REVELAÇÃO | MITCHELLS: O Som da Superação

Da depressão à cabine da Kombivibez: como Michel Oliveira transformou a dor em combustível para conquistar as pistas.

A trajetória de Mitchells na música eletrônica é marcada por uma “virada de chave” que vai muito além das mixagens. Nesta edição da Colors DJ Magazine, conhecemos a história do artista que encontrou na fé e nas batidas do Underground a força para vencer a depressão e o luto. O texto percorre o caminho de um ex-aspirante a jogador de futebol que, após uma lesão, redirecionou sua paixão para os decks, transformando o sonho de criança em uma carreira que hoje divide espaço com gigantes do cenário internacional. É um mergulho na mente de um DJ que vê cada set como uma oportunidade de cura e imersão.

Com uma sonoridade que resgata a nostalgia das rádios dos anos 90 e a energia das pistas de São Paulo, Mitchells constrói uma identidade focada no “feeling” e na troca genuína de energia. Membro do icônico projeto itinerante Kombivibez, ele domina o formato street com a mesma maestria que ocupa clubes e festivais de grande porte. Sua assinatura sonora busca o equilíbrio entre o clássico e o novo, utilizando tracks que carregam mensagens de força e renovação, consolidando-se como um artista que prioriza a conexão emocional e a verdade artística acima de qualquer tendência passageira.

Os bastidores de tocar ao lado de Kolombo, a preparação mental digna de uma final de Copa do Mundo para chegar ao Tomorrowland e os planos para a produção autoral em 2026 são os temas centrais deste bate-papo. Mitchells abre o jogo sobre como sua essência espiritual molda sua curadoria e como ele pretende unir o nostálgico às batidas modernas em seus próximos lançamentos. Confira agora o nosso conteúdo de REVELAÇÃO completo e entenda por que este DJ não pretende parar até que sua música transporte cada pessoa da pista para um lugar de felicidade e boas lembranças.

DJ Mitchells. Foto de Stefanie Freitas.
Michel, você conta que encontrou forças em Deus e na música eletrônica para superar um momento muito difícil de perda e depressão. Como essa “virada de chave” espiritual e sonora se reflete na energia que você entrega hoje para o público?

A virada de chave aconteceu nos momentos difíceis, onde a música e o espiritual foram meu refúgio. Olhar para dentro requer força e um lugar de contemplação. Nos meus sets, quero entregar isso: energia boa, nostalgia e lembranças de tempos mais fáceis. Não é só agradar, é transportar o público para um lugar de imersão em si próprio. Essa troca de energia entre o DJ e o público é o que me dá força e é o que eu quero transmitir em cada performance.

Você se tornou DJ oficialmente em 2021 e já dividiu line-ups com nomes como Kolombo. Qual foi o maior aprendizado que você tirou ao observar de perto o trabalho de um artista internacional com tanta bagagem?

Mesmo não tocando diretamente com ele, eu pude sentir a energia e ver as pessoas entregues àquele show, em um estado de quase transe. O fortalecimento vem dessa entrega para com o público. Aprendi como se portar, mas o mais importante é ter respeito pelo que você toca e como transmite isso. Além do Kolombo, cito o Boris Brejcha como referência, não só pela música, mas pela troca de energia e pelo que o set dele comunica.

DJ Mitchells. Foto de Stefanie Freitas.
Você faz parte da Kombivibez, a kombi mais famosa do mundo. Como é a experiência de tocar em um projeto itinerante e qual o diferencial de sentir o público ali, pertinho, no formato “street”?

Tocar na Kombivibez foi uma surpresa maravilhosa e um marco na minha trajetória. A diferença entre tocar em um clube e na rua é que, no clube, as pessoas já vão sabendo o que querem ouvir. Na rua, você precisa tocar algo que chame um público diverso; algo que as toque de verdade e as faça parar para te dar atenção. É um aprendizado constante sobre como atrair e manter as pessoas conectadas.

Seu grande sonho é o palco do Tomorrowland. O que esse festival representa para você e como você está se preparando tecnicamente para isso?

A preparação é como a de um jogador para a Copa do Mundo: ele se prepara a vida toda para mostrar o melhor dentro de campo. Mentalmente, fui testado quando toquei no The Town. Pode parecer que não tem a ver com o objetivo principal, mas é um aprendizado de como agir e me portar. Quando eu chegar no palco do Tomorrowland, terei conquistado minha Copa do Mundo. O preparo vem de aproveitar cada oportunidade e ser grato ao caminho.

Você menciona a “Spirit of London” e a rádio Energia 97 como inspirações. Que elementos daquela época de ouro você tenta resgatar no seu som atual?

Essa inspiração veio das rádios e das fitas K7. Naquela época, eu nem sabia que isso era uma profissão, mas eu me via viajando, tocando e ouvindo meu nome. O espírito da “Spirit of London” despertou em mim esse anseio pela energia coletiva. Tento resgatar essa força que busca a conexão real entre a música e quem a escuta.

Diferente de muitos que queriam ser jogadores de futebol, você sempre quis ser o DJ. Como foi o processo de sair do sonho de criança para a prática profissional nos clubes de SP?

Eu quis ser jogador, mas me machuquei. Naquela época da lesão, a música me despertou para o sonho de ser visto pelo público através do som. No início, adiei o plano por falta de recursos, pois os cursos eram caros e não havia tanta didática acessível. Lembro de ir ao antigo Clube Z e à A Bubu, ver a cabine e o DJ, e entender que era possível realizar aquilo: trazer felicidade para as pessoas através da minha música.

Seu lema é “fazer a felicidade do público através de boas lembranças”. Qual é a track que nunca falta no seu set?

A track que não pode faltar é “Aquila del Monte”, do Hugel. Ela conta a história de uma águia que perde as penas e volta mais forte. Nunca tiro ela dos meus sets porque representa a força que você tem dentro de si para fazer acontecer. Foi assim comigo ao me reencontrar dentro da depressão e não desistir de mim mesmo.

Além de DJ, você está focado na produção musical. O que podemos esperar dos seus primeiros lançamentos autorais?

Meus planos para este ano envolvem investir pesado no curso de produção. Vejo a cena muito carente de coisas novas, então meu pensamento é juntar o antigo e o nostálgico com batidas novas. Quero fazer faixas que façam os mais jovens quererem saber a origem daqueles vocais. Meu pai me apresentou Beatles e Legião Urbana, e eu sempre pensei que daria certo misturar essas influências com a música eletrônica.

O cenário Underground é muito competitivo. Como você faz para ganhar seu espaço e manter sua essência nos dias de desafio?

Eu me coloco no lugar do público. Eu toco o que eu gostaria de ouvir se estivesse na pista. Mantenho a energia lá em cima e observo se a track está tão boa a ponto de a pessoa curtir mesmo sem conhecê-la. O segredo é repassar essa vibração que te teleporta para dias mais fáceis.

O que seria o “topo do mundo” para o Michel Oliveira em 2026?

Meu foco é me especializar como produtor para entregar o meu melhor para a cena e para o público, que mudam constantemente. Quanto mais profissional você se torna, mais fácil fica mostrar um bom trabalho e ser visto. O “topo” é estar preparado para entregar o meu melhor em cada oportunidade, sendo visto e respeitado pela minha dedicação.