ÍCONE | O legado de Robix

Foto de divulgação.

O mestre das pick ups deixou pra sempre uma marca na cena eletrônica carioca e influenciou a nova geração de DJs brasileiros de House Music.

Em maio de 2018, a cena LGBTQIA+ perdeu um dos seus maiores ícones. Com apenas 49 anos, dos quais 36 dedicados à música, Robson Carneiro (DJ Robix) foi um dos precursores da música eletrônica no Rio de Janeiro e no Brasil.

Muita gente não sabe, mas Robix era formado em ballet clássico e praticou até seus 15 anos. Se graduou em Educação Física, mas não atuou na área, pois gostava mesmo era de música. Um dos primeiros passos na carreira foi ser radialista na cidade onde nasceu, Campos dos Goytacazes, interior do Estado do Rio de Janeiro.

Já morando na capital, ele conquistou as pistas por onde passou, tornando seus sets momentos mágicos na vida de quem o escutava.

Foto de divulgação.

Com sua carreira consolidada, era considerado um dos melhores DJs de House do Brasil. O “Mestre das Pick Ups”, como era chamado. Conquistou por dois anos consecutivos (2011-2012), o prêmio de Melhor DJ do Ano, através da extinta RevistaS.

Sua sonoridade era considerada inovadora, enquanto a maioria dos DJs tinha medo de arriscar novas ideias, o mestre seguia inovando e trazendo novos conceitos para nossas pistas

Com a ROBIX WORLD TOUR, se apresentou em muitos países como Argentina, Chile, Peru, EUA e China. Na época era muito raro um brasileiro se apresentar fora do país. Robix juntamente com Mauro Mozart e Enrry Senna, foi um dos pioneiros nesse sentido.

Dividiu cabine com grandes nomes da cena mundial como ABEL RAMOS, CARLOS GALLARDO, CHRIS COX, ISAAC ESCALANTE, NACHO CHAPADO, OFFER NISSIM, PETER RAUHOFER, PHIL ROMANO, ROSABEL, THOMAS GOLD, YINON YAHEL, entre muitos outros.

Conquistou a residência da Festa B.I.T.C.H., um mega evento, que rolava em locais gigantescos como Parques de Diversão. Foi residente por dois anos da The Week Rio, assim que a casa inaugurou. Os outros residentes na época eram a DJ Ana Paula e o DJ Felipe Lira.

Depois foi residente por seis anos de um dos clubes mais icônicos do RJ: o Cine Ideal, até seu fechamento em 2013.

Por tradição, ele sempre fechava a pista, assumindo a cabine das seis da manhã, até encerrar.

Na época, praticamente não existiam after parties na cidade maravilhosa, então o after era ali mesmo. Por muitas vezes, o som era desligado quase meio-dia, com o sol já transbordando a imensa claraboia de vidro que havia no teto do pistão.

O DJ e Produtor E-thunder (Igor Tamegão), veio em 2010 de Belém para o Rio para ser residente do Cine Ideal. Robix o acolheu de braços abertos em sua casa, onde acabou morando por quase um ano e meio.

“Era um apartamento mínimo em Copacabana. Robson foi praticamente um pai pra mim. Quem teve a oportunidade de conviver com ele ganhou um anjo da guarda pro resto da vida: ele dava conselhos, abria nossos olhos, ensinava tudo sobre a vida. Mas era genioso também. Detestava ser acordado cedo! Eu sou hiperativo, então quase todo dia acabava o acordando sem querer. A vontade dele era me jogar pela janela (risos)! Quanto ao Robix DJ, eu falo sempre: não se fazem mais Robix, não se ensina a ser Robix, só ele nasceu daquele jeito.
Completamente apaixonado por música, um profissional inigualável. Era lindo ver ele tocar, ninguém fazia igual. Ele deixou seu legado. Quem viveu essa época, não tem uma noite que tenha saído de uma pista dele e falado: nossa, que noite. Eu morro todo dia de saudades dele. Horrores.”
, conta E-thunder.

Com o fechamento da The Week Rio e do Cine Ideal, a noite carioca viveu um hiato, sem nenhum grande Club aberto. Durante esse tempo, surgiram algumas festas semanais e Robix foi residente das principais: Let’s Go, All Right e Lob. Foi residente do selo JOY, desde a sua primeira edição, até sua despedida; e também residente mensal do The Pub, em Goiânia, da Base Lounge em Campinas.

Robix e Marcel Clair (esposo e manager).

Marcel Clair, com quem foi casado por 11 anos, também era seu manager e acabou virando DJ também.

Foram 11 anos e 02 meses juntos, de muito amor, respeito, carinho, cumplicidade, amizade, companheirismo e aprendizado, um ajudando o outro, até a sua partida.
Além de marido, eu era seu Manager…
Eu gostava mais de ficar no backstage, cuidando da agenda, contratos, logística e tudo que envolvia o DJ Robix.
Muitos amigos falavam: “Cara, você tem o melhor professor e DJ, pede ele pra te ensinar”, aí eu falava: “Nada, não gosto, prefiro ser Manager”.


Eu sempre gostei de música e isso já é um grande passo! Sempre tive noção de tempo, batidas e tal, e isso me ajudou!
Um belo dia, eu falei pra ele:”Você me ensina?”, ele falou: “Claro”, e aí foi. Comecei brincando em casa! Robix foi me ensinando aos poucos, uma verdadeira escola, e sempre me falava: “Vai com calma, uma coisa de cada vez”, pois a gente já quer chegar aprendendo tudo, mas não adianta, temos que ter paciência e irmos devagar, pois o mundo da discotecagem é enorme e eu digo que aprendi 1% de tudo que o Robix sabia, pois ele sim, era um grande DJ e um excelente profissional! Era um professor muito rígido, não dava mole não (rs).

Marcel contou também algumas histórias interessantes que presenciou com o mestre:

“Uma vez Robix tocou numa festa agropecuária em Itaperuna-RJ, logo depois de uma banda de Rock conhecida nacionalmente, e tinham mais de 30.000 pessoas pelo evento. Ver toda essa gente, de todos as classes e tribos curtindo e dançando ao som do meu marido e DJ, simplesmente foi demais.

Festa Itaperuna – 2010

Numa outra vez, na Jukebox de Halloween no Vivo Rio, ele deixou sua intro no ponto, aí um dos produtores da festa apertou o play e Robix entrou com um sobretudo totalmente disfarçado e a galera achando que era parte da performance dos dançarinos, num determinado momento, tirou o sobretudo e revelou-se, fazendo todo o público ovaciona-lo com aquele ar de surpresa e felicidade, daí foi só alegria!

Uma história engraçada, foi quando tocou na festa Let´s Go (na qual era residente), que inicialmente era toda sexta no antigo Dito e Feito-RJ! No final da apresentação, de manhã já, a galera queria que Robix continuasse a tocar, aí o produtor havia brincado dizendo quem iria pagar o cachê pra ele tocar mais, daí, começaram a jogar dinheiro no palco, foi estranho e ao mesmo tempo engraçado!”

Já o DJ carioca Alex Lisboa lembra com carinho de um B2B histórico na Festa Set Me Free, que acontece sempre em Ubá-MG: ” Foi uma aula de mixagens e técnicas. Hoje sou o que sou por causa dele. Robix é uma das minhas maiores referências musicais”.

Uma das melhores amigas de Robson era a DJ Laurize (Goiânia), que também deu um depoimento.

“Falar do amado irmão Robix é fácil e ao mesmo tempo difícil.
Difícil por não tê-lo mais com a gente, não ter com quem dividir as conquistas e vitórias, não ter a quem recorrer quando precisa-se de alguma informação sobre qualquer música.
Fácil mesmo é falar de suas inúmeras qualidades. O cara era amado por todos, de um coração gigante. Assim como foi comigo, ajudou muitos DJs, não só em início de carreira, mas sempre que alguém o procurava para um conselho ou uma informação valiosa. Ele não tinha nenhum tipo de pudor em dividir seus conhecimentos (que não eram poucos) e sempre pensava no próximo.
Sou grata a Deus por me permitir, por mais de 10 anos, conviver com esse pequeno grande homem. O que me resta agora é saudade e um legado gigantesco de tudo que aprendi com o baixinho.”

Um fato que ocorre infelizmente com DJs com décadas de carreira, é que em dado certo momento eles veem seu público envelhecer, e não conseguem mais se conectar com as gerações mais novas, passando a viver da fama acumulada.

Fotos de divulgação.

Robix passou longe disso. Os mais próximos brincavam que ele era capaz de tocar até em aniversário de criança, batizado, velório, em qualquer lugar.

Fosse num after, noite, pool party, evento grande ou pequeno, ele estava lá, fazendo um set incrivelmente adequado e perfeito ao horário, público e local. Era um coringa. Onde quer que estivesse, salvava a noite, sempre com a mesma humildade, alegria, dedicação.

Com certeza, uma das razões para sua carreira ter sido tão longeva e bem sucedida.
A quem era mais próximo, que Robix carinhosamente chamava de “irmão”, ficou a saudade.
Aos demais profissionais, ficou o exemplo de ética, humildade, bondade e profissionalismo.
Ao público, ficou a magia de tempos áureos da noite carioca, que não voltam mais.

Robix deixou seu legado, e será sempre lembrado por nós.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: