ENTREVISTA | Márcia Pantera, uma lenda viva!

Foto de divulgação.

Márcia Pantera é símbolo de resistência e sua história se estende pelo mundo inteiro.
Se hoje você conhece e faz o “Bate Cabelo”, saiba que foi Pantera que trouxe esta habilidade drag ao universo LGBTQIA+.

“Fama, o glamour, luxo, tudo isso vem com o tempo e eu ainda tenho tudo isso.” Márcia Pantera.

Com 32 anos de carreira (1988), Márcia já fez várias aparições em filmes e programas de TV. E hoje ela aparece por aqui em uma entrevista exclusiva.

Vamos nessa?

Ser Drag Queen é glamour, luxo, fama, mas também é lidar com inúmeros preconceitos, inclusive dentro do próprio meio LGBTQIA+. Por que você escolheu/decidiu ser Drag Queen?

Quando eu comecei, o termo hoje usado pra Drag Queen, era transformista. Quando eu decidi fazer show, eu só queria me montar mesmo, estar no palco, ser e estar feliz e receber, é claro, o aplauso das pessoas ao final do show.
Fama, o glamour, luxo, tudo isso vem com o tempo e eu ainda tenho tudo isso.
Mas quando eu decidi ser essa Drag, decidi dar o melhor de mim e fazer um trabalho que eu amo, mas infelizmente, dentro do nosso meio, assim como no mundo inteiro, também existe preconceito e racismo e isso acaba dificultando algumas coisas.

Sabemos que o nome de Drag surge das mais variadas formas, possibilidades e situações. Explica pra gente como surgiu o nome da sua Drag?

Durante um ano ou dois anos, no começo da minha carreira usei só Márcia, que veio de Márcio, meu nome de batismo passado pro feminino. Mas a gente tinha a Marcinha do Corinto. Aí, eu comecei a pensar como seria meu sobrenome. Passeando por vários lugares, fazendo vários trabalhos, eu conheci um lugar chamado Columbia, onde eu trabalhei na porta como hostess, junto com Cláudia Liz (uma modelo na época) e num dia de desfile, lá estava o modelo Marcos Pantera, que é o irmão da Monique Evans. No momento que eu entrei no camarim e dei de cara com ele, eu falei:
“Meu Deus, eu tenho fotos suas nos meus cadernos, eu amo você, sou sua fã…”
Ai ele falou que já conhecia meu trabalho, me elogiou e tal…
Eu agradeci e ele perguntou se eu me chamava só Márcia. Respondi que sim mas na hora eu já cogitei:
“Nossa, podia ser Márcia Pantera, né?”
E ele respondeu: – Ficou incrível.
E aí surgiu o nome, MARCIA PANTERA.

Foto de divulgação.

“…posso ser o que eu bem entender… posso ser uma negona loira, uma negona careca, uma negona ruiva…” Márcia Pantera.

Todo processo criativo tem suas fontes de pesquisas. Quem ou quais foram suas inspirações pra compor sua personagem?

O primeiro show que eu assisti, foi da Marcinha do Corinto, e ela foi minha primeira inspiração.
Depois, uma das maiores inspirações pra minha vida, carreira e shows foi Naomi Campbell; RuPaul também é uma delas.
Mas sempre acabo me voltando as modelos, principalmente as negras.
Também me inspiro em mulheres independentemente de cor, se eu olhar e gostar da produção, da montagem, eu farei aquilo pra Márcia Pantera.
Quando a gente tá no palco, a gente não tem cor, sabe? A gente é um espetáculo; a gente quer conquistar todas as cores, todas as pessoas. Eu, pelo menos, penso assim é claro que eu me coloco e sempre tive muita atitude em cima dos palcos, e posso ser o que eu bem entender… posso ser uma negona loira, uma negona careca, uma negona ruiva…
Já ouvi coisas como: “Nossa, mas pra que essa nega loira?” Ser loira (cor de cabelo) não define minha raça, eu só coloco mais atitude dentro dela, entende?!

Foto de divulgação.

“… meu personagem me ajudou a ser uma pessoa mais forte, mais livre, mais independente e mais feliz.” Márcia Pantera.

Pesquisas mostram que muitos jovens por assumirem sua orientação sexual, ainda estando nas dependências de seus familiares, são expulsos de casa, tendo que viver em abrigos. Como foi a relação da sua família quanto a sua orientação sexual e quanto a sua personagem?

Então, eu acho que nós estamos falando de tempos, né? Como era se assumir nos anos 70, 80, 90, 2000, e muito mais diferente nos anos que estamos, 2020. Estou com 50 anos, 32 anos de carreira, eu já vi muitos jovens irem pra rua, muitos jovens não voltarem pra casa, mas graças ao meu bom Deus, eu tive uma família incrivelmente maravilhosa que me entendeu, que me aceitou e que me amou. Também tive primos que não aceitavam de jeito nenhum, mas até aí era minha vida, eu ia fazer da minha vida o que eu quisesse. Quando a gente é adolescente, descobrimos um monte de coisas que a gente pode…. mas o que tenho certeza é que meu personagem me ajudou a ser uma pessoa mais forte, mais livre, mais independente e mais feliz.

Geralmente, os grandes artistas têm mais de uma habilidade. Se você não fosse Drag Queen, onde acredita que estaria atuando?

Eu acho que eu seria um atleta, porque gosto muito de esportes. Eu acho que eu poderia ter sido vendedor também; poderia ter sido modelo; poderia ter sido tanta coisa na minha vida, e a minha cor de pele não pode e não vai me impedir de chegar onde eu sonho.

Falando nas questões raciais, em várias profissões, vemos e sabemos que pessoas pretas, devido ao racismo estrutural, ainda são pouco vistas em cargos mais altos. Como você enxerga essa situação? E no meio Drag, você sente esse preconceito?

Eu sempre me encaixei em todos os lugares, pois eu sempre soube chegar e sair.
Porém eu já passei por muito preconceito, já passei pelo ódio e pela violência das pessoas, e isso foi me amadurecendo, mas pra mim a arte não tem cor.
Por exemplo, às vezes você escuta uma música, e não sabe quem é a pessoa por trás daquela voz, e mesmo assim você ama música.
Quando você vê uma drag no palco, um ator atuando de maneira incrível, e você ama aquela pessoa, você não verá cor.
E realmente é muito difícil, aqui no Brasil, os negros estarem em cargos que merecem, sabe por quê? Infelizmente, quando assinaram lei pra libertarem os nossos, ficamos sem direito algum, a gente não tinha nada. Quem tinham era os brancos, eles apenas nos libertaram e não nos deram trabalho digno, nem direito à educação, nem auxílio à saúde.
E hoje em dia, ainda tentam podar a gente, de fazer muitas coisas.
Infelizmente e dentro do nosso meio, também existe um preconceito de racismo. Sabe por quê? Porque às vezes tem brincadeirinhas que não cabem em situações nenhuma, mas são feitas. eu já vi e já vivi muito disso nos camarins da vida. Eu, sinceramente, continuo aquela Márcia do começo, quero fazer meu trabalho, voltar pra casa, receber meus aplausos e o meu cachê no final.

Aqui no Brasil as leis e apoios de incentivo às artes ainda são pequenas e beneficiam uma parcela muito baixa de artistas. Como você enxerga a possibilidade de viver de arte nos dias atuais?

Tem muita gente boa por aí, fazendo trabalhos admiráveis, mas infelizmente, a gente tá num país onde ainda não tem uma valorização incrível da nossa arte. As coisas começaram a mudar, sim, mas tá andando em passos muito curtos.
Porém uma coisa boa é que a gente já tá aparecendo, tá por aí botando na nossa cara pra jogo, agora só falta valorizar, pra gente viver dignamente da nossa arte.

Márcia Pantera faz temporadas de shows fora do Brasil, especificamente na Alemanha. Na sua concepção, como é vista a arte Drag fora do Brasil, e qual rumo essa prática irá seguir nos próximos anos?!

Essa conquista de viajar pra fora é mérito especialmente do meu trabalho. Fui lá, fiz o meu teste e, foi maravilhosamente incrível. Eu estando num lugar desse, mostrando meu trabalho e as pessoas amando, é a certeza, da valorização que eu não tenho aqui no Brasil.
E sim, vão acontecer ainda, vários shows. E eu já tenho a minha agenda de shows até 2022.

O universo Drag é imenso e pode ser direcionado a várias vertentes artísticas (canto, atuação, dança, dublagem, apresentador(a), comediante, etc…); e você já viu muita coisa nessa longa trajetória como artista. Pra quem quer iniciar na carreira de Drag Queen, qual é a sua mega dica?

Essa pergunta é bem legal, porque essa me faz olhar pra trás, ela me traz muitas lembranças de quando eu comecei. No início eu olhava o show de uma, de outra, e sempre tinha um pouquinho delas no palco.
Até que Zeca Prudente (DJ da Nostro Mundo) me trouxe da Alemanha várias músicas de cantoras da Dance Music. Quando ele trouxe isso eu mudei o formato de show dos anos 90, me tornando uma (r)evolução pra época. Revolução porquê numa época onde as meninas eram vedetes e faziam músicas mais clássicas, eu, uma negona, usava um cabelão, e músicas mais atuais.
A dica que eu tenho pra dar é:
NUNCA, JAMAIS, desista do seu sonho.
Se torne um alguém muito forte, pra você trazer o seu personagem ainda mais incrível.

Disponibilizamos este espaço pra você passar a mensagem que bem entender às pessoas que seguem você e a revista Colors DJ Magazine.

A frase é sempre a mesma que eu uso pra minha vida.
“Nunca desista do seu sonho, você vai realizá-lo, acredite!”
São tantas coisas maravilhosas que acontecem na minha vida, que eu sou um ser humano especialmente realizado e feliz.

Quero agradecer a revista Colors DJ Magazine pelo carinho, à minha amiga Leyllah Diva Black que é maravilhosa.

Até mais!

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