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OPINIÃO | Uma opinião travesty de uma série travesty

Mas o que seria uma série travesty? Antes de entender esse termo, é importante trazer um certo termo bem interessante: transfake. Transfake é algo comum porque é como se fosse uma evolução do termo drag nos meios cinematográficos e artísticos no geral. Mulheres (cisgêneras) no Teatro, o precursor do cinema, não eram permitidas. Homens (cisgêneros), portanto, se maquiavam e interpretavam eles mesmos as mulheres. O Teatro ganhou essa fama de comédia e drama por conta desse quesito e do mesmo surgiu a arte drag (que Inglês significa vestido como mulher), uma forma artística mais comum nos dias de hoje.

Com o tempo, contudo, foi se entendendo a diferença entre gênero e orientação sexual. Mesmo que ambos assuntos gerem dissidências, não teria como misturar “alhos” com “cebolas” como se fossem os mesmos temperos. 

Entretanto, por conta da maior marginalidade histórica quando o assunto é gênero, o que corresponde pela identidade de uma pessoa, essa prática de usar pessoas de gêneros errados para serem representadas nas telas dos cinemas e televisão foi mantida. Pessoas cisgêneras interpretando papéis transgêneros, não trazendo veracidade e verídicas emoções e profundidades aos papéis e, ainda, às vezes dando uma visão tortas das personagens trans quando em filmes de histórias baseadas em fatos reais.

Uma série travesty, então, seria uma série com protagonismo travesty e interpretada por uma atriz travesty ou mulher trans.

Liniker Barros, atriz preta e cantora talentosa nascida no Estado de São Paulo, protagonizou Cassandra, uma travesty moradora da capital do mesmo estado na obra/série “Manhãs de Setembro”.

Uma mulher trans/travesty não é educada, ensinada (normalmente) desde cedo em vida a possibilidade de procriação com outra pessoa. Cistemikamente é algo normalmente visto como impossível, tanto que é um dos maiores argumentos transfóbicos dos cristãos: a endemonização travesty por conta da impossibilidade de procriação. Contudo, Cassandra descobriu, dez anos depois, que é mãe de uma criança. 

A série contra o entrelaço entre os dois e a mãe transfóbica da criança, a qual é uma personagem cisbranca trambiqueira e interesseira. A série conta como uma travesty preta lida com sua vida com poucas oportunidades de caminho e com o novo “pacote” (Cassandra é motogirl) e como ela simultaneamente lida emocionalmente com um romance às escondidas com um homem cisgênero casado com mulher cisgênera, o qual tem uma filha cisgênera em criação.

As reações, ao meu ver de Cassandra, sendo estas intensas ou não me soam todas válidas. A própria mãe da personagem a abandonou, então ela não teve referência de como seria o cuidado como um parente. A falta e a presença de progenitores ou pais adotivos afetam o desenvolvimento de qualquer criança de diversas formas.

Por fim, Cassandra representa muitas de nós também que não passaram por uma maternidade aleatória. A solidão travesty. A dificuldade de lidar emocionalmente com pessoas cisgêneras. A infantilidade/adolescência afetiva, que se traduz às vezes em não conseguir estar em uma relação onde a própria travesty seja valorizada e respeitada como deve, ou em relações ditadas pela pessoa cisgênera, a qual precisa manter a discrição a todo custo.

Parabéns pelos esforços e trabalho, Liniker!

 

                                                               Kukua Dada

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