capa_mallover_feed

ENTREVISTA | MALLOVER: Os A.M.I.G.O.s que revolucionaram a sonoridade do Tribal brasileiro!

Foto de divulgação.

“Além de parceiros, somos grandes amigos, e isso é o que mais importa acima de tudo” Mallover.

A Cena Tribal House possui grandes produtores que são, muitas vezes, desconhecidos do grande público pelo nome, mas com uma identidade musical inconfundível. Muitos deles são responsáveis por grandes transformações na sonoridade da música eletrônica, criando tendências musicais dentro do segmento.

“Infelizmente alguns produtores de festas ainda preferem ter em seus lines DJs que tocando de graça ou que tem uma “imagem que a cena pede” Mallover.

Nascidos e criados em Campinas – SP, os DJs Fernando Malli e Rafael Oliver são grandes exemplos disto. Em meados de 2014, se uniram para criar oficialmente o projeto duo MALLOVER (Malli + Oliver). De lá pra cá se tornaram conhecidos pelo estilo único de criar músicas e versões exclusivas e inesperadas. Vendem suas próprias músicas diretamente para o público, sem gravadora intermediando.

Com certeza você já ferveu muito ao som de alguma track dessa dupla ou ainda de algum mashup feito com uma base deles. Vem saber tudo sobre esses caras que estão revolucionando a maneira de fazer e vender música.

O projeto surgiu em 2014, mas vocês já possuem uma carreira individual anterior. Como aconteceu essa fusão?

Fernando Malli: Na verdade o que poucos sabem é que somos amigos há mais de 25 anos. Nos conhecemos na adolescência e já éramos DJs. Eu tocava Black Music e o Rafa era da cena Dance Pop. A mudança de vertente para ambos foi em meados dos anos 2000, quando a cena eletrônica voltava-se a um estilo mais underground; assim começamos a buscar um estilo dentro das vertentes da House Music até chegarmos no Tribal que tocamos hoje.

Por volta de 2011, eu e o Rafa começamos a produzir algumas músicas e remixes assinados com o nome artístico dos dois, Fernando Malli e Rafael Oliver, e como éramos (e ainda somos) amantes do Deep House, G-house e vertentes, queríamos arriscar a produzir músicas nesta vertente e fazer um Deep House com batidas e elementos do Tribal, mas para a brincadeira ficar séria precisávamos de um nome artístico, porém como não surgia nada na mente a gente continuava a produzir o Tribal e sem perceber nós acabávamos fazendo o inverso, ou seja, produzíamos Tribal com elementos do Deep House, musicas essas como “Massive Drums”, “Manguetown”, “Hit Me!”, “The Tribe Is Musik”, “Respect!”, “Spire” e a “Sensor” que deu o start para que pudéssemos pôr em prática o nosso projeto.

O nome Mallover era um dos que já estavam em nosso caderno de ideias, assim como vários outros nomes sem relação com o contexto que queríamos. Só depois de muito tempo batendo cabeça que, finalmente no início de 2014, em uma de nossas conversas de bar, decidimos apostar no projeto produzindo remixes e músicas originais com elementos do Deep House, Trance, Techno e Black Music assinando todas as produções com o nome Mallover.

Curiosamente muitos ainda acham que “Mallover” se refere a uma única pessoa, um só DJ. Levamos isso na boa porque é sinal de um trabalho bem feito.

Foto de divulgação.

A dupla possui uma conexão muito forte com a sonoridade do EDM. Além disso, quais as outras referências musicais que vocês buscam trazer para as produções e sets de vocês?

Rafael Oliver: Na verdade nós sempre procuramos ter novas ideias buscando sons e elementos dos anos 90, 2000 e nossas referências vêm também da ampla variedade de estilo e ritmos que trabalhamos, ouvimos e gostamos. O Malli, por exemplo, é do samba e curte muito percussões; eu também sou da mesma vivência que a dele, mesmo estando em regiões diferentes e tendo costumes diferentes. Eu gosto muito de harmonias, tons e acordes assim como o Malli em seus elementos rítmicos, percussões, gingados e batidas agressivas. Sempre estamos aprendendo com o outro e nada é desperdiçado. Uma ideia sempre surge e mesmo que não cheguemos a produzir nada a gente separa tudo e deixa a ideia de standby para trabalharmos depois. Foi assim que surgiram alguns de nossos maiores hits. Falando pela experiência dos dois, ambos conhecemos e buscamos todos os ritmos que possivelmente podem trazer influências ao nosso som, do pagode ao sertanejo, do R&B ao Psy Trance, a gente ouve de tudo, nada se perde e se necessário tocamos de tudo também.

Na track A.M.I.G.O. vocês utilizaram um sample de uma música do Roberto Carlos, algo completamente inesperado para a cena Tribal house, e a música se tornou um hit. De onde veio a inspiração? Vocês acham que o Tribal House precisa de mais inovação?

Fernando Malli: Essa música tem uma história engraçada! Na verdade, a A.M.I.G.O veio simplesmente das nossas brincadeiras enquanto íamos nos apresentar nas festas. Quando errávamos algo durante o set, mesmo que imperceptível para o público, nós sabíamos onde errávamos e a gente ficava conversando e rindo durante a apresentação dizendo que, quem errasse, teria que encerrar o set com a música do Roberto Carlos. Nisso, ríamos e cantávamos ela em qualquer situação ou deslize nas pickups, então a música do Roberto passou a ser uma música de “zueira de bastidor” para nós. No entanto, vivíamos falando que de tanto “zoar” de nós mesmos, iríamos um dia fazer uma música original com ela, mas isso era somente brincadeira até que um dia o Rafa me manda um projeto nomeado como “MALLOVER – A.M.I.G.O” e me diz: Ouve aí e depois você me fala! Eu nem falei nada, fiz uns ajustes e soltamos ela em um set, porém, ninguém deu tanta importância para a faixa até que um dia eu mandei a música para o DJ VMC que tocou ela na The Week Rio e fez um vídeo fazendo com que ela ganhasse evidência na cena. E foi assim, das nossas brincadeiras de bastidores que veio a inspiração para que A.M.I.G.O explodisse no cenário eletrônico nacional.

Mallover: Achamos que a cena precisa de mais inovação sim, afinal a cena já está cheia de mashups com letras e batidas repetitivas. Muda o som, mas os vocais são sempre os mesmos e vice-versa. Uma pena para uma cena que não valoriza DJs que produzem e buscam trazer novidades para a pista. Nós sempre procuramos inovar em nossas músicas buscando por novos sons e elementos misturando vertentes e trazendo influências de outros ritmos, essa é a essência do Mallover, pensar em algo que ninguém pensou e fazer algo que ninguém ousou fazer.

Em todos os seus sets, vocês trazem na intro um texto com uma linda mensagem. De onde surgiu essa ideia? Quem cria os textos?

Rafael Oliver: Desde o início do projeto nós queríamos fazer um diferencial em nossas apresentações e isso tinha que começar com a intro. Pensávamos em ter em nossos sets intros impactantes que prendessem a atenção do público para o que viria a seguir. Foi aí que veio a ideia de introduzir textos, assim como as do Tomorrowland, e ainda com mensagens de acordo com o tema da festa ou com o contexto atual. Foi através da nossa amizade com o ator e DJ Edson Mosca que a ideia foi tomando forma. Ele nos apresentou a também atriz e empresária Isabella Páscchoa (voz oficial do projeto), que sugeriu usarmos trechos das vozes do jogo The League Of Legends. Ela começou a desenvolver os textos em forma de poesias e deu a própria voz aos mesmos. Já a produção fica a meu cargo, porque já trabalho com edição e criação de áudio profissional e quis assumir essa responsabilidade mais pela prática e experiência que tenho em produção de áudio comercial e institucional. Em resumo, a Isa cria e dá voz aos textos e eu faço a mágica rs. Hoje também temos com a parceira do projeto a locutora e DJ Bia Ipsen, que também dá a voz para algumas de nossas intros.

É engraçado e muito satisfatório ver a resposta do público com a nossa proposta de intro em nossos sets. Sabemos que em cada apresentação ou set, o público fica esperando a intro pois sabem que o set em si será cheio de novidades e isso nos deixa muito felizes.

Hoje, se vocês pudessem definir em palavras o som do Mallover, como faria?

Rafael Oliver: Acho que as palavras para o “som do Mallover” seriam: Inovador e surpreendente. É engraçado falar disso porque a cada set a gente busca apresentar algo novo e mesmo quando a gente sabe que criou e remixou músicas novas, a gente sempre acha que faltou uma ou outra. Sempre queremos trazer algo bom e novo para quem ouve nosso set para que todos possam ficar felizes em ouvir nosso som.

Fernando Malli: Sabe, quando tocamos em clubs ou festivais a gente sempre reserva uns 10 minutos antes de subir na cabine para fazer uma pequena oração. O Rafa sempre me fala antes de darmos início em cada apresentação: “Malli, vamos nos divertir… E vamos fazer o público se divertir com a gente”, acho que é essa a mensagem que nós queremos passar com nosso som e nas mensagens em nossas intros: Esqueçam tudo de ruim e divirtam-se com a gente.

O mercado fonográfico mudou bastante, e hoje as plataformas de streaming dão mais acesso ao público para o trabalho dos artistas. Vocês preferem vender suas músicas diretamente para o público. Por que vocês fizeram essa escolha?

Mallover: Na verdade, vender músicas foi um caminho que encontramos para lidar com o desrespeito que recebemos da cena que lutamos muito para mudar. Sempre inovando e lançando novos sons a cada dia. Um certo dia, em um encontro de grandes DJs da cena de São Paulo, ouvimos de vários DJs a seguinte frase: “A cena, em questão sonora, se baseia no antes e o depois de Fernando Malli e Rafael Oliver. No momento, a grande maioria de músicas e remixes que saem hoje, tem influências suas”. Com isso, mesmo que a gente busque inovar em nossas produções, sabemos que é difícil competir com quem é amigo do amigo, ou com quem toca a troco de algo que não seja cachê… Como os DJs precisam estar sempre atualizados e nos procuram para ter um diferencial em seu som, nada mais justo que pagarem por este diferencial, já que nós não temos muito espaço.

Sabemos que um grande problema da cena tribal hoje é a desvalorização dos cachês. Para um DUO deve ser ainda mais complicado. Como vocês lidam com isso? Os produtores são justos na hora de fechar uma data?

Mallover: Cachê é um problema na cena, ainda mais porque vivemos em um momento que DJs tocam por amizade, nome no flyer e cachês baixos. Tudo para dizer que estão com a agenda cheia. Não é errado terem essa atitude no início de carreira, afinal eles tem que aparecer e se divulgar, mas se prostituir para tocar é falta de ética e desrespeito para quem vive da profissão.

Nós ainda conseguíamos alguns cachês razoáveis, porém já tivemos algumas discussões internas por causa dos cachês baixos que os contratantes queriam nos pagar. Infelizmente alguns produtores de festas ainda preferem ter em seus lines DJs que tocando de graça ou que tem uma “imagem que a cena pede”, ao invés de pagar um cachê bom para ter o nosso som de qualidade e profissionalismo em seus eventos.

As bases de vocês já foram utilizadas para a criação de inúmeros mashups. Já houve algum plágio? Como vocês encaram essas questões?

Mallover: Olha, isso já faz parte das nossas vidas desde que nós nem éramos Mallover rs. A cada track nova que lançamos, na semana seguinte já surgem uns 3 mashups no mínimo, com a base da música original. Já tivemos problemas por causa disso, até chegamos a discutir com alguns produtores que plagiaram descaradamente músicas como Massive Drums, Sensor, Batman, Musik entre outras, porém hoje lidamos bem com essas coisas. Ficávamos chateados com DJs que usam e abusam de bases criadas por nós e não nos davam créditos nos títulos dos seus mashups principalmente. Hoje não ficamos mais ou menos tristes e pensamos que se fazem isso, é porque o produto final é bom rs. Para ser mais sincero, esse também é um dos motivos pelos quais vendemos diretamente nossas músicas.

Hoje o Rafael Oliver está morando temporariamente na Bahia. Como vocês estão fazendo pra produzir?

Rafael Oliver: Isso não é problema graças a uma ferramenta mágica chamada “internet”. Temos uma pasta particular compartilhada no Dropbox que está cheia de projetos prontos e alguns não finalizados. Sempre que surge uma ideia nova, mesmo sendo ela somente metade de um nada, a gente compartilha na pasta e vamos nos atualizando em cada ideia que surge. Neste quesito nós estamos em sintonia sempre.

As produções do Mallover tem um respeito muito grande entre os DJs. O que vocês acham que precisa para o DUO estar listado em Grandes Festivais Brasil afora?

Mallover: Graças a Deus podemos dizer com orgulho que lutamos muito para termos respeito e conhecimento na cena eletrônica, mesmo porque sempre buscamos fazer o que ninguém tem ousadia de fazer, buscar o que ninguém pensou em buscar e assim criamos a nossa sonoridade e identidade musical. Nós sabemos que se um dia quisermos estar no line up dos principais eventos da cena no Brasil, teremos que ralar bastante. Não sabemos bem se o motivo de não nos contratarem para estes grandes festivais é pelo preconceito por não termos o “padrão de corpo e beleza” que a cena exige, ou por outra coisa em específico, porque pode ter a certeza que no set de cada DJ do Brasil tem ao menos uma música nossa em seu setlist, seja ela original, remix ou mashup. Nossa música está lá, no set de cada DJ, mas poucas pessoas sabem disso. Uma coisa é certa e a gente sabe disso: Nós somos bons DJs e produtores, e temos respeito de grandes profissionais do mercado fonográfico. Se um dia surgir a oportunidade, nós estaremos preparados para tocar o nosso som e levar nossa vibe, dentro do contexto musical de qualquer evento.

Quais os próximos passos para o Mallover?

Fernando Malli: Ainda não sabemos como será o futuro do projeto Mallover referindo-se a festas e eventos em meio ao momento que estamos vivendo. Temos alguns projetos em mente que estamos desenvolvendo aos poucos e, logo que acabar essa pandemia, estaremos pondo tudo em prática, vai ser surpreendente, garantimos. O que podemos afirmar é que estamos preparando para 2021 o lançamento de um novo EP com mais ou menos umas 10 faixas inéditas e exclusivas que, como esperamos, será mais um diferencial que traremos para a cena tribal.

Rafael Oliver: Em relação a produção musical, o projeto Mallover sempre estará a todo vapor produzindo músicas novas e remixes diferenciados, porém no que se refere a “tocar na noite” eu não vejo muita perspectiva em querer me apresentar como Mallover e o Malli sabe disso. Tenho todo o respeito dele. Foram anos de dedicação para não termos o merecido reconhecimento ao meu ver e isso me fez repensar muito. Não descarto a possibilidade de nos apresentarmos juntos novamente, caso a proposta for bem trabalhada e os valores justos e bem negociados.

Mallover: Além de parceiros, somos grandes amigos, e isso é o que mais importa acima de tudo. Temos nossos projetos paralelos, porém Mallover sempre estará em evidência na cena eletrônica. Tudo pode acontecer.

COMPARTILHE:

Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no telegram
Compartilhar no email

deixe sua opnião

Sugestão de pauta, opinião sobre nossos textos, envio de lançamentos, ...

%d blogueiros gostam disto: