EVENTOS | TRIBUTO À ANGEL: quando a pista vira legado

Simone Sun abre o coração sobre a criação da Floripa In Trance e transforma a 20ª edição em um recomeço coletivo

A história da Floripa In Trance é mais que uma sequência de festas: é uma jornada afetiva, espiritual e artística. Em entrevista à Colors DJ Magazine, Simone Sun relembra como a celebração nasceu de forma despretensiosa ao lado da DJ Angélica, e como a 20ª edição — Tribute of Angel — marca um novo ciclo, entre saudade e força. Um papo sobre legado, propósito e amor traduzido em som.

Referência no sul do Brasil, a Floripa In Trance movimenta a cena de cultura alternativa com foco na música eletrônica psicodélica, arte visionária e protagonismo feminino. A edição atual conecta psytrance, espiritualidade e ação social, trazendo um line-up que honra a essência da pista e reverbera o impacto da DJ homenageada.

Na entrevista, Simone compartilha momentos emocionantes, bastidores da criação da festa, a importância do calendário maia no tema e o motivo de doar parte da renda ao hospital de câncer de Florianópolis. Uma leitura essencial para quem acompanha a cena trance e acredita que amor também se dança.

A Floripa In Trance já pulsa há mais de sete anos no coração da ilha, mas me conta: como foi aquele momento em que você e a Angélica decidiram transformar esse sonho em realidade?

Eu e a Angélica saímos de Porto Alegre e viemos morar em Floripa em busca de mais tranquilidade. Naquele momento, nem pensávamos mais em fazer eventos — estávamos um pouco desiludidas com a cena. Foi então que uma amiga encontrou um lugar que aceitava o trance dentro da cidade e começou a nos incentivar a fazer uma festa. A ideia era apenas comemorar o aniversário da Angélica e da Mel. Tínhamos uma caixa de som, um CDJ 100s e um sonho — e foi assim, de forma despretensiosa e com o coração, que tudo começou.

As primeiras edições rolaram no Rancho do Maneca, certo? Como era o clima naquele começo mais intimista, e o que vocês mais lembram com carinho dessa fase raiz?

O Rancho do Maneca era um lugar super peculiar, cheio de antiguidades, bem pequeno mesmo — a ponto de a gente duvidar que conseguiria fazer uma festa ali. Era tudo muito roots, mas a gente até improvisou um lounge, acredita? (risos) Quem viveu essa fase certamente lembra que o espaço ficava ao lado de um mangue e tinha MUITO mosquito! Foi uma experiência bem intensa. E o mais louco é que, assim que a galera soube que o rolê era nosso e que a gente estava morando na ilha, colaram em peso: já na primeira edição apareceram cerca de 300 pessoas. Foi inesquecível!

Em 2019, o projeto ganhou uma nova força com a chegada da Phantom Unit Records e a mudança pra beira-mar. O que esse momento representou pra vocês?

Posso dizer com certeza que, de todas as parcerias que tive nesses 21 anos de trajetória, a Phantom foi a mais especial e a que mais me trouxe aprendizado. Eles deram o empurrão que a Floripa In Trance precisava naquele momento. Somos eternamente gratas por essa conexão, porque essa mudança para a beira-mar e a chegada da Phantom representaram um verdadeiro salto de crescimento para o projeto. Por isso, consideramos que eles também são parte essencial da Floripa In Trance.

E agora, em 2025, vocês estão com uma nova casa, o Vereda Tropical, na Barra da Lagoa. O que motivou essa transição e como o novo espaço se conecta com a vibe do evento?

A cada edição, a festa foi crescendo e ganhando mais força. Fomos trazendo grandes nomes da cena e, naturalmente, nossa antiga casa na Joaquina já não comportava mais o tamanho que o evento estava tomando. Sentimos que era hora de dar mais um passo. O Vereda Tropical veio como uma resposta a essa necessidade: um espaço mais amplo, com área coberta e externa, à beira da praia, mas com mais estrutura e conforto. E conseguiu abrigar melhor as outras atividades da festa, como feira mix, tenda de cura… Em breve, queremos realizar um verdadeiro open air — que era nosso desejo para a Floripa In Trance. É tempo de expansão e, acima de tudo, de realizar sonhos!

Chegamos então à 20ª edição — Tribute of Angel. Como foi pra você, pessoalmente, pensar e construir uma edição tão simbólica, em homenagem à Angélica?

Foi muito mais que simbólico… foi pessoal. Antes de partir, a Angélica me pediu duas coisas: que eu cuidasse do filho dela e que nunca deixasse de fazer a Floripa In Trance, que era o nosso legado. Por um tempo, eu não soube como voltar a fazer os eventos sem ela — tudo parecia sem sentido. Mas aí percebi que este ano ela completaria 40 anos, que a festa nasceu do aniversário dela, e que ela tinha vindo ao mundo justamente no Dia Fora do Tempo. E, pra completar, seria a 20ª edição… tudo foi se encaixando de um jeito muito forte, muito claro. Eu senti o que ela gostaria que eu fizesse. E fiz com o coração.

A data do evento e o tema têm uma ligação com o calendário maia e com o “Dia Fora do Tempo”, quando a Angel completaria 40 anos. Como esses elementos místicos e simbólicos entraram na criação dessa edição?

A gente queria que a presença dela fosse sentida de verdade, então tudo foi pensado pra isso. Incorporar o Sincronário da Paz, o calendário maia e o Kim dela na decoração foi a forma mais bonita e verdadeira que encontramos de trazer a energia dela pro rolê. O Kim dela vai estar no centro da pista, como se fosse ela ali, vibrando com a gente. Foi um jeito de unir o místico ao emocional e criar uma atmosfera onde ela não fosse só lembrada, mas realmente sentida.

Essa homenagem também tem um impacto coletivo, né? Como você sente que a história da Angel e essa edição especial podem inspirar outras mulheres da cena eletrônica e do psytrance?

A história da Angel fala por si. Ela foi uma mulher que ocupou espaço, abriu caminho e deixou um legado real na cena. Então essa homenagem não é só pra lembrar quem ela foi, mas pra mostrar que é possível — que mulheres podem e devem estar no centro disso tudo. Eu sinto que, ao verem essa edição, outras mulheres vão se sentir representadas, encorajadas a criar, a liderar, a transformar. A energia da Angel continua pulsando, e agora pulsa em muitas outras também.

Parte da renda vai pra AVOC, que apoia o Cepon, hospital de câncer em Floripa. Como surgiu essa conexão social e por que era importante pra você que essa edição também tivesse esse olhar solidário?

Durante o tratamento, o Cepon fez parte da nossa rotina. A gente viu de perto o quanto a luta contra o câncer é difícil, não só pra quem passa por ela, mas pra toda a família. Então ajudar a AVOC, que apoia diretamente o hospital, foi uma decisão natural. Era importante que essa edição também tivesse esse olhar de cuidado, de devolver algo. Não é só uma festa — é uma celebração da vida, do amor e da solidariedade. E fazer isso em nome da Angel dá ainda mais sentido a tudo.

Ao longo desses anos, a Floripa In Trance se firmou como um movimento de celebração da diversidade, da arte e do protagonismo feminino. Como você vê esse impacto acontecendo na prática?

Já são 21 anos trabalhando com o psytrance. Quando comecei, esse era um universo quase totalmente masculino. Por isso, estar aqui hoje é resistência. E também referência. Acredito que nosso caminho mostra, na prática, que é possível — hoje vejo cada vez mais mulheres no backstage, no palco, nas pickups, produzindo, criando, liderando. É bonito ver esse espaço sendo ocupado com tanta força e sensibilidade.

Pra fechar, se a Angel pudesse ver tudo isso agora — a 20ª edição, o legado dela vivo, a pista cheia de amor, mulheres ocupando espaços e a comunidade se unindo — o que você acha que ela sentiria e diria pra você e pra todos que continuam esse sonho?

Tenho certeza de que ela estaria muito orgulhosa de todos nós. Honrada por ver que a homenageamos dançando, sendo felizes — exatamente como ela era. Acho que ela sentiria que estamos ali por ela, por nós e por tudo aquilo em que acreditamos quando é o amor que guia. Porque, no fim, é isso que mantém esse sonho vivo.

Foto de Dih Aganetti

Dih Aganetti

Editor-executivo e Repórter

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