ENTREVISTA | DJ THONN: Superação histórica na Parada do Orgulho de São Paulo marca maturidade artística

Com um set composto por 90% de versões exclusivas, o artista transformou clássicos de Cazuza, Gal Costa e Cássia Eller em hinos de pista para milhões de pessoas na Avenida Paulista.

A Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo é conhecida por ser o maior evento de visibilidade da comunidade no mundo, mas para o DJ Thonn, a edição de 2026 representou também o ápice de sua maturidade artística. Comandando o som para uma multidão estimada em milhões de pessoas, Thonn quebrou barreiras ao levar o Tribal House para o coração da engrenagem pop da avenida.

Apostando em uma pesquisa cirúrgica e em um repertório quase inteiramente exclusivo, o DJ costurou a nostalgia da MPB com o peso das pistas eletrônicas. O resultado foi uma jornada altamente emotiva, celebrada tanto por clubbers veteranos quanto pelo público geral.

Confira agora a entrevista exclusiva sobre os bastidores dessa apresentação histórica:

Thonn, cerca de 90% do repertório desse set foi composto por mashups, remixes e versões exclusivas. Como foi o processo de estúdio para transformar clássicos de Cazuza, Gal Costa e Cássia Eller em tracks potentes de Tribal House sem perder a alma das composições originais?

DJ Thonn: Foi um trabalho muito intenso. Eu e meus produtores passamos meses pesquisando músicas, referências e possibilidades de arranjos. O maior desafio era transformar clássicos que fazem parte da memória afetiva das pessoas em algo que funcionasse dentro da minha identidade musical, mas sem perder a essência original. Em nenhum momento a ideia foi simplesmente remixar por remixar. A preocupação central sempre foi preservar a emoção que a obra carrega. Quando alguém ouve Cazuza, Gal Costa ou Cássia Eller, existe uma história pessoal e coletiva ali. Cada mashup foi desenhado para despertar uma sensação específica e encontrar o equilíbrio exato entre a nostalgia e a energia da pista.

O Tribal House é a sua essência, mas a Parada reúne milhões de pessoas que, em grande parte, nunca pisaram em um club do gênero. Qual foi o maior desafio técnico na hora de calibrar os elementos do set para torná-lo magnético para uma multidão tão diversa?

DJ Thonn: O maior desafio foi justamente fazer o Tribal House conversar com todo mundo. Eu sabia que grande parte das pessoas presentes não frequentava clubes de música eletrônica e talvez nunca tivesse ouvido um set tribal do início ao fim. Então, eu precisava encontrar uma linguagem que fosse perfeitamente acessível sem diluir a minha identidade de cabine. Por isso, escolhi músicas que já fazem parte da vida das pessoas. Quando alguém reconhece um vocal marcante do Cazuza, da Gal Costa ou da Anitta, cria-se uma conexão instantânea. A partir dali, com o público desarmado, eu conseguia levá-los para dentro do meu universo. Foi quase como convidar milhões de pessoas para conhecerem o Tribal House através de portas que já moravam no coração delas.

Unir no mesmo ecossistema musical a MPB de Ana Carolina e Lulu Santos com o funk e o pop de Anitta e Pedro Sampaio exige uma leitura de pista cirúrgica. Como você organizou a progressão harmônica desse set?

DJ Thonn: Pensei no set como uma história linear. Cada música tinha uma função emocional muito bem definida dentro da apresentação. A ideia foi criar uma jornada que despertasse lembranças, celebração e conexão de forma crescente, fazendo com que todas as transições fluíssem de maneira natural para quem estava na rua dançando.

O figurino sempre foi uma extensão da sua identidade. Para a avenida, você apresentou uma estética futurista com penas artificiais metalizadas. Como nasceu o conceito dessa armadura “cyber-tribal”?

DJ Thonn: O figurino foi pensado para representar diferentes energias através dos símbolos dos chakras, reforçando a mensagem de diversidade, conexão e liberdade que a Parada transmite. Um ponto importante: fiz questão de utilizar apenas penas artificiais, porque sou vegetariano e acredito que é totalmente possível criar algo impactante na moda sem utilizar materiais de origem animal. Os elementos metalizados e futuristas completam a identidade do DJ Thonn, unindo espiritualidade, tecnologia e expressão artística em um único visual. Eu mesmo assinei a criação desse look!

“Quando alguém reconhece um vocal marcante do Cazuza, da Gal Costa ou da Anitta, cria-se uma conexão instantânea. Foi quase como convidar milhões de pessoas para conhecerem o Tribal House através de músicas que já moravam no coração delas.” — DJ Thonn
Preparar um projeto dessa magnitude leva meses de testes. Conta para a gente um momento de bastidor ou de tensão que ninguém imagina que aconteceu antes de você subir no trio.

DJ Thonn: A maior tensão foi o impacto psicológico de perceber que tudo aquilo estava realmente acontecendo. Meses e meses de preparação com os produtores em estúdio se resumiram àqueles últimos minutos logo antes de subir no trio elétrico. Bateu aquele frio na barriga inevitável, mas, no segundo em que a música começou a rodar, toda a tensão se transformou em pura emoção.

Quando você disparou o primeiro acorde e viu aquela imensidão de pessoas na Avenida Paulista, como foi sentir o termômetro imediato da resposta do público?

DJ Thonn: Foi uma sensação difícil de explicar em palavras. Eu já tinha visto imagens da Parada inúmeras vezes na televisão e na internet, mas estar ali em cima comandando o som é completamente diferente. Quando olhei para a avenida inteiramente tomada de pessoas, senti uma mistura muito forte de gratidão, responsabilidade e emoção. A minha primeira reação foi pensar em todas as pessoas que acreditaram em mim e me apoiaram até eu chegar àquele momento. E quando percebi o público respondendo instantaneamente às primeiras músicas, cantando junto, dançando e se conectando com o set, eu entendi que todo o trabalho duro tinha valido a pena.

“A Parada me mostrou que vale a pena acreditar no processo. Saí daquele palco com a certeza de que estou exatamente onde deveria estar.” — DJ Thonn
Olhando para trás, para o Thonn do início da carreira que passava horas estudando música, o que esse set na Parada de São Paulo representa para a sua maturidade como artista neste ano de 2026?

DJ Thonn: Representa uma confirmação absoluta. Durante muito tempo eu estudei, pesquisei, investi em conhecimento, construí minha identidade e trabalhei silenciosamente nos bastidores para chegar até aqui. A Parada de São Paulo me mostrou que vale a pena ter paciência e acreditar no processo. Mais do que uma grande apresentação no currículo, aquele momento me deu clareza sobre quem eu sou como artista e sobre o tipo de legado que quero construir daqui para frente. Saí daquele palco com a certeza de que estou exatamente onde deveria estar.

Para fechar com chave de ouro: a gravação desse set icônico está disponível. Qual o recado que você deixa e o que espera que as pessoas sintam quando derem o ‘play’ nessa apresentação?

DJ Thonn: Espero que as pessoas sintam verdade. Esse set foi criado com muito carinho, dedicação e, acima de tudo, respeito por cada artista que foi homenageado nele. Mais do que apenas ouvir música eletrônica, eu gostaria que cada pessoa encontrasse uma lembrança afetiva, uma emoção ou um momento especial dentro dessas canções. E, principalmente, que o set sirva de trilha para que cada um se permita celebrar exatamente quem é. Se essa apresentação conseguir fazer alguém sorrir, se emocionar ou lembrar de algo importante na sua vida, então ela já cumpriu sua missão.