REVELAÇÃO | DJ VIC REIS: Do gospel e das divas pop ao topo do Tribal House

A pista de dança como templo, as pick-ups como extensão da alma e uma ascensão meteórica que redefiniu a cena do Tribal House no Norte do país. Com uma trajetória marcada por superação, forte pesquisa musical e uma identidade sonora inconfundível, a DJ Vic Reis se consagra como um dos nomes mais promissores e festejados da nova geração da música eletrônica brasileira.

Nesta entrevista exclusiva para a categoria de Revelação (com menos de cinco anos de dedicação oficial às pick-ups desde sua estreia profissional em 2022), conversamos com Vic sobre suas primeiras referências sonoras, o peso de ser pioneira e a cura através da música.

A música sempre esteve presente na sua vida desde a infância, primeiro através do gospel e, depois, pelas grandes divas pop. Como essas primeiras referências ajudaram a construir a artista que você é hoje?

O gospel foi minha primeira grande referência musical e teve um papel fundamental na construção da minha identidade artística. Desde criança, era apaixonada por cantoras como Cassiane e Aline Barros e cantava na igreja, sempre escolhendo músicas que emocionassem as pessoas. Até hoje, levo essa mesma intenção de transmitir emoção em cada set que faço.

Seu irmão teve um papel fundamental na sua descoberta musical, apresentando artistas, videoclipes e até a antiga MTV. Quando você olha para trás, o quanto ele influenciou a sua identidade artística?

Ele influenciou profundamente a artista e a pessoa que sou hoje, moldando meu gosto musical; do rock e pop às divas pop que toco até hoje nos meus sets! Além do meu estilo, que passou pelo emo e pela androginia, características que seguem marcantes na minha identidade como DJ.

Existe uma história muito especial sobre um discman encontrado por acaso e os CDs do Summer Eletro Hits. Em que momento você percebeu que a música eletrônica tinha conquistado definitivamente o seu coração?

Na pré-adolescência, encontrei um discman no lixo em perfeito estado. Pouco depois, meu irmão me presenteou com os primeiros CDs do Summer Eletro Hits, que se tornaram meus favoritos e despertaram minha paixão pela música eletrônica.

Aos 14 anos, você entrou pela primeira vez em uma pista de Tribal House e nunca mais saiu desse universo. O que aquele momento despertou em você?

Minha primeira vez em uma balada LGBTQIA+, a extinta Lux Club, foi libertador. Lá eu podia me vestir como gostava, usar maquiagem sem ser julgada e dançar ao som da batida perfeita e dos remixes das minhas músicas favoritas.

Sua trajetória também foi marcada por desafios pessoais, como sair de casa, iniciar sua transição e recomeçar a vida em outra cidade. De que forma a música e as pistas se tornaram um refúgio e uma fonte de força durante esse período?

O começo da minha transição de gênero foi bem difícil. Minha mãe demorou muito a aceitar e cheguei a ser expulsa de casa. Já não morando com ela, decidi ir para São Paulo em busca de realizar transições corporais para que minha aparência realmente se encontrasse com minha essência. Em São Paulo, longe da família e dos amigos, as festas de tribal sempre foram meu refúgio — o lugar onde fiz novas amizades, conheci alguns namorados rs, e onde comemorava as festas de fim de ano. Quantos Natais foram na Selection Ho Ho Ho!

Antes de assumir os decks, você viveu intensamente a cena Tribal House como frequentadora de festas icônicas. O quanto essa vivência influenciou a DJ que você se tornou?

Viver intensamente a cena tribal e festas icônicas de diferentes tipos me educou como DJ e apurou meu feeling. Aprendi a respeitar que cada festa tem sua própria sonoridade e entender o que funciona ou não em cada contexto. Antes de me tornar DJ, já era público e vivi a cena tribal antes e depois da pandemia, presenciando de perto o que funciona na pista. Por isso, minha experiência de pista vem muito antes de eu ser DJ.

Em 2022, já formada no Rio de Janeiro, você chamou atenção logo na sua primeira apresentação e, em poucos meses, já estava tocando em algumas das principais festas da cena. Como foi viver essa ascensão tão rápida?

Me formei em 2021 e, no mês de outubro na minha primeira festa oficial — um aniversário para cerca de 30 pessoas e minha segunda apresentação para público — já fui notada pelo Jorge Nascimento, dono da extinta Street Lapa. Ele me deu feedbacks que lembro até hoje e me convidou para tocar na sua boate, mas eu ainda não me sentia pronta. só aceitei tocar em 01/01/2022, quando foi minha estreia profissional na Street Lapa. Foi uma noite inesquecível e linda, com a casa lotada, meus amigos no front e uma energia surreal que eu jamais tinha vivido.

De volta a Belém, você se consolidou como um dos principais nomes do Tribal House no Pará, conquistando residência em grandes festas e sendo eleita a melhor DJ de Tribal House do estado em 2023. O que esse reconhecimento representa para a carreira da DJ Vic Reis?

Já ter sido considerada a melhor DJ de tribal do meu estado e também ser a primeira mulher trans DJ do gênero no estado, se destacar em um meio dominado por homens cis, significa que nós, pessoas trans, estamos vencendo sim! Que, com muito estudo, dedicação e talento, podemos ocupar todos os espaços!

Mesmo com uma carreira em constante crescimento, você nunca deixou de estudar e buscar aperfeiçoamento. O quanto a evolução técnica e profissional faz parte da artista que você quer ser?

Estou sempre me autoavaliando para melhorar minhas mixagens, buscando que fiquem cada vez mais imperceptíveis. Também procuro sempre trazer remixes exclusivos, bem construídos e harmônicos, pois quero ser reconhecida principalmente pela minha identidade sonora como DJ.

Você costuma dizer que a música já salvou a sua vida muitas vezes. Hoje, sendo um dos grandes destaques da nova geração do Tribal House, que legado Vic Reis deseja deixar para a cena e quais sonhos ainda quer realizar?

Ao voltar para minha cidade, passei por um período de depressão, e estar nas cabines era o único momento de felicidade, onde conseguia esquecer as dores. Com o tempo, elas passaram. Acredito firmemente que a música é cura e deve ser sempre leve, o meu sonho é ver a música superando o ego dentro da cena.