REVELAÇÃO | DJ CINDY: Da Baixada Fluminense para a Residência na Maior Pista do Rio

Das primeiras lembranças cantando no coral da igreja até comandar a cabine da Save, a maior boate pen bar LGBT+ do Rio de Janeiro, DJ Cindy construiu sua trajetória com coragem, identidade e muita pesquisa musical. Vinda de Nilópolis, na Baixada Fluminense, ela iniciou sua jornada em 2019 em festas drags independentes num galpão — um verdadeiro laboratório de resistência e liberdade criativa.

Dominando a arte do Open Format com uma versatilidade impressionante que transita entre o Pop e o Funk, Cindy transformou os medos do início da transição de gênero em combustível para se tornar a referência que não encontrava quando começou. Nomeada na categoria REVELAÇÃO do especial de Orgulho da Colors DJ Magazine, conversamos com ela sobre o peso de ocupar a pista mais cobiçada do estado, os bastidores de abrir shows para grandes estrelas como Pocah e a importância de dar luz ao corre real da Baixada.

Cindy, suas primeiras memórias com a música vêm da infância, cantando e dançando no coral da igreja. Como essa primeira escola musical te ajudou a entender o poder que a música tem de conectar pessoas e transformar ambientes antes mesmo de você sonhar com as picapes?

Minhas primeiras lembranças com a música vêm realmente da infância, cantando e participando do coral da igreja. Ali eu aprendi que a música vai muito além do entretenimento. Ela tem o poder de unir pessoas, despertar sentimentos e transformar ambientes. Antes mesmo de imaginar que um dia estaria nas CDJs, eu já entendia que a música era uma forma de expressão e de conexão. Acho que essa sensibilidade me acompanha até hoje em tudo que faço como DJ.

“…independentemente do tamanho do palco, o mais importante é a verdade que a gente transmite.”
A Baixada Fluminense é um polo gigante de cultura e talento, mas que infelizmente sofre com a falta de oportunidades. Como foi para você começar a sua trajetória em 2019, em festas drags independentes num galpão em Nilópolis? O que aquela atmosfera de liberdade e resistência te ensinou sobre o verdadeiro significado da arte?

Começar em 2019, em festas drags independentes num galpão em Nilópolis, foi uma experiência muito importante para a minha formação. Era um ambiente de liberdade, criatividade e muita resistência. Todo mundo estava ali movido pela paixão pela arte e pela vontade de criar espaços onde pudéssemos ser nós mesmos. Aquilo me ensinou que a arte tem um papel muito forte de acolher, representar e dar voz às pessoas. Foi ali que eu entendi que, independentemente do tamanho do palco, o mais importante é a verdade que a gente transmite.

Em que momento você percebeu que o formato Open Format — transitando pelo Pop e pelo Funk — era a linguagem perfeita para traduzir a sua personalidade e a energia que você queria trocar com o público?

Eu percebi isso aos poucos, observando a reação das pessoas e entendendo que eu não precisava me limitar a um único estilo. O Open Format me permitiu mostrar diferentes lados da minha personalidade, transitando entre o Pop, o Funk e outros ritmos de forma natural. Gosto de sentir a energia do público e construir uma experiência que faça as pessoas cantarem, dançarem e se divertirem. Acho que essa versatilidade acabou se tornando uma das minhas maiores marcas como DJ.

 
 
 
 
 
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A transição de gênero é um processo profundamente pessoal e corajoso. Você mencionou que teve medo de que as portas se fechassem pela falta de referências trans na cena de DJs. Onde você buscou forças para transformar esse medo em combustível para criar a sua própria identidade na cabine?

Acho que a minha maior força veio de dentro de mim. Sempre acreditei que, se eu não encontrava uma referência exatamente como eu queria, talvez eu pudesse me tornar essa referência para outras pessoas no futuro. Claro que o medo existia, principalmente por não enxergar muitas mulheres trans ocupando esse espaço na cena de DJs. Mas, ao mesmo tempo, eu era cercada por pessoas trans incríveis que, mesmo não sendo artistas, eram mulheres muito fortes, autênticas e corajosas. Elas enfrentavam a vida todos os dias sendo quem eram, e isso me inspirava muito. Ver essa força tão de perto me fez entender que eu também podia construir o meu caminho. Hoje eu vejo que toda essa insegurança acabou se transformando em combustível para criar a minha identidade, sem tentar me encaixar em um padrão, mas mostrando quem eu realmente sou.

 
 
 
 
 
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Hoje você é a única DJ residente da Save, a maior boate LGBT+ do Rio de Janeiro. Qual é o peso dessa responsabilidade e como é a sensação de olhar para trás e ver que você conquistou a cabine mais cobiçada do estado?

É uma responsabilidade muito grande, porque eu estou diretamente ligada ao entretenimento de milhares de pessoas que escolhem estar ali para viver uma experiência. Então, independentemente de como eu esteja me sentindo naquele dia, seja feliz, cansada, preocupada ou até passando pelas oscilações hormonais da transição, quando eu subo na cabine eu preciso entregar o meu melhor. A pista depende da minha energia, das minhas escolhas e da forma como eu conduzo a noite. Isso nunca foi uma obrigação para mim, porque eu faço esse trabalho com muito amor. Mas existem momentos em que o peso dessa responsabilidade realmente aparece, principalmente por ser uma pista enorme, cheia, e por saber que meu papel é manter aquela energia viva do início ao fim. Quando olho para trás e vejo tudo o que conquistei, sinto muito orgulho. Estar na cabine mais desejada do estado é a confirmação de que todo o esforço valeu a pena.

Na sua caminhada, você já abriu shows de gigantes como Melody, Urias, Ajuliacosta e Pocah. Como é a dinâmica de preparar a pista para grandes estrelas do cenário nacional e qual dessas apresentações foi a mais marcante para você até agora?

Existe todo um estudo antes de cada show. Eu procuro entender qual é o público daquela artista, quais músicas fazem sentido tocar, como preparar o clima da pista e até a forma como vou me comunicar com as pessoas durante o set. Tudo isso faz diferença para que o público entre na energia certa antes da atração principal subir ao palco.

Sem dúvida, a apresentação mais marcante foi a da Pocah. Eu sou fã dela desde pequena, então já era um momento muito especial para mim. Depois que ela terminou o show, eu voltei para a cabine e resolvi tocar uma música antiga dela como uma homenagem. De repente, ela saiu do camarim, voltou para o palco e começou a dançar comigo. Foi totalmente inesperado e muito emocionante. É uma lembrança que vou guardar para sempre.

“Essa indicação representa muito mais do que um reconhecimento profissional. Ela mostra que a nossa arte, a nossa dedicação e o nosso trabalho também merecem ser vistos e valorizados.”
Você disse uma frase linda: “Entendi que talvez eu pudesse me tornar a referência que eu mesma procurei um dia”. Como você recebe o carinho de outras pessoas trans que olham para você hoje no topo e enxergam que os sonhos delas também são possíveis?

É uma das partes mais bonitas da minha trajetória. Sempre que alguém trans me manda uma mensagem dizendo que começou a acreditar mais em si depois de conhecer a minha história, eu sinto que tudo valeu a pena. Porque, durante muito tempo, eu procurei alguém para me mostrar que era possível, e quase não encontrei. Então saber que hoje eu posso ocupar esse lugar na vida de outras pessoas é muito emocionante.

Eu sempre digo que eu não quero ser lembrada só como uma DJ trans. Eu quero ser lembrada como uma grande DJ que, por acaso, também é uma mulher trans. Mas, enquanto a minha história puder inspirar alguém a não desistir dos próprios sonhos, eu vou carregar esse papel com muito orgulho.

O Melhores do Ano 2026 da Colors DJ Magazine alcançou marcas históricas de engajamento por votar e celebrar a diversidade por amor à cena. O que significa para você ser nomeada na categoria DESTAQUE justamente nesta edição especial do Mês do Orgulho?

É uma honra enorme. Ser reconhecida já é muito especial, mas receber essa indicação justamente em uma edição que celebra o Mês do Orgulho torna tudo ainda mais simbólico. Eu sei o quanto foi difícil chegar até aqui e quantas barreiras pessoas LGBT+, principalmente pessoas trans, ainda enfrentam para ocupar espaços de destaque.

Essa indicação representa muito mais do que um reconhecimento profissional. Ela mostra que a nossa arte, a nossa dedicação e o nosso trabalho também merecem ser vistos e valorizados. Independente do resultado, estar entre os indicados já me faz sentir que estou no caminho certo.

 
 
 
 
 
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“Se a minha trajetória puder fazer uma única pessoa acreditar que ela também é capaz de conquistar o espaço que sonha, então eu já sinto que cumpri uma missão muito maior do que apenas tocar música.”
Diante de um mercado que muitas vezes se apega a polêmicas vazias na internet, como você avalia a importância de uma plataforma que abre espaço para contar a verdade e o “corre” real de quem vem da Baixada Fluminense?

Eu acho extremamente importante, porque nem sempre as pessoas conhecem o que existe por trás de uma carreira. Elas veem o palco, os vídeos e as conquistas, mas não enxergam os anos de estudo, os “nãos”, os sacrifícios e todo o esforço para chegar até ali.

Eu venho da Baixada Fluminense, e quem é de lá sabe que muitas vezes a gente precisa trabalhar o dobro para conseguir ser visto. Então, quando existe um espaço que valoriza a nossa história e mostra o caminho real, sem sensacionalismo e sem viver de polêmicas, isso fortalece toda a cena e inspira outras pessoas que também estão começando.

Para fechar com chave de ouro, completando a sua própria visão: por que a Rafaella, através da DJ Cindy, merece que o Brasil inteiro conheça a sua história de resistência e triunfo na música neste ano de 2026?

Porque a minha história mostra que talento e dedicação podem abrir caminho onde antes pareciam existir apenas portas fechadas. Eu enfrentei muitos medos, muitas inseguranças e muitos desafios para chegar até aqui, mas nunca deixei que eles fossem maiores do que os meus sonhos.

A DJ Cindy é a artista que sobe no palco, mas existe uma Rafaella por trás que estudou, trabalhou muito, chorou, caiu e levantou inúmeras vezes para construir tudo isso. Se a minha trajetória puder fazer uma única pessoa acreditar que ela também é capaz de conquistar o espaço que sonha, então eu já sinto que cumpri uma missão muito maior do que apenas tocar música. Acredito que a arte também existe para transformar vidas, e espero continuar fazendo isso através da música e da minha história.