REVELAÇÃO | HEEY JAMES: Ocupação, Performance e o Coração da Pista

Do extremo sul de SP aos palcos de Tribal e Pop: como o DJ e empresário utiliza sua vivência de promoter para criar sets que são verdadeiros refúgios de cura.

Heey James é a prova de que a presença é, por si só, um ato político. Nesta edição da Colors DJ Magazine, conhecemos a trajetória do jovem preto vindo do extremo sul de São Paulo que transformou anos de observação nos bastidores em uma das performances mais magnéticas da atualidade. O texto percorre sua evolução: desde os 12 anos nas matinês até se tornar sócio da Festa Lilith e pupilo do lendário Mestre Vlad. Com uma bagagem que une teatro musical e vivência de pista, James revela como o domínio técnico se encontra com o estilo — croppeds, bandanas e óculos — para criar uma conexão profunda com a comunidade LGBTQIAPN+.

Heey James não apenas toca; ele projeta uma experiência de acolhimento. Com uma visão 360° do entretenimento, James equilibra o “feeling” do artista com o rigor do empresário, entendendo que o DJ moderno é um produto que precisa de técnica, estética e ética. Seu som é uma fusão enérgica de Pop e EDM, agora desbravando as águas do Tribal House com a responsabilidade de ser uma das poucas faces negras nesse cenário. Para ele, a cabine é o lugar onde a música vira adrenalina e liberdade, oferecendo um espaço seguro para quem, como ele no passado, encontrou na noite o único lugar para ser verdadeiramente livre.

A transição de dançarino para o comando das pickups, as lições de ética com o Mestre Vlad e o desafio de quebrar barreiras no Tribal House são os pilares desta conversa inspiradora. Heey James abre o jogo sobre como é ser um “corpo político” na cena e revela seus planos ambiciosos de levar a marca Lilith para todo o Brasil em 2026. Confira agora o nosso conteúdo de REVELAÇÃO completo e entenda por que Heey James é o nome que está redesenhando o futuro das pistas com representatividade e muita rebolação.

James, sua história começou aos 12 anos na Matinê Leemon como promoter. Como essa experiência precoce te deu a base para entender o que faz uma festa realmente acontecer?

Sempre fui muito atento aos detalhes. Eu chegava muito antes da casa abrir e acompanhava todo o processo. Na matinê, já era incrível ver a crescente da pista. Hoje entendo que balada é âmbito social: nem sempre um fumódromo cheio é sinal de DJ ruim; as pessoas precisam socializar. Um DJ bom sabe o momento certo de fazer todo mundo rebolar, mas também sabe criar o clima para a pegação.

A música sempre esteve presente na sua vida, do teatro musical à igreja. De que forma essa bagagem te ajuda a performar e a contar uma história no set?

Eu sempre sei qual música vou iniciar o set e estrategicamente tenho ele pensado, me guio pela intuição, pela alma e pela pista.
Planejo antes e executo o que sinto que funciona no momento. As vezes 50% do que imagino acontece e as vezes também não, é onde executamos a mudança de rota.
A pista é viva e conexão real é isso. Se está frio ou calor, a energia muda. Toda essa bagagem me apurou para escolher o repertório e ser performático. Meus óculos, o look, as interações… tudo conta. Até hoje estudo movimentação corporal para usar no palco.

Como foi o “estalo” de perceber que seu lugar era atrás da cabine, saindo da pista de dança da Festa Euphoria?

Eu não conhecia ninguém da cena em SP, mas meu estilo — croppeds com frases e a bandana — chamava atenção. Logo virei figura popular na Euphoria e comecei a dançar no palco. Com o sucesso da Lilith, o estalo para ser DJ se tornou mais forte e necessário, até mesmo para entender toda dinâmica sonora que a festa precisava. Ter vivido a Lilith logo no pós pandemia foi uma oportunidade única, uma escola pronta para tudo que venho vivenciando hoje em dia.

Você é sócio da Festa Lilith. Como é equilibrar o lado empresário com o lado artista que vive a mixagem na prática?

Ser sócio me deu visão de mercado e respeito pela cena. Hoje, o DJ é um produto. Infelizmente, só ter técnica não basta; o público mudou. Observamos o presskit, o Instagram e se o perfil condiz com a festa. Mas valorizo muito a técnica e a ética. Um bom DJ se destaca por si só; ele vai lá e mostra o que sabe fazer.

Qual foi a maior lição que você aprendeu com o Mestre Vlad que mudou seu jeito de tocar?

O Vlad é um mestre. Atravessar a cidade para ter aula com um professor “open format”, preto, que cravou seu nome no Tribal House reforçou meus valores. Ele me preparou para ter ética: saber receber e passar uma pista, lidar com problemas de equipamento e ter princípios honestos. Existe muito respeito envolvido.

Com 3 meses de carreira você já estava viajando para tocar em outros estados. Qual foi a sensação da primeira vez fora da sua cidade?

O frio na barriga me definia. Me recordo que, em uma viagem, pediram para eu tocar sertanejo porque a galera gostava, mas eu pensei: “o Heey James não é isso”. Entrei com uma sequência de EDM e a pista foi à loucura. Na semana seguinte, fui convidado para ser o Headliner da inauguração de uma nova unidade da casa. Senti muito orgulho.

Como você faz a transição entre Pop, EDM e agora o Tribal House mantendo sua marca registrada?

O público do Pop sempre espera os clássicos de David Guetta ou Ariana Grande, mas eu sempre acho um remix doido que eleva a vibração. Já no Tribal, o público é mais fechado, então sigo a sonoridade da festa. Gosto dessa dualidade; eu penso em energia, não em rótulos.

Como você usa o seu espaço na cabine para mostrar que é possível para jovens pretos da periferia ocuparem esses lugares?

Nunca quis que olhassem para isso como vitimismo, por isso raramente falo sobre. Acredito que estar na cabine, sendo quem eu sou, já é um ato político. Ocupação de presença é motivo suficiente para que jovens como eu se vejam nesse lugar.

A pista é um lugar de acolhimento para a comunidade LGBT+. Como você encara a missão de transformar o set em um momento de cura?

Muitas vezes a pista é o único refúgio, o único lugar seguro para ser quem você é. Eu sei disso porque passei anos me trocando na esquina da festa ou na estação de trem para poder viver a música. Música é conexão e adrenalina. Viver isso e poder ser você mesmo é demais!

Quais são os planos para 2026? Podemos esperar produções autorais de Tribal?

Podem esperar muita Lilith! Quero levar nossa festa para outras cidades e estados. No Tribal, meu foco é me consolidar como DJ. Quase não existem DJs negros nessa cena e enfrento dificuldades de oportunidade, então farei o Heey James crescer primeiro. Na hora certa, terei meu próprio selo para trazer os meus junto comigo. O futuro do Tribal House terá DJs pretos, pessoas trans e corpos fora do padrão muito mais presentes!