REVELAÇÃO | SAMMY DREAMS: A Arquiteta de Texturas e Memórias

Da Boiler Room ao EP AESTUARIUM: como a artista baiana funde Afrobeat, Techno e ritmos latinos em uma experiência sensorial de cura.

A ascensão de Sammy Dreams é um manifesto de identidade e escuta sensível. Nesta edição da Colors DJ Magazine, exploramos a trajetória da artista de Salvador que transformou o encantamento infantil por ruídos e o ritmo dos boleros de sua avó em uma assinatura sonora única. O texto percorre sua evolução de ouvinte curiosa à protagonista de um dos sets mais comentados da Boiler Room Brasil, revelando como ela utiliza o Techno e o House Latino para construir pontes entre o Nordeste e o Sudeste, desafiando estereótipos e propondo uma nova forma de sentir a pista.

Com apenas três anos de estrada e passagens por palcos icônicos como Batekoo e Sangra Muta, Sammy é uma mestre em transitar por gêneros distintos sem perder sua digital. Sua identidade ferve em um caldeirão de Afrobeat, Guaracha e Funk, onde metais rasgados e graves profundos criam uma atmosfera hipnótica. Mais do que uma DJ, Sammy é uma pesquisadora que traduz a riqueza afrodiaspórica da Bahia para o contexto eletrônico, produzindo as próprias ferramentas de pista — como os hits “Cuato” e “Flama” — para garantir que sua mensagem de pertencimento e conexão interior seja entregue em cada frequência.

A preparação emocional para o divisor de águas que foi a Boiler Room, os bastidores da criação do EP AESTUARIUM e a luta por uma cena nacional mais horizontal entre as regiões do país são os destaques desta conversa profunda. Sammy revela como equilibra a introspecção do Techno com a explosão latina e explica por que enxerga seus sets como espaços de refúgio. Confira agora o nosso conteúdo de REVELAÇÃO completo e entenda por que a “experiência Dreams” está redefinindo os limites da música eletrônica brasileira.

SAMMY DREAMS por @ehbessie
Sammy, sua relação com o som começou na infância, através de um encantamento por texturas e ruídos. Como essa “escuta sensível” se reflete hoje na construção dos seus sets?

Cresci com minha avó, que escutava muito bolero. Aqueles ritmos percussivos com toques de sintetizadores rasgados sempre me fizeram prestar atenção nas camadas da música. Hoje isso aparece diretamente nos meus sets. Me coloco no lugar de quem está na pista, de olhos fechados, sendo atravessado pelo som. Meu objetivo não é só fazer dançar, mas provocar memórias, sentimentos profundos e criar uma experiência sensorial onde a música realmente pode ser sentida.

Você começou na cena underground como ouvinte. Qual foi o momento na pista que te deu o “estalo” de que você deveria criar o seu próprio universo sonoro?

Frequentando festas eletrônicas em Salvador, percebi que não era sobre faltar algo na cena, mas sobre a necessidade de propor uma nova experiência. Foi aí que comecei a pesquisar house latino misturado com techno e outros ritmos, entendendo que eu poderia contribuir criando um som que ainda não estava sendo explorado da forma que eu imaginava.

SAMMY DREAMS por @alexthyago
Sua paleta sonora funde Afrobeat, Guaracha, Techno e Funk. Como você mantém uma identidade reconhecível transitando por gêneros tão distintos?

Minha identidade vem justamente da mistura. Com o tempo, o público passou a reconhecer certos elementos: o bass, o kick, os metais como parte do meu toque. Gosto de surpreender, trazendo ritmos que não costumam aparecer juntos, às vezes apenas em um detalhe ou em uma virada, mas que fazem quem está na pista entender que aquele som é meu.

Sua apresentação na Boiler Room Salvador já soma milhares de views. Como foi a preparação emocional e qual foi a maior mudança após aquela noite?

Receber o convite foi um choque. A preparação foi intensa: revisitei músicas que produzi e me concentrei em construir um set que representasse quem eu sou. No palco, eu sabia exatamente o que precisava ser feito, mas estava nervosa. Tocar na minha cidade ajudou a respirar fundo. Depois que foi ao ar, entendi que precisava sustentar tudo o que havia construído. Vieram oito meses de turnê pelo Sudeste e ver meu nome nos flyers confirmou que aquele momento redefiniu minha trajetória.

Como tem sido a experiência de levar a vibe da Bahia para palcos tão diversos como Sangra Muta e Batekoo?

A Bahia é um território de diversidade sonora. Antes de cada gig, penso em como minha cidade pode ser referenciada: a percussão, o axé e nossa energia de acolhimento. Levo isso para o palco como forma de mostrar que a Bahia vai muito além dos estereótipos. Existe uma riqueza afrodiaspórica profunda e meu som traduz isso para diferentes pistas do Brasil.

Como o seu trabalho como produtora musical conversa com a Sammy DJ? As pistas influenciam o estúdio?

Conversam totalmente. Comecei a produzir justamente para criar um diferencial nos meus sets. Sempre que vou a uma festa, fico imaginando que toque eu daria naquela música, já pensando em um remix ou edit. Produzir e tocar são partes do mesmo processo; tudo nasce dessa experiência coletiva da pista.

O que você está preparando em termos de sonoridade para o seu primeiro EP, AESTUARIUM?

Durante os meses em São Paulo, meu pensamento sonoro mudou bastante. Explorei como ritmos baianos — como pagode, axé, ijexá e arrocha — podem dialogar com a música eletrônica. O EP AESTUARIUM nasce dessa união. É uma forma de mostrar que esses ritmos podem existir plenamente dentro do mundinho da eletrônica sem perder a identidade.

Como você equilibra o techno introspectivo com a necessidade de fazer o público se jogar na pista?

O ritmo latino traz intensidade e calor, enquanto o techno carrega um peso introspectivo e hipnótico. Gosto de trabalhar nessa tensão. Alterno momentos de explosão com faixas que seguram a energia, criando um equilíbrio entre sensualidade e respiro. Seleciono uma track para deixar o público insano e logo depois uma para segurar a intensidade. Esse contraste mantém a pista envolvida.

SAMMY DREAMS por @becofilms
Como você enxerga o seu papel na construção de uma cena nacional mais conectada entre o Nordeste e o Sudeste?

Vejo meu papel como parte de uma construção coletiva. Existe um desequilíbrio claro de oportunidades e criar pontes é fundamental. Converso muito com DJs nordestinas sobre estratégias de fortalecimento para que artistas não precisem sair de suas cidades para serem reconhecidos. Também busco o diálogo com DJs do Sudeste para que a circulação seja mais justa.

Qual a principal mensagem que você quer que o público leve para casa depois que você desliga as pickups?

Ouvi de alguém que a “experiência Dreams” tinha sido a melhor noite da vida dela. Aquilo me marcou. Entendi que meus sets funcionam como um espaço de cura e refúgio. Não é sobre ter chegado a algum lugar, mas sobre continuar construindo ambientes de felicidade, pertencimento e conexão. É isso que quero que fique depois que as luzes se apagam.