu jamais imaginei que aquelas letras poderiam chegar nesse lugar. Quando escrevi a primeira letra, eu estava tentando colocar para fora uma coisa que estava me sufocando. Era uma tentativa de organizar uma dor. E, de repente, alguns meses depois, aquilo pode existir prensado em vinil, como um objeto físico, como uma memória material daquele período da minha vida. Isso me emociona muito.
Eu gosto também da ideia de ser sob demanda, porque minha ideia nunca foi vender muitos vinis. Não é sobre isso. É sobre permitir que o projeto exista nesse formato para quem quiser ter essa experiência. E eu acho que “Echoes from My Heart” combina com o vinil justamente porque é um EP de narrativa, de sequência, de escuta mais atenta. Eu consigo imaginar alguém colocando esse disco na vitrola, ouvindo as músicas na ordem em que elas foram pensadas e entendendo a história completa que existe por trás delas. E acho que o vinil acaba eternizando não só as músicas, mas também esse momento da minha vida. Ele vira uma fotografia emocional de tudo o que eu vivi em 2026.
BÔNUS: Depoimento Completo (Na íntegra)
Depoimento de Diego Santander (Engenheiro de Masterização no projeto Echoes From My Heart)
Como foi trabalhar a masterização dessas faixas e lapidar esse material para o streaming?
“Foi um processo muito interessante, porque embora as composições tenham sido geradas com auxílio de inteligência artificial, o resultado final exigiu o mesmo cuidado técnico que qualquer produção musical destinada a indústria da música profissional. Recebi os stems individuais das faixas e trabalhei cada música buscando equilíbrio tonal, controle dinâmico, definição dos graves, clareza dos elementos principais e uma tradução consistente para diferentes sistemas de reprodução. O objetivo não era apenas subir o volume ou adequar aos padrões das plataformas de streaming, mas preservar a identidade artística de cada faixa e transformar o material bruto em uma experiência sonora coesa e agradável para o ouvinte.
Um dos pontos que mais me chamou a atenção foi a preocupação do Tiago em desenvolver uma direção musical própria. Isso permitiu que a masterização fosse além da técnica, atuando como uma etapa de refinamento estético. Trabalhamos juntos para que todas as músicas do EP conversassem entre si em termos de energia, impacto e assinatura sonora, mantendo consistência do início ao fim. Acredito que a inteligência artificial pode acelerar muito os processos criativos, mas a sensibilidade humana continua sendo fundamental na tomada de decisões artísticas e técnicas. Neste projeto, a combinação dessas duas abordagens resultou em um trabalho moderno, mas com personalidade e intenção musical bem definidas.”
Como você enxerga esse processo do Tiago em compor 5 musicas pop e produzi-las para divulgar para o publico, antes mesmo de pensar em versoes eletrônicas?
“Na minha visão, o que torna esse projeto especial não é apenas a decisão de lançar primeiro as versões pop antes de pensar em releituras eletrônicas, mas principalmente a história que existe por trás dessas músicas. Quando o Tiago me procurou para realizar a masterização do EP, ele compartilhou comigo todo o contexto emocional que deu origem ao projeto. Cada faixa nasceu de experiências reais, sentimentos genuínos e de um momento muito importante da vida dele. Isso mudou completamente a forma como eu enxerguei o trabalho, porque deixei de ouvir apenas músicas e passei a enxergar capítulos de uma história sendo contados através da arte.
Achei genial a maneira como ele transformou emoções, memórias e reflexões em canções. Muitas vezes os sentimentos são passageiros, mas quando são convertidos em música eles ganham uma espécie de permanência. Passam a existir para além do momento em que foram vividos e podem tocar outras pessoas que talvez estejam passando pelas mesmas experiências. Do ponto de vista artístico, considero muito acertada a escolha de apresentar primeiro essas composições em sua forma original. Antes de qualquer releitura eletrônica, o público tem a oportunidade de conhecer a essência das músicas, suas melodias, letras e principalmente a mensagem que elas carregam. Isso fortalece a identidade do projeto e cria uma conexão mais profunda com quem escuta.
Para mim, Echoes from my Heart representa justamente isso: a capacidade de transformar vivências pessoais em algo universal. E participar da etapa final desse processo, ajudando a preparar essas músicas para chegarem ao público, foi uma experiência que considero muito significativa tanto profissionalmente quanto como amante da música.”