DESTAQUE | JOSEPH RODRIGUEZ DJ: Uma Década de Vanguarda, Rap e Vivência no Grajaú

Crescendo entre a influência da igreja, as gravações em rádio toca-fitas e a energia pulsante do Hip Hop e do Funk pelas ruas e praças, Joseph  Rodriguez DJ construiu uma das trajetórias mais autênticas da cena independente paulistana. Com mais de dez anos de estrada, ele transita com maestria entre a música experimental, o rap, a sonoplastia e a performance, unindo uma bagagem acadêmica a uma profunda raiz fincada no Grajaú, na Zona Sul de São Paulo.

Consagrado pelo hino geracional “Transmasculino do Guetto”, Joseph transformou as dores e as descobertas de sua transição em pura ferramenta de revolução, arte e acolhimento. Indicado na categoria DESTAQUE do especial de Orgulho da Colors DJ Magazine, conversamos com ele sobre os desafios de se manter fiel às suas origens, a força de construir legados e a importância de ser hoje a referência que não encontrou no passado.

Joseph, sua caminhada com a música começou na infância com a influência da igreja, mas ganhou as ruas do Grajaú através do Hip Hop e do Funk. Como foi essa transição para a cultura de rua e de que forma as praças da Zona Sul de SP se tornaram seu primeiro laboratório de playlists, composições e trocas de fitas e CDs?

Eu sinto, enquanto artista, e hoje entendo com mais maturidade que a música sempre habitou em mim de uma maneira muito natural já na infância, nas gravações de um rádio toca-fitas. Na época, tanto a igreja — por conta da minha família — quanto os cenários da quebrada, colando em várias quebradas por causa do Hip Hop, foram caminhos fundamentais que só fixaram ainda mais esse desejo. Porém, por conta de vários problemas sociais e da falta de acesso, eu ainda não via aquilo como um trabalho. Mas sou muito grato pela minha caminhada, por esses caminhos, pelas pessoas que fui conhecendo durante esse trajeto e pelos lugares por onde passei.

Na pré-adolescência, você aprendeu violão pelo projeto social Escola da Família e registrava suas primeiras letras em um rádio toca-fitas dentro de casa. Como a falta de recursos tecnológicos da época aguçou a sua criatividade para fazer música com o que tinha em mãos?

Eu até brinco que meu primeiro teclado foi um brinquedo com sons de animais e tal, rs. Eu sempre fui sonoro e sempre pensei na música para além de categorias, enxergando ritmo e poesia. Naquela época, eu já pensava em transições de uma música para outra e fazia de tudo um instrumento de percussão. Minha própria voz… eu lembro que ouvia a música e tentava fazer já uma segunda voz em outro tom. Então, a música para mim veio como uma manifestação e eu fazia porque curtia e brincava com o que tinha. Na época, eu ainda não tinha noção de valor de equipamento, mas já sabia que era caro e que eu não podia comprar. Mas também sempre fui muito sonhador.

Você afirma que, durante o seu processo de transição, a música foi um espaço vital de acolhimento e sobrevivência. Como a arte te deu o chão necessário para transformar dores, descobertas e afirmações íntimas em pura expressão criativa nas picapes?

Com toda a certeza. Embora várias vezes eu tenha pensado em desistir, eu sempre me vi: eu e a música. Sempre que alguma parada acontecia na minha vida, ou eu estava ouvindo um som, ou eu estava fazendo um som.

A consolidação da sua identidade artística veio com o lançamento do hino “Transmasculino do Guetto”. Qual o impacto que essa obra teve na sua carreira e como ela resume a sua essência como um artista híbrido, que canta, atua, discoteca e performa ao mesmo tempo?

Quando escrevi esse som em uma madrugada, gravei com um sentimento da época, com uma mente cansada e reflexiva sobre a minha existência. Tanto que usei o timbre da voz original, o que compõe uma estética suja que se refere ao meu processo existencial e aos meus irmãos semelhantes. Lancei o som sem pretensão nenhuma. Tanto que poucas pessoas repararam na capa do single, que tem o meu eu criança nesse trânsito.

Logo após, vi que os transmasculinos do gueto do mundo começaram a me marcar nesse som e a me mandar mensagens sobre sentir essa música e o que tudo nela habita. Comecei logo depois a criar Transmasculino do Guetto: A Performance Show com banda, que é onde levo um pouco disso com um convite no palco para que todas as pessoas tenham esse acesso de poder conhecer um pouco da minha arte.

Logo mais, passou um tempo e vi que Transmasculino do Guetto era mais do que uma música; era um estado real de vivência e, ao mesmo tempo, uma denúncia de quem sou: um corpo que, para além de recortes e território, tem personalidade, muita vida e vontade de realizar. É uma transmutação que também informa que transmasculinos existem nos guetos de todo o mundo, utilizando diversas formas e tecnologias para sobreviver, servindo de salto para outros trabalhos musicais que afirmam nossa existência em narrativas de prosperidade.

Você é um artista com mais de 10 anos de estrada independente na cena experimental, Hip Hop e Funk. Quais foram as maiores barreiras que você precisou quebrar para se manter firme e relevante no mercado de São Paulo durante toda essa década?

Para quem existe como eu, vindo da trajetória de vida que vim, todo dia eu quebro uma barreira em cada vontade de continuar artista. Trabalhando muito para investir cada vez mais, tanto energeticamente quanto financeiramente, na minha carreira, que é meu sonho e propósito de vida. Todos os dias eu quebro uma barreira, tendo que estudar e trabalhar diariamente por esse sonho.

https://www.instagram.com/p/CoAQFflLJFF/?igsh=MWIxYXUxMzRlbjI0Zg%3D%3D&igsi=MWIxYXUxMzRlbjI0Zg%3D%3D

Além de DJ e MC, você pesquisa música experimental, tecnologia e sonoplastia. Como essa mente acadêmica e aberta ao novo ajuda a diferenciar o set do Joseph Rodriguez DJ de tudo o que a gente costuma ouvir na noite paulistana?

Com toda a certeza. Principalmente quando tenho a oportunidade de mostrar algo mais autoral. Estou vivendo um momento de paixão com tocar e experimentar voz e instrumentos, e estou trabalhando em um novo momento para mostrar para geral essas novas pesquisas sonoras — aguardem…

Você escreveu uma reflexão muito profunda: “Hoje, busco ser justamente aquilo que eu gostaria de ter encontrado no passado”. Como é carregar a responsabilidade de ser a referência viva como homem transmasculino negro e periférico que você mesmo não teve quando começou?

Olha, é muito bom, porém é de grande responsabilidade também. Eu acredito que trabalhos musicais também são legados, e eu quero deixar memórias boas para os meus e para quem está vindo, contrariando as estatísticas do nosso país.

O prêmio Melhores do Ano 2026 da Colors DJ Magazine é feito de forma independente e por amor à diversidade. O que significa para você, com mais de dez anos de corre no gueto, ser indicado na categoria DESTAQUE nesta ação voltada para corpos trans no Mês do Orgulho?

Para mim, significa um momento muito especial. Fico imensamente agradecido, e isso firma meu compromisso ainda mais como motivação para continuar construindo minha carreira de forma autêntica e em celebração. É um momento muito especial para mim.

Estar na cena artística sem precisar apagar suas origens é uma bandeira que você defende intensamente. Como o território do Grajaú continua vivo e presente em cada batida e em cada performance que você assina hoje?

O Grajaú hoje é um polo cultural bem diverso, mas eu fico feliz demais por poder somar como artista e também inspirar outras pessoas a serem o que quiserem ser, realizando seus sonhos. Quando minhas apresentações são na quebrada, eu sinto esse propósito acontecendo de uma forma bem especial.

Para fechar com chave de ouro, Joseph, ecoando a sua própria verdade: por que a sua história de reinvenção diária, resistência e arte como ferramenta de existência merece ser ouvida pelo Brasil inteiro neste ano de 2026?

Porque a minha história tem muita trajetória e muita música. Porque a diversão, a dança e a poesia, usadas também como ferramenta de revolução, são o que acredito — e o que muita gente como eu também acredita.