REVELAÇÃO | DJ BORGY: A Vanguarda de Bangu e a Revelação de 2026

Vinda de Bangu, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, e com pouco mais de um ano e meio de estrada nas picapes, Borgy já se consolidou como um dos nomes mais instigantes e potentes da nova cena eletrônica brasileira. Transitando pelo Open Format com uma habilidade ímpar de costurar o funk carioca a batidas eletrônicas pesadas, ela une referências que vão da vanguarda pop de Björk à liberdade de corpo e arte de Lacraia.

Além de comandar as pistas, Borgy também assina a produção cultural das festas Paixão e Pulso, provando que sua leitura artística vai muito além da controladora. Selecionada como um dos grandes destaques da categoria REVELAÇÃO no especial de Orgulho da Colors DJ Magazine, conversamos com ela sobre Bangu, identidade, axé, transsexualidade e o corre real que transforma os subúrbios do Rio em polos de vanguarda cultural.

Borgy, você cresceu em Bangu, na Zona Oeste do Rio, e desde cedo teve contato com sonoridades não convencionais. Como foi crescer em um bairro periférico tão rico culturalmente e de que forma referências tão distintas quanto Björk e Lacraia se uniram na sua cabeça para formar sua base artística?

Não vou mentir que, por mais que façamos uma grande glamourização em torno de ser uma pessoa favelada, foi bem difícil e ainda é até hoje. O audiovisual foi meu maior refúgio como pessoa queer e foi onde pude me encontrar e me sentir abraçada pela “estranheza”. Sobre minhas refs, isso sempre deixa uma pulga atrás da cabeça das pessoas, mas ver uma figura como a Lacraia tendo sua liberdade artística pelo seu corpo e arte foi um dos meus principais gás para aceitar minha identidade. E a Björk mora no meu coração por ter sido minha primeira “diva pop”; lembro até hoje de assistir ao filme Sucker Punch do Zack Snyder e ficar obcecada na cena em que Army of Me toca.

Misturar a força do Funk carioca com batidas eletrônicas pesadas é a sua marca registrada. Como você percebeu que o Open Format era o terreno ideal para fundir essas suas origens urbanas com o seu gosto pelo alternativo?

Sempre tive uma visão muito doida da música. Sempre pensei: “E se eu misturar esse forró com esse house?”. Sou simplesmente apaixonada isso em mim, porque sinto que faz um paralelo único com a minha identidade de gênero.

Sua trajetória como DJ tem 1 ano e meio, mas o impacto já é gigante. Qual foi o ponto de virada na sua vida onde você percebeu que a música não era apenas um hobby, mas sim o canal onde sua vivência como pessoa não binária e trans encontrava sua verdadeira voz?

Foi sem dúvidas na primeira edição da minha produção PULSO (@pulsofesta). Ver o bar delas LOTADO a ponto de precisarmos estender o evento foi algo que me tocou muito e me emociona até hoje. Produzir algo com foco nos nossos corpos significa demais pra minha arte.

Além de comandar as picapes, você também é produtor(a) cultural à frente das festas Paixão e Pulso. Como o olhar de quem organiza o evento e cria o conceito da noite ajuda você na hora de ler a pista quando assume a controladora?

Vou ser sincera que isso me atrapalha mais do que ajuda, hein! Tenho uma mania terrível de me meter em tudo e acabo dando opiniões onde eu deveria apenas ir tocar e ficar quieta.

Você sintetizou os tópicos principais da sua história em três palavras potentes: Identidade, Axé e Transsexualidade. De que maneira a energia e a filosofia do Axé se manifestam no seu cotidiano e na condução dos seus sets?

Nos meus sets, essa energia aparece na construção de narrativas sonoras que celebram a diversidade, a liberdade e o encontro entre corpos e histórias. Gosto de pensar a pista como um espaço de troca, onde cada batida pode despertar memórias, afetos e sensações coletivas. Como uma pessoa trans, também carrego para a música a potência da transformação, da reinvenção e da resistência, valores que dialogam profundamente com a minha compreensão do Axé.

Por isso, quando falo de Identidade, Axé e Transsexualidade, não vejo esses elementos separados. Eles atravessam minha vida e minha arte de forma inseparável, guiando minhas escolhas, minha estética e a maneira como me conecto com o público.

No início da carreira, o maior desafio é o reconhecimento e a conquista de espaço. Enfrentar o mercado sendo uma pessoa trans, gay e não binária trouxe barreiras adicionais ou serviu como a sua maior armadura de autenticidade?

Não vou mentir que eu sou tão acostumada a frequentar espaços onde meu corpo é visto e bem-vindo que às vezes eu ESQUEÇO que posso ser invalidada por isso. Mas sim, é uma barreira babado e já perdi diversas gigs não só pela minha identidade, mas também pelos meus princípios.

Você escreveu uma frase muito forte: “A música abriu portas para minha identidade, e com ela, abro portas para outres”. Qual o sentimento de saber que, mesmo com pouco tempo de estrada, o seu trabalho já serve de espelho e acolhimento para outras pessoas da comunidade?

É babado! Lembro até hoje de quando duas monas me pararam após um dia em que peguei duas gigs, falaram super bem do meu trabalho e disseram que se identificam com essa minha LOUCURA de misturar diversos estilos, que amam isso e não veem muito disso na cena. Adoro como isso reflete não só no meu trabalho como DJ, mas também como produtora.

O Melhores do Ano da Colors DJ Magazine está celebrando a diversidade por amor à cena, de forma totalmente independente. O que representa para você ser um dos nomes selecionados para a categoria REVELAÇÃO no Mês do Orgulho?

Representa que o céu é o limite. Essas conquistas sempre me deixam bastante ansiosa e curiosa para ver até onde meu trabalho pode me levar.

Vindo da Zona Oeste, um lugar pulsante mas muitas vezes invisibilizado pela grande mídia, qual a importância de ver a Colors usando sua plataforma para dar voz ao corre real que acontece nos subúrbios do Rio de Janeiro?

Para mim, ocupar esse espaço também é uma forma de mostrar que nossas histórias não são exceções. Somos muitos artistas produzindo arte de qualidade, construindo cenas, formando comunidades e transformando nossos territórios através da cultura. Quando uma plataforma como a Colors olha para esses lugares, ela não está apenas destacando artistas individuais, mas reconhecendo a riqueza cultural que nasce e se desenvolve fora do centro das atenções.

Para encerrar o nosso papo, Borgy: por que a sua caminhada, construída com tanta versatilidade e coragem em tão pouco tempo, merece ser celebrada pelo público do Brasil inteiro neste ano de 2026?

Acredito que minha caminhada merece ser celebrada não apenas pelo que conquistei em tão pouco tempo, mas pelo que ela representa. Sou uma artista trans, vinda da Zona Oeste do Rio, que construiu seu espaço apostando na autenticidade, na pesquisa musical e na coragem de existir sem abrir mão da própria identidade.

Minha trajetória é marcada pela versatilidade porque eu não acredito em limites para a criação. Transito entre referências, linguagens e experiências diferentes, sempre buscando construir pontes entre a música, a cultura e as histórias que carrego comigo. E talvez seja justamente essa disposição para me reinventar que tenha me trazido até aqui.