Crescendo em uma família com forte herança nos ritmos afrodiaspóricos e embalada pelo acervo de um pai colecionador de discos, Piheige desenvolveu um ouvido crítico muito antes de assumir os toca-discos em 2023. O ponto de virada veio durante um intercâmbio musical em navios de cruzeiro, onde o contato com culturas globais e festas livres de amarras comerciais acendeu a urgência de expressar sua própria visão sonora.
Transitando com maestria por vertentes como Garage, Speed, Dubstep, Jungle e Minimal, ela expandiu sua pesquisa do interior paulista para a capital, fundou o selo Bass Recordings e conquistou residência na rádio FUNCTION.FM (BH) com o programa Bass Radio. Nomeada na categoria REVELAÇÃO no especial de Orgulho da Colors DJ Magazine, conversamos com ela sobre os desafios técnicos da Bass Music, a importância da representatividade de mulheres e pessoas negras no underground e o poder transformador da música.
Piheige, você cresceu em uma família 80% negra e altamente ligada à música, além de ter um pai colecionador de discos. Como essa bagagem familiar estruturada em ritmos afrodiaspóricos e na música brasileira de raiz definiu a base do seu ouvido crítico antes mesmo de você assumir os toca-discos em 2023?
Sim, acredito que a música está ligada a mim desde a infância. Os diferentes ritmos afrodiaspóricos tocados em comemorações familiares construíram a minha narrativa através da mixagem. Trazer um lado mais eletrônico da África em diáspora e ritmos urbanos com certeza se deu por sempre ter tido contato com diversas vertentes musicais dentro do âmbito familiar.
A sua trajetória mudou de patamar em 2023 durante um intercâmbio musical trabalhando em um navio de cruzeiro, onde você teve contato com diversas culturas globais. O que você ouviu em alto-mar que funcionou como o estalo definitivo para você voltar ao Brasil e iniciar a sua carreira como DJ?
Dentro da vida a bordo, os DJs costumavam tocar músicas comerciais devido ao público e às restrições da própria empresa. Nas festas dos funcionários, costumávamos ouvir vertentes diferentes através dos sets que, nesse contexto, eram livres de alguma norma musical. DJs de diferentes nacionalidades traziam vertentes musicais de sua cultura, e isso me encantava. A maquinaria, o setup e a possibilidade de os DJs conseguirem dominar várias festas durante o dia tocavam em mim uma necessidade de expressar a minha visão musical. Fora do cruzeiro, quando estava turistando, ouvia diferentes sons de diferentes culturas, idiomas e regionalidades, o que expandiu meus ouvidos e horizontes a entender que existe muita cultura ao redor do mundo, e que há diversas possibilidades de construção de narrativas através dessas vertentes musicais.
“Por que acredito que meu trabalho possa tocar e incentivar aqueles que ressoam com a mesma pesquisa, e pode revelar novas visões de mixagem e narrativas sonoras que não costumam dar muita visibilidade vindo de nós, artistas mulheres, negras e LGBTQIA+.”
O seu som transita com muita propriedade pela Bass Music e ritmos urbanos, abraçando Garage, Speed, Dubstep, Jungle e quebrando até para o Minimal e o Deep Techno. Para você, qual é o maior desafio técnico na hora de misturar estéticas de BPMs e texturas tão diferentes para criar um set que seja imersivo e faça sentido do início ao fim?
Para mim, o maior desafio é conciliar tons, encaixar músicas para que não destoe durante as transições. Porém, sempre misturei vertentes da bass desde o início de minha carreira. Com o tempo e a prática, fica tudo mais fácil. Hoje em dia, creio que consigo criar atmosferas imersivas e contínuas através delas.
Você representa o interior de São Paulo, mas já expandiu sua sonoridade para a capital e dividiu o line-up com grandes nomes da cena eletrônica nacional. Como você avalia a força e a recepção da cultura Bass e do underground fora do grande eixo metropolitano de SP?
A bass music tem tomado grande proporção na cena atual, principalmente na capital. Porém, ainda assim, é muito dominada por homens cis normativos. Ainda sinto a necessidade de ver mais mulheres, pessoas trans e queers expandindo essa cultura — quem se destaca é quem se encaixa nesses recortes. E fora da capital, acredito que a bass vem sutilmente tomando espaços. Vejo bastante coletivos fora do eixo paulista que fomentam a cultura bass, mas ainda sinto que há uma certa restrição em grandes festivais em bookar artistas com essas vertentes, visando que o que mais se destaca e engaja hoje em dia no Brasil é o funk.
Em 2025, você fundou a sua própria label, a Bass Recordings, e conquistou um espaço de destaque como residente na rádio FUNCTION.FM (BH) com o programa Bass Radio. Como tem sido a experiência de gerenciar a sua própria marca e usar o espaço do rádio mensal para fomentar e dar palco a novos produtores independentes?
A Bass surgiu de maneira despretensiosa, sem grandes expectativas, a partir de uma necessidade minha de fomentar a cultura bass e me conectar com artistas que consumo e admiro. Tem sido uma experiência construtiva, ainda sem grandes definições, mas que a partir dela muita coisa em minha carreira mudou. Através desses quase dois anos de label, hoje tenho projetos e planos mais concretos que pretendo executar em breve, além de continuar com a residência na Function, trazendo artistas LGBTQIA+, mulheres e pessoas ao redor do Brasil e do mundo.
A Bass é um coletivo para além do artístico, é político, pois acredito que a música tem o poder de moldar estruturas sociais e mudar narrativas daqueles que são menos favorecidos pelo sistema.
Você frequenta e fomenta as pistas da cena underground paulista desde 2016. Como a sua visão de pista como clubber por tantos anos influenciou a forma como você comanda a cabine hoje, sabendo exatamente o que o público precisa sentir na pista?
A maneira com que me apresento nos meus shows é exatamente a visão que eu buscava ver da pista: saber ler o público, criar drops que captam a atenção e grooves que criam narrativas imersivas. Dentre todos esses anos de pista, a gente acaba percebendo o que fazer, o que não fazer, como se portar e se apresentar de uma maneira compromissada com a arte. Tendo em vista que, para além de um desejo pessoal, esse também é o meu trabalho, o que deve ser lido com seriedade e postura, sabendo que a maneira com que você se porta nas cabines pode te elevar ou te levar ao declínio.
“A minha personalidade mais pura. Costumo focar muito no setup e, por vezes, devaneio e esqueço da realidade fora. Gosto disso porque me conecto profundamente com as músicas e com aquilo que estou entregando no momento.”
Além de se aprofundar cada vez mais nas técnicas de mixagem, você já está ingressando no universo da produção musical das suas próprias tracks. O que podemos esperar da identidade sonora das primeiras produções autorais da Piheige que estão por vir?
Bastante bass e suas vertentes. Tenho me aprofundado naquilo que eu já pesquiso em minha carreira como DJ e criando tracks que expressem as emoções que eu quero sentir em pista, de maneira identitária e que não soe como mais do mesmo.
O Melhores do Ano 2026 da Colors DJ Magazine está celebrando as novas mentes que movimentam as pistas com autenticidade através da nossa Ação Especial do Mês do Orgulho. O que representa para você ser indicada na categoria REVELAÇÃO neste momento em que a sua label e a sua residência na rádio estão se consolidando?
Acredito que essa categoria revelação tem a capacidade de mostrar o meu trabalho àqueles que não conhecem, e aos que conhecem, continuarem me acompanhando. Te colocando em uma posição de destaque e, consequentemente, deixando aberto para aqueles que ressoarem com a minha imagem e pesquisa.
Você escreveu que a música funciona como uma extensão da sua personalidade e um combustível para te manter inspirada. Quando você está tocando um set pesado de Bass ou Jungle, qual pedaço da sua personalidade o público consegue enxergar de forma mais nítida através do som?
A minha personalidade mais pura. Costumo focar muito no setup e, por vezes, devaneio e esqueço da realidade fora. Gosto disso porque me conecto profundamente com as músicas e com aquilo que estou entregando no momento. E acredito que me sentir satisfeita nas cabines acaba atraindo seriedade para aqueles que consomem meu trabalho.
Para fechar com chave de ouro: complete a frase que define a sua trajetória para os leitores da Colors. Por que a jornada da Piheige — construída entre o interior, os mares do mundo, as ondas do rádio e as batidas graves do underground — merece o voto do público como Revelação de 2026?
Por que acredito que meu trabalho possa tocar e incentivar aqueles que ressoam com a mesma pesquisa, e pode revelar novas visões de mixagem e narrativas sonoras que não costumam dar muita visibilidade vindo de nós, artistas mulheres, negras e LGBTQIA+.