REVELAÇÃO | ACASS: Performance, Nostalgia e o Poder da Identidade

Dos clipes da MTV às residências no interior paulista: conheça a artista que transforma o mix de Funk, Pop e Emo em uma experiência visual e sonora completa.

ACASS é uma artista que entende o palco como um espaço de liberdade e narrativa. Nesta edição da Colors DJ Magazine, mergulhamos na trajetória da DJ que completou quatro anos de carreira em 2025, consolidando-se após passagens fundamentais pelo Joaquina Lounge Bar e pela Yes Bitch. O texto explora como sua infância imersa na cultura Pop da MTV moldou não apenas seu repertório, mas sua identidade visual vibrante. De “Rockstar” aspirante na adolescência a uma DJ técnica e consciente, ACASS revela como o estudo profissional e a vivência na cena LGBTQIAPN+ a transformaram em uma contadora de histórias que conecta gerações na pista.

A identidade de ACASS é um encontro de épocas: a nostalgia dos anos 2000 dialogando com a intensidade do Funk e do Pop atual. Com uma estética marcada por cores vibrantes e uma presença de palco que remete às divas pop, ela enxerga cada set como uma vivência completa. Sua formação técnica, refinada em oficinas profissionais em São Paulo e Rio Claro, deu a ela a base para transitar entre gêneros com fluidez, surpreendendo o público com misturas que vão de Linkin Park a Karol Conká. Para ACASS, a discotecagem é mais que profissão; é um território de autoconhecimento e coragem, onde ela ocupa espaços com verdade e transforma vivências em som.

A transição do hobby para o sustento 100% vindo da música, a importância das residências no interior e o desejo de conquistar palcos como o Rock in Rio são os temas desta conversa inspiradora. ACASS detalha sua “obsessão” saudável por pesquisa musical e como a faculdade em Psicologia (hoje pausada) ainda influencia seu olhar estético sobre o mundo. Confira agora o nosso conteúdo de REVELAÇÃO completo e descubra por que ACASS é a voz que está ressignificando a performance e a resistência nas pickups brasileiras.

Acass, sua conexão com a música vem desde a infância e das tardes assistindo MTV. Como essa bagagem visual e sonora da era de ouro do Pop influencia a “vibe” nostálgica que você leva para os seus sets hoje?

Acredito que essa bagagem tem uma influência muito forte tanto internamente, na minha identidade e na minha interpretação de mundo, como por fora, na forma como eu construo meu visual hoje. Roupas que eu usaria naturalmente me chamam atenção exatamente pela presença marcante, atitude e liberdade que vemos nos clipes da MTV e em divas pop. Tudo isso serve de referência e inspiração; acho que temos muito o que aprender olhando para trás para repensar presente e futuro. Essa mesma vibe aparece na minha identidade visual e na combinação de cores chamativas, como o roxo, rosa e laranja, que trazem essa estética vibrante dos anos 2000. Crescer admirando artistas como Britney Spears e Lady Gaga fez com que eu entendesse o som como uma experiência completa, criando conexão entre som, memória, apresentação e pista.

Você completou 4 anos de carreira em 2025. Qual foi o momento exato em que percebeu que a discotecagem tinha deixado de ser um hobby para se tornar sua profissão e sustento?

Ser LGBT+ me fez estar ainda mais conectada com a música e com a noite; encontrei nas casas noturnas um novo espaço para apenas ser eu mesma. O Joaquina Lounge Bar teve um papel fundamental como meu ponto de partida. Desde o 1º ano eu já sentia que era isso que eu buscava, mas foi ali que senti o apoio da comunidade. Algum tempo depois, veio a residência na Yes Bitch de Piracicaba, que foi um divisor de águas. Na época, eu trabalhava como social media e atuava como DJ nas horas vagas. Após um set na unidade de Ribeirão Preto, fui chamada no camarim para o convite da residência. Aceitei na hora. Ali ficou claro que a música seria meu caminho, profissão e sustento.

Na adolescência, você queria ser uma “Rockstar”. Hoje, atrás das pick-ups, você sente que realizou esse desejo? Como essa energia aparece na sua performance?

Com toda certeza. Estar atrás das pick-ups é a realização desse desejo adolescente. Gosto de pensar as minhas performances para que carreguem algum conceito, porque vejo a música como uma forma de se expressar. Meus sets não são só uma sequência de músicas; eles contam histórias e provocam sensações. É o meu posicionamento que aparece ali, somado à energia do Rock e do Pop Teen na forma como eu me comunico com o público.

Sua identidade musical é um mix de Funk, Pop, Emo e anos 2000. Qual o segredo para misturar gêneros tão diferentes e criar uma narrativa coerente?

Antes de tudo, faço uma leitura cuidadosa do ambiente e estudo os lugares onde vou tocar para entender as expectativas. Isso me permite construir uma narrativa coerente. Busco trazer a mistura entre a nostalgia dos anos 2000 em contrapartida com as músicas atuais. Já ouvi comentários como “Nunca sei o que vai vir de você, pode ser um funk ou um Linkin Park” e isso define bem o que quero provocar. Mais do que o BPM, eu penso na conexão entre ritmo, letra e emoção. Quando a narrativa é bem construída, a mistura acontece de forma leve.

Como as residências em Rio Claro e Piracicaba ajudaram a lapidar sua técnica e a entender o público do interior paulista?

As residências foram essenciais. Foi nelas que aprendi, na prática, como funciona a cena, entendendo o público e passando pelos perrengues que todo DJ conhece. Ter esse espaço de confiança me permitiu errar e seguir aprendendo. Antes das técnicas, foi a noite que me fez DJ. Comecei tocando ainda sem dominar completamente os equipamentos, treinando no Joaquina antes da casa abrir. O aprendizado mais importante é sobre a conexão entre artista e público: o que faz a pista ferver de verdade é uma entrega sincera e a coragem de propor algo real.

O que mudou na sua visão técnica e artística depois que você decidiu investir no estudo profissional da arte de discotecar?

Investir tempo nos estudos mudou completamente minha visão sobre a união entre técnica e arte. A oficina com o DJ Roo em 2022 e com o DJ Tano em 2023 foram fundamentais. Aprendi sobre as origens dos DJs, o uso dos toca-discos e o valor da pesquisa musical. Esses cursos me abriram novos horizontes e trouxeram noções técnicas que refletem diretamente na forma como penso minha carreira hoje. Me trouxe mais consciência e responsabilidade com o meu trabalho.

Você mencionou que dormia e acordava de fones de ouvido. Como essa “obsessão” te ajuda a descobrir aquelas faixas que ninguém mais está tocando?

Essa relação intensa influencia minhas pesquisas. Estou sempre ouvindo coisas novas e antigas, revisitando álbuns e remixes esquecidos. Gosto de entender letra, conceito e a energia que a música carrega. Toco muitas faixas que não estão no óbvio do momento, mas que despertam uma reação visível no público. São escolhas pensadas para trazer identidade ao meu trabalho.

A produção musical é um dos seus próximos objetivos. O que podemos esperar das suas futuras criações em estúdio?

Já venho me arriscando e tive a honra de participar de uma experiência com o produtor Igor Becyk, com que eu fiz curso de produção musical. Vejo a produção como um caminho para percorrer com calma. Um som autoral da Acass será uma mistura de tudo o que entrego na pista: energia contagiante, funk, pop, anos 2000 e aquela pitadinha da melancolia emo. Quero criar de forma coletiva com amigos artistas, deixando as ideias fluírem.

Em que sentido a discotecagem foi uma ferramenta de autoconhecimento e coragem para você nesses últimos anos?

Sempre fui alguém que presta muita atenção nas letras, e quando algo me toca, é o que me move. A discotecagem me trouxe liberdade. Atrás das pickups, sinto que posso me mostrar por inteiro e ocupar um lugar que muitas vezes nos é negado. Sendo uma pessoa LGBT+ e fora dos padrões estéticos impostos às mulheres, a música foi onde me fortaleci. Ocupar espaços como o Agrada Gregos e o Pop Plus me fizeram perceber a força de existir com verdade.

Para fechar: qual é o grande sonho que você quer realizar em 2026?

Meu maior sonho é continuar ocupando esses espaços, vivendo 100% de música. Em 2026, quero continuar evoluindo e levar meu som para outros estados. Sonho com palcos maiores como a Parada LGBTQIAPN+ de SP, Lollapalooza ou Rock in Rio. Mais do que chegar a um lugar específico, o que me move é continuar sendo verdadeira com a minha história e criar conexões profundas.