DESTAQUE | DJ GARU: Da pesquisa de pista ao topo dos festivais

A pista de dança é o seu habitat natural e as pick-ups são a extensão da sua identidade. Com uma trajetória marcada por muita pesquisa musical, passagens por grandes festivais como The Town e Rock The Mountain, e uma forte conexão com o Tribal House, o DJ Garu se consolidou como uma das presenças mais marcantes da cena eletrônica atual.

Nesta entrevista exclusiva para a categoria de Destaque (com mais de cinco anos dedicados às pick-ups desde sua profissionalização na curadoria eletrônica em 2011), conversamos com Garu sobre a construção de seus sets, a potência da música eletrônica como espaço de liberdade e o peso de comandar as pistas de dança pelo Brasil.

A sua relação com a música começou na infância com instrumentos e o violão, mas foi na música eletrônica e nos decks que você encontrou sua verdadeira vocação profissional. Como se deu essa transição até Garu chegar às pick-ups?

DJ GARU: Minha relação com a música começou muito cedo, experimentando sons e criando meu próprio universo lúdico. Aos 15 anos, ganhei um violão e passei a estudar teoria musical de forma autodidata, explorando a tecnologia e novas possibilidades de produção. Depois de passar por bandas de garagem — tocando guitarra, baixo, bateria e teclado —, meu interesse pela música eletrônica só crescia. Comecei a estudar aprofundadamente esse universo, toquei em festas e eventos, e foi ali que percebi que a música deixava de ser apenas um sonho para se tornar a minha profissão nos decks.

Antes de assumir o comando da pista como DJ, você passou por bandas, produziu beats e explorou diferentes vertentes sonoras. O que essa fase de experimentação representou para a construção do seu som nas pistas hoje?

DJ GARU: Acredito que o meu crescimento artístico é resultado de toda essa experimentação. Passei por diferentes funções em bandas e transitei por universos variados, desde o rock alternativo da Rua Chile, em Natal, até casas noturnas comerciais. Essa diversidade ampliou meu repertório e me colocou em contato com diferentes públicos. Na época, estudei a utilização de VS em apresentações ao vivo e comecei a produzir beats para artistas locais. Olhando para trás, percebo que cada fase e cada gênero musical contribuíram para formar o artista e o DJ que sou hoje. Essa liberdade para experimentar é o que guia meu trabalho nas pick-ups.

“Chegou um momento em que percebi que não fazia sentido separar a minha arte do meu ativismo. Quando subo ao palco para comandar o som, levo comigo tudo o que sou e a história em que acredito.” – DJ GARU.
Em 2011, você iniciou sua trajetória oficial como DJ e encontrou nos eventos da comunidade LGBTQIAPN+ um espaço de expressão através do som. Como essa conexão influenciou a sua pesquisa musical e sua postura nas pick-ups?

DJ GARU: Embora exista um mercado voltado para a comunidade, percebi cedo que esses espaços muitas vezes reproduziam divisões. À medida que ganhei visibilidade, entendi que minha trajetória artística estava profundamente ligada à representatividade transmasculina, um espaço historicamente solitário nas pick-ups. Eu comecei no tribal house sentindo a frustração de ver festas dominadas por padrões excludentes. Desde o início, meu objetivo foi usar o som para tornar esses ambientes mais acolhedores. A música sempre foi meu refúgio: sempre que atravesso momentos difíceis, volto para a produção musical ou para os decks para me reconectar comigo mesmo.

Sua caminhada te levou a grandes palcos, como a Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo e a Marcha do Orgulho Trans. Como o DJ Garu equilibra a energia técnica de um set de pista com a força política da sua presença nos palcos?

DJ GARU: Para mim, a música e a identidade caminham juntas. Desde criança, sempre fui muito movido por valores de coletividade e justiça, o que me levou a atuar em movimentos sociais e coletivos transmasculinos. Chegou um momento em que percebi que não fazia sentido separar a minha arte do meu ativismo. Quando subo ao palco para comandar o som, levo comigo tudo o que sou e a história em que acredito. Ocupar as pick-ups de grandes eventos também é uma forma de fazer política e ampliar as possibilidades para quem vem depois.

Você dividiu os palcos com grandes nomes e passou por festivais como The Town, Rock The Mountain, Psica, Nômade e Castro Festival. Qual foi o maior aprendizado que essas grandes pistas trouxeram para a sua carreira como DJ?

DJ GARU: A maior conquista foi realizar o sonho daquela criança que imaginava grandes palcos. A troca de energia com o público em festivais desse porte é surreal. Ver milhares de pessoas se conectando com a seleção musical e com a atmosfera que você criou na pista é a maior recompensa. Ao mesmo tempo, essas experiências me ensinaram a importância de abrir caminhos. O acesso à indústria da música ainda tem barreiras, e ver o DJ Garu carregando sua história no palco principal fortalece o sonho de muitas outras pessoas que se enxergam ali.

Em 2019, você aprofundou sua pesquisa na música eletrônica e construiu uma identidade sólida dentro do Tribal House. O que esse gênero oferece artisticamente nas pick-ups que fez Garu escolher esse caminho?

DJ GARU: Minha conexão com o Tribal House começou pela cultura ao redor dele, principalmente através das drag queens e da potência daquelas performances na pista. Quando passei a estudar o gênero mais aprofundadamente, percebi que ele vai muito além da batida: carrega intensidade, construção rítmica e uma conexão visceral com a liberdade de expressão. Escolher o Tribal House foi uma decisão artística e afetiva, encontrando a linguagem perfeita para unir minhas referências e agitar as pistas do Brasil.

“A música eletrônica cumpre um papel que vai muito além do entretenimento: ela une arte, identidade e celebração coletiva.” – DJ GARU.
Ser um dos primeiros homens trans a ocupar posições de destaque na cena Tribal House brasileira traz uma visibilidade imensa. Como você lida com essa representatividade no comando das pistas?

DJ GARU: Sinto muito orgulho de tudo o que venho construindo. Saber que hoje sou uma referência para outras pessoas trans na música eletrônica me dá vontade de ocupar espaços ainda maiores, porque quanto mais longe chego, mais pessoas percebem que esse caminho é possível. Ao mesmo tempo, sei que existe uma responsabilidade grande por ser um dos primeiros a ocupar esse espaço. Procuro encarar isso de forma positiva: se o meu trabalho na curadoria e nas pick-ups puder tornar o caminho menos difícil para quem vem depois, tudo faz ainda mais sentido.

Além dos sets nos clubes e festivais, você também usa a produção musical na criação de hinos de mobilização, como o da Marcha Transmasculina de São Paulo. Como o processo de estúdio se traduz na hora de incendiar a pista?

DJ GARU: A arte tem um poder enorme de sensibilizar. O processo de produzir uma faixa ou um hino coletivo envolve dias imersos no estúdio pensando na força que queremos exportar para o mundo. Ver a reação das pessoas cantando ou dançando a essa verdade nas ruas e nas pistas é uma conexão inexplicável. A música eletrônica cumpre um papel que vai muito além do entretenimento: ela une arte, identidade e celebração coletiva.

Saindo do Rio Grande do Norte para conquistar as pistas de todo o país, qual momento simboliza a maior virada da carreira do DJ Garu?

DJ GARU: Sair do Rio Grande do Norte foi a maior virada e uma das decisões mais difíceis da minha vida. Viver da arte exige escolhas dolorosas, e deixar minha terra em busca de um mercado centralizado no eixo Rio–São Paulo foi um desafio imenso. No entanto, entendi que não precisava deixar minhas origens para trás. Pelo contrário, carrego comigo minhas raízes nordestinas e tudo o que aprendi lá, refletindo isso na minha forma de tocar e de ocupar os palcos. Hoje, cada conquista na música eletrônica também pertence ao lugar de onde vim.

Olhando para toda essa trajetória de dedicação à música eletrônica, como Garu gostaria de ser lembrado pela cena e pelo público que dança ao som dos seus sets?

DJ GARU: Eu gostaria de ser lembrado como aquele DJ nordestino, arretado, alegre e cheio de energia que incendiava as pistas com música e liberdade. Mais do que os festivais em que toquei, espero que minha história seja lembrada por ter ajudado a abrir caminhos para que outras pessoas trans ocupem a música eletrônica sem medo. Quero que lembrem de mim não apenas como um artista das pick-ups, mas como alguém que levou felicidade para as pistas e fez da própria existência um convite para vivermos de forma livre e autêntica.