COLUNA | ALÉM DOS LINE-UPS: Johnny Bass e o Significado de Sucesso

Johnny Bass foi um dos produtores mais influentes do Tribal House brasileiro. Suas faixas atravessaram fronteiras e são tocadas mundo afora em países como Canadá, Chile, Estados Unidos e na Espanha, onde pude presenciar em festivais como o famoso Circuit de Barcelona. Com quase 100 músicas originais lançadas em plataformas oficiais e mais de um milhão e meio de ouvintes acumulados, cada produção carrega personalidade, técnica e uma energia capaz de conectar pessoas, consolidando-o como uma referência incontestável na cena.

Após sua partida, porém, uma narrativa curiosa começou a se formar. Entre homenagens emocionantes, algumas vozes questionaram seu “sucesso” ou reconhecimento. Em meio à comoção, debates sobre o quanto Johnny era valorizado enquanto vivo se tornaram visíveis, refletindo uma percepção que frequentemente confunde visibilidade com relevância.

Esse episódio nos convida a refletir sobre a própria cena de Tribal House e o conceito de sucesso. Embora esteja inserida na comunidade LGBTQIA+, a cena curiosamente também pode impor certos padrões sobre seus artistas e a forma como o público os percebe, critérios que vão desde características visuais, estilo de vida, círculo de amizades, status social e presença de palco até padrões físicos perceptíveis nas imagens usadas em flyers de festas.

Essa dinâmica, muitas vezes silenciosa, pode determinar quem recebe maior visibilidade sem necessariamente levar em conta o talento, a qualidade das produções musicais ou aquilo que permanece invisível aos olhos do público. É um contraste silencioso, uma comunidade que luta pela igualdade nas ruas, enquanto algumas normas implícitas se mantêm nos próprios espaços de celebração. E, nesse contexto complexo, Johnny Bass construía sua carreira há anos, conquistando respeito, relevância e reconhecimento pelo talento e pela força do seu trabalho.

ÍCONE | JOHNNY BASS: Com paciência e dedicação podemos atingir nossos objetivos

Talvez seja nesse ponto que apareça a verdadeira medida do sucesso. Afinal, o que significa realmente “ter sucesso”? É a presença virtual nas redes, baseada em números de curtidas e seguidores? É a exibição no palco, seguindo padrões estéticos que muitas vezes pouco dizem sobre talento? Ou será que o verdadeiro sucesso e realização pessoal estão em ver suas músicas tocando dezenas de vezes em um mesmo dia, em festas diferentes espalhadas por vários países, inspirando DJs e público em todas as partes do mundo?

No caso de Johnny Bass, ficou claro que sua relevância nunca se mediu por holofotes ou aparências, mas pelo alcance e impacto de sua obra, um legado que permanece e continuará a ecoar nas pistas.

Ainda nesse campo do “sucesso”, o que muitas vezes esquecemos é que ele é um conceito profundamente individual. Enquanto para alguns o sucesso está nos holofotes, nos números e nas multidões vibrando, para outros o sucesso pode ser justamente o oposto, ter tempo para si, para a família, preservar a saúde emocional e simplesmente fazer o que ama, sem se moldar a expectativas externas.

Muitas vezes, quando pensamos em sucesso, o que nos vem à cabeça é exatamente essa imagem pronta: curtidas, multidões, reconhecimento constante. Mas será que isso representa, de fato, o que cada um busca internamente? Cada artista tem sua trajetória, seus sonhos e suas prioridades. Por isso, projetar sobre o outro aquilo que consideramos como êxito é sempre injusto. O verdadeiro sucesso só pode ser medido por quem o vive, e talvez essa reflexão faça sentido não apenas para os artistas, mas também para quem está lendo estas linhas agora.

Para homenagear todo esse enorme legado de Johnny Bass, eu, Derek Flores, que escrevo este texto, preparei o set mix “Tributo a Johnny Bass”, reunindo uma hora de suas faixas autorais e colaborações que fizemos juntos. Uma seleção de músicas onde busquei captar sua essência e seu bom gosto. Em algumas conversas, falávamos em como ser elegante e ter um som forte, e, para mim, Johnny era um verdadeiro mestre nisso.

Escolhi faixas históricas que marcaram as pistas, como “Tornado” e seu remix de “Bate Leque”, e combinei com remixes mais recentes de grandes sucessos. Logo no início, um presente de Johnny que trabalhei para criar a introdução: o remix de “Tattoo”, da Loreen. Entre outras faixas, estão o remix oficial de “Acorda Menina”, de Ana Maria Braga, “Maniac” interpretada por Gloria Groove, “Sweet Nothing” da Florence and the Machine e “Unfaithful” da Rihanna. Também incluí versões de Johnny para artistas como Pitty, David Guetta, Khia, Christina Aguilera e Spice Girls.

O encerramento do set é marcado por um remix brilhante de Johnny: “Rewrite the Stars”, interpretada por Zac Efron e Zendaya no filme The Greatest Showman, que celebra a força de cada indivíduo mesmo diante das diferenças e do preconceito da sociedade. Assim como a obra cinematográfica nos lembra da importância de reconhecer, aceitar e valorizar o potencial de cada artista, este final transmite uma mensagem poética e eterna: se pudéssemos reescrever as estrelas, Johnny continuaria a brilhar aqui conosco.

Escute “Tributo a Johnny Bass” no SoundCloud ou no YouTube:

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