REVELAÇÃO | M4RI: O Storytelling do Mainstage

De fã na grade a colega de lineup de Steve Angello: conheça a trajetória da DJ que transformou uma “faculdade de pista” internacional na nova força do Progressive House nacional.

Existem trajetórias que parecem escritas pelo destino, mas a de M4RI é fruto de uma construção meticulosa de dez anos. Nesta edição da Colors DJ Magazine, apresentamos a DJ que venceu um concurso em 2024 e, em tempo recorde, tornou-se residente da Drop Times, dividindo o palco com lendas como Matisse & Sadko e Third Party. O texto percorre sua jornada emocional, que começou com os clássicos do Summer Eletrohits em Cuiabá e se profissionalizou através de uma vivência intensa nos maiores festivais do mundo, como Tomorrowland Bélgica e Ultra Miami. M4RI revela como sua “obsessão” por música e o suporte de seu parceiro, n4ja, criaram uma artista que não apenas toca, mas lidera movimentos para fortalecer o EDM brasileiro.

M4RI é uma das poucas mulheres no Brasil dedicadas exclusivamente ao Progressive House e ao EDM, ocupando esse espaço com uma técnica refinada e uma sensibilidade rara. Sua marca registrada é o storytelling: sets pensados com começo, meio e fim, onde a melodia e a emoção são as protagonistas. Mais do que DJ, ela é uma agente ativa da cena, fundadora da label BUZZIN’ e do Brazilian Prog Movement, iniciativas criadas para profissionalizar a produção nacional. M4RI traz para a cabine a bagagem de quem “nasceu na pista”, utilizando sua memória emocional de fã para ler o público com instinto e entregar performances que buscam a conexão real, normalizando a presença feminina nos grandes palcos.

A virada de chave de “fã” para “colega” de seus ídolos, as lições aprendidas nos mainstages globais e a importância do suporte familiar na pandemia são os eixos desta conversa profunda. M4RI detalha como sua curadoria é baseada em um estudo incessante do mercado e revela os bastidores de suas primeiras produções autorais que já começam a ganhar o mundo. Confira agora o nosso conteúdo de REVELAÇÃO e entenda por que M4RI é o nome que está redesenhando o horizonte do Progressive House no Brasil em 2026.

M4RI, em menos de um ano você passou de “fã na grade” para dividir lineup com Steve Angello e Third Party. Como foi processar essa transição em tempo recorde?

É uma trajetória que às vezes chega a ser inacreditável. Olhando para trás, sinto que isso reforça algo em que acredito: quando fazemos as coisas com amor de verdade, as oportunidades aparecem e precisamos estar prontos para abraçá-las. Foi intenso e natural ao mesmo tempo. Minha história com a eletrônica já soma 10 anos e, como DJ, eu tinha cerca de 4 anos de carreira na época do concurso.

Em 2022, conheci o Third Party como fã em um meet & greet; dois anos depois, conversamos como colegas de lineup. Tornar-me residente da Drop Times Presents foi um marco, pois passei a fazer parte de uma família. Hoje subo no palco com o brilho no olho daquela fã, mas com muito mais responsabilidade.

Como a essência “raiz” do EDM dos anos 2000 e do Summer Eletrohits se mistura com o Progressive House moderno que você toca hoje?

Cuiabá foi onde tudo começou, então essa bagagem emocional é inevitável. Esse “EDM raiz” moldou minha forma de escutar música até hoje. No Progressive House atual, essa essência aparece na importância que dou à melodia e à emoção. Meu foco sempre é contar uma história, criar tensão e fazer a pista sentir algo, não só dançar. Vejo meu som como uma ponte entre o emocional épico que me formou e a potência estética de hoje. É algo que vem da minha raiz, não é estratégico.

Foto por @luansloboda
Você viveu uma “faculdade de pista” passando por festivais como Tomorrowland e Ultra. Qual detalhe técnico ou de performance você mais aprendeu observando esses palcos e que hoje é sua marca registrada?

Essa vivência prática é meu grande diferencial. Estar na pista em diferentes culturas e observar meus ídolos me ensinou coisas que nenhum curso ensinaria. O principal aprendizado foi entender sobre construção de set e leitura de pista. Aprendi que não é sobre tocar o máximo de músicas ou impressionar com hits o tempo todo, mas saber exatamente quando segurar e quando criar expectativa. Hoje, essa atenção ao storytelling é minha marca registrada. Eu aprendi a sentir a pista como fã antes de estar no palco.

Você é uma das poucas mulheres dedicadas exclusivamente ao Progressive House. Sente que essa exclusividade ajuda a fortalecer a representatividade feminina no gênero?

Sinto que isso carrega uma responsabilidade. Não foi uma escolha estratégica, foi amor pelo som, mas entendo o impacto. Estar ali, de forma dedicada, carrega um peso simbólico em um gênero dominado por homens. Mais do que representar, eu quero normalizar. Quero que outras mulheres se vejam nesse palco entendendo que não existe “gênero certo” para estilo musical. A representatividade acontece quando a presença deixa de ser exceção e passa a ser referência.

Foto por @luansloboda
A música entrou de vez na sua vida durante a pandemia com seu marido, Leandro. Qual a importância desse suporte para transformar o hobby em carreira?

Ter o Leandro no centro de tudo tornou o caminho possível. As lives começaram como um jeito de manter a música viva e foi ali que eu aprendi e comecei a tocar. Ele é minha inspiração; se hoje sou DJ, é porque ele me apresentou esse mundo em 2015. Ele aprendeu tudo na raça e me passou essa paixão de forma natural. Nada disso é um caminho solo. Sem ele, o “n4ja”, não existe “M4RI”. O “4” no meu nome nasceu em referência ao dele e esse projeto é construído a dois, em proporções iguais.

Qual foi a sensação de abrir para Matisse & Sadko logo na sua estreia profissional após vencer o concurso da Drop Times?

A estreia desse tamanho trouxe um nervosismo que começou dias antes. Minha resposta foi técnica: treinei em estúdios profissionais e estudei muito os equipamentos. Mas, na hora, o que falou mais alto foi o amor pela experiência. Quando vi a galera chegando aos montes, senti que estava no meu lugar. Aquele ambiente e a troca com a pista fizeram tudo fazer sentido. Foi ali que a chave virou de hobby para decisão de vida.

Por que você sentiu a necessidade de criar movimentos como a label BUZZIN’ e o Brazilian Prog Movement além de apenas tocar?

Entendi que o crescimento da minha carreira estava ligado ao fortalecimento da cena. O Progressive House brasileiro tem artistas qualificados, mas faltavam plataformas que organizassem essa entrega. Criar esses ecossistemas conecta artistas, público e marcas, dando visibilidade e longevidade à produção nacional. Atuo não só como artista, mas como agente de desenvolvimento. É sobre deixar algo que vá além da minha carreira individual, dando palco para novos nomes e mostrando que o nosso som tem voz e identidade própria.

Como você faz a curadoria das suas tracks para garantir que o público sinta a mesma conexão que você sentia como fã?

A curadoria é um dos meus maiores diferenciais. Escuto muita música nova o tempo todo para entender como o mercado se movimenta. Minha retrospectiva do Spotify reflete mais o que eu estudei do que o que eu “gosto”, pois mergulho nas releases para entender narrativas e evolução sonora. Quando essa escuta se junta à minha vivência em grandes festivais, a curadoria se completa. Chego no set com repertório e intenção, guiada pela memória emocional de quem nunca deixou de estar do outro lado da cabine.

Como essa visão de quem “nasceu na pista” te ajuda a ler o público e saber o momento exato do drop que muda a noite?

Aprendi a sentir a música antes de aprender a tocá-la. Passei anos entendendo como o corpo reage, quando a atenção dispersa e quando a pista pede tensão. Hoje a leitura é quase um instinto: reparo na respiração da pista e na resposta aos breaks. A técnica me dá segurança, mas é a memória emocional de estar no meio da galera que guia minhas decisões. A track que muda a noite não é a mais “hypada”, é a que chega na hora certa.

O que a M4RI está preparando para 2026? Podemos esperar produções autorais?

Encaro 2026 como um ano de consolidação criativa e muito marcado por produções autorais. Meu primeiro release, “Easy To Love”, sai agora em janeiro. Há muita coisa sendo construída no Brazilian Prog Movement com meus parceiros K1LO e CMAX. Duas dessas tracks inéditas já foram testadas em palcos grandes, inclusive no Tomorrowland Brasil em collab com o Pontifexx. A ideia para 2026 é colocar a identidade M4RI nas pistas de forma autoral, madura e global, mirando no Mainstage.