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ENTREVISTA | As noites de ouro

Fotos de divulgação.

Ele é cineasta, jornalista, escritor, ator e cantor paulistano. Escreveu e dirigiu 10 curtas-metragens ficcionais e 2 longas documentais. Nessa conversa, vamos saber um pouco mais sobre um de seus filmes: o premiado São Paulo em Hi-Fi.

“Hoje em dia, com a conquista de alguns direitos, os gays começaram a se assumir, se afirmar sem precisar da noite como escudo protetor.” Lufe Steffen.

São Paulo em Hi-Fi é um longa documental histórico que resgata a era de ouro da noite gay paulistana, fazendo uma viagem pelas décadas de 1960, 70 e 80 – através do relato de testemunhas que contam histórias vividas nas casas noturnas que marcaram época.

Foto de divulgação.

Lufe, sabemos que vários dos seus projetos, alguns premiados inclusive, abordaram temáticas referentes ao universo da noite LGBTQIA+. Conte um pouco sobre quando se deu seu primeiro contato com a noite gay paulistana.

Meu primeiro contato foi no começo dos anos 1990 e naquela época nem existia ainda essa sigla LGBT…, era noite gay mesmo. Durante toda a década, pesquisei muito esse assunto, mesmo ainda sem saber o que faria com minhas pesquisas. Saía muito, não só pra diversão, mas porque eu achava interessante, achava antropológico e queria conhecer mais daquele universo. Anos depois, vieram os frutos dessas pesquisas, como os longas documentais: “A volta da Pauliceia Desvairada” (2012) e “São Paulo em Hi-Fi” (2016) . Mas todos os meus curtas-metragens, inclusive os que começaram já nos anos 90, tinham também uma ligação com a noite.

Esse fascínio pela noite gay, assim como disposição para querer resgatar e contar suas histórias, deve ter relação com os primeiros lugares que você conheceu. Qual foi a sua primeira balada gay?

O primeiro lugar que eu fui quando comecei a sair foi o clube Massivo, que era bastante famoso em 1990/91. Lá o público era bem diversificado não sendo frequentado apenas por gays. Ali se via uma mistura de estilos e tribos muito interessante. Tinha de tudo lá. Era o reduto dos Clubbers e as pessoas se montavam para ir pra lá, se arrumavam com looks elaborados para ir para a noite. As drags também estavam começando a explodir na cena e, naquela altura, a drag oficial do Massivo era Cindy Babado que ficava na porta como Hostess. Então é isso, o Massivo, apesar de não ter sido uma boate gay clássica, foi o primeiro lugar que eu frequentei mais assiduamente. Depois disso, por volta de 1995 … 96, fui conhecer a Mad Queen, Blue Space, Túnnel do Tempo e Nostro Mondo que eram as casas gays mais clássicas.

No filme São Paulo em Hi-Fi você resgatou histórias das noites gays nas décadas de 1960, 70 e 80. Qual foi sua motivação para realizar esse projeto?

Quando acabei o filme A Volta da Pauliceia Desvairada (2012) que retratava a noite gay paulistana daquele momento, senti que as pessoas que frequentavam a noite não tinham conhecimento sobre o passado ou sobre as origens daquela cena, conheciam pouco ou quase nada. Achavam que a noite gay tinha começado a partir dos anos 2000, não tinham consciência, não tinham informação. Percebendo isso, senti necessidade de contar essa história que, até então, ninguém tinha contado. Depois, surgiram outros projetos falando da noite LGBT paulistana histórica, mas naquela época não tinha nada. E na verdade eu já queria falar desse assunto desde 2008, quando eu entrevistei um amigo meu que é veterano da noite LGBT paulistana. Fiz uma entrevista com ele pra internet sobre o assunto e foi daí que nasceu a ideia de fazer esse resgate histórico. A primeira versão do São Paulo em Hi-Fi foi lançada no início de 2013 no Festival Mix Brasil. Importante dizer que era uma versão demo, como um rascunho. A versão circulou em alguns festivais, entre 2013 e 2015. Em 2016 o filme foi repaginado, remontado e lançado oficialmente em circuito e é essa versão que circula oficialmente até hoje.

As histórias são contadas no filme por personagens que estavam inseridos naquele contexto na época (empresários, artistas e público). Entre essas pessoas e suas histórias, você destacaria uma em especial?

Não posso destacar ninguém, pois todos os depoimentos ali são importantes e cada um contribuiu de alguma maneira. A ideia foi criar um mosaico sobre a noite, fazer uma espécie de jogral com as pessoas contando suas histórias, trazendo uma memória oral e compondo um painel verbal com as histórias. Dessa forma, tudo é importante e cada pessoa teve algo a acrescentar. Claro, alguns tiveram mais histórias, mais peripécias. Se fosse pra destacar alguém, não desmerecendo os outros personagens, poderia ser a Elisa Mascaro, falecida recentemente em 2019. Ela acabou se destacando mais no filme pelo fato de ter sido uma grande empresária da noite LGBTQIA+ que acolhia os gays e transformistas na época da ditadura militar. Além disso, a Elisa é conhecida por ter trazido o glamour dos cabarés parisienses para a noite paulistana. Então ela acabou sendo a espinha dorsal do filme São Paulo em Hi-Fi. A noite gay paulistana só pôde progredir nos anos 70 e 80 graças a lugares que fomentaram essa noite, como foi o caso da boate Medieval, principal casa gay nos anos 70 e a Corinto nos anos 80, ambas tendo a Elisa Mascaro como proprietária. Então, por isso, a personagem da Elisa talvez tenha uma especialidade por toda essa trajetória, mas todos os personagens são importantes.

“Havia toda uma preocupação com a elegância de você se arrumar para sair…” Lufe Steffen.

Ao assistirmos ao filme São Paulo em Hi-Fi, podemos perceber que as noites gays nas décadas de 1960, 70 e 80 traziam todo um glamour que já não vemos mais atualmente. Na sua opinião, por que isso se perdeu?

Se perdeu, na minha opinião, por várias razões. Primeiro porque a própria sociedade mudou. Aquela necessidade de haver glamour na noite, nas festas, nos eventos foi se perdendo de forma geral, não apenas na noite gay. Veja bem, na primeira metade do século 20 as pessoas tinham uma tendência de glamourizar qualquer evento. Havia toda uma uma preocupação com a elegância de você se arrumar pra ir ao teatro, para ir ao cinema, pra ir num casamento, num noivado, num restaurante, numa boate, num jantar dançante. Enfim, tudo era feito com mais pompa, isso era uma característica da sociedade da época. Na segunda metade do século 20, isso começou a se perder, mas ainda nas décadas de 1960 e 70 se manteve. A partir da década de 80 descambou de vez, pois houve uma popularização, tudo começou a ficar mais simples. A partir daí as pessoas não vão mais se arrumar para ir ao cinema, ao teatro. Quando muito, se produzem mais para um casamento e olhe lá.

O glamour foi se perdendo no geral e isso também se refletiu na noite gay. Hoje as pessoas vão numa boate de bermuda, camiseta regata e tênis, às vezes até de chinelos. Coisa que antes nem era permitido, pois era obrigatório manter uma certa elegância. Acho que a sociedade ficou mais despojada. Além disso, a noite gay deixou de ser o único lugar de liberação para muitos como era antes. Houve um tempo em que os LGBTQIA+ só podiam se expressar livremente, sem sofrer preconceitos e discriminações, indo para as boates gays. Hoje em dia, com a conquista de alguns direitos, os gays começaram a se assumir, se afirmar sem precisar da noite como escudo protetor. De uns vinte anos pra cá, com os movimentos gays, com as Paradas do Orgulho e tudo mais, as pessoas começaram a poder ser o que elas quisessem ser em plena luz do dia, no trabalho, na fila do banco, no meio da rua. Hoje assumem sua sexualidade, seu gênero e ganham cada vez mais segurança e visibilidade. Consequentemente, a noite perde força e deixa de ter essa importância de ser o único palco possível para os LGBTQIA+ se expressarem livremente. Não é mais obrigatório que o gay passe pela noite para poder existir na sua totalidade. Isso é super positivo, mas acredito que também contribuiu para essa perda do GLAMOUR das noites.

O filme São Paulo em Hi-Fi resgata o glamour dos “anos dourados”, mas também trás recordações difíceis, como o período da ditadura militar e a explosão do vírus HIV. Isso demonstra que temas como violência, preconceito e luta por direitos não são novidade para os LGBTQIA+. Olhando para o passado e vivendo o presente, o que você vislumbra para o futuro da cena gay?

Eu não posso afirmar o que que vai acontecer, pois é difícil dizer. Acho que vai depender das pessoas que estão hoje inseridas nesse contexto terem a vontade e a disposição para realizarem projetos nesse cenário. Acredito que seja como um cultivo e se as pessoas pararem de cultivar, não haverão novos frutos. Isso é muito amplo, pois se não houverem empreendedores, assim como se ficar estabelecida essa ausência de representantes políticos LGBTQIA+ para lutarem por direitos, por políticas públicas voltadas para interesses da comunidade, por visibilidade, enfim, o pouco que se conquistou vai sumindo. Eu particularmente acho que a noite gay não vai acabar, mas sim se fortalecer nos próximos anos, assim como todas as questões que envolvem e dizem respeito a vida dos LGBTQIA+. Felizmente nas eleições de 2020, vimos um aumento de cidadãos LGBTs se candidatando e sendo eleitos. Nós precisamos muito dessa representatividade. A gente tá num momento em que se não houver representantes na política, vamos continuar sendo massacrados. Políticos contrários às causas LGBTs já estão no poder há tempos, querendo massacrar e oprimir as minorias. Temos que ter gente lá pra resistir e isso é fundamental. O futuro vai depender disso. Quanto a mim, eu, como humilde cineasta continuarei fazendo o meu trabalho de pesquisa LGBT, de memória, pois até hoje, todos os meus filmes foram dentro da temática. Dirigi 10 curtas, 2 longas, estou fazendo o meu terceiro longa agora, dirigi 2 séries: 1 para TV e 1 para internet, publiquei dois livros, sempre nessa temática. Enfim, esse é o meu filão e quero continuar desenvolvendo, pesquisando e contribuindo para que tenhamos cada vez mais visibilidade e para que nossa memória não se perca no tempo.

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