DESTAQUE | Representatividade e talento na discotecagem

Foto de divulgação – Recreio Clubber.

O mercado de trabalho é historicamente machista e, assim como em boa parte das profissões, as DJs mulheres enfrentam desafios para provar seus conhecimentos, talento e assim conquistarem espaços de destaque. Dados da Brazil Music Conference (BRMC) – conferência que reúne o mercado da música eletrônica e entretenimento da América Latina – revelam que somente 1,7% das DJs atuantes são mulheres, enquanto 98,3% são homens. Já o ranking da revista britânica DJ Mag traduz essa porcentagem em números e mostra que de cem artistas que conquistaram o destaque na publicação, apenas 13 são mulheres.

“precisamos enfrentar todo o machismo que está encalacrado no preconceito da sociedade” Ella De Vuono.

A cena, apesar de ter melhorado notoriamente, ainda possui escassez de profissionais femininas. A discriminação é sentida na vivência, nas contratações, nas tentativas, nas conversas, nas negociações e, principalmente, como resultado óbvio: nos line-ups.

Em luta constante contra essa desigualdade, a DJ Ella De Vuono procura contribuir com a causa, ao levar para as suas apresentações sua habilidade de se destacar, fugindo de rótulos, entregando performances ricas de diversidade e mensagens de representatividade. Confira a seguir o bate-papo que tivemos com Ella:

Ella, primeiramente, obrigado por aceitar o convite e nos conceder esta entrevista. Conte um pouco como foi o início da sua carreira na música. Você teve alguma influência? Enfrentou muitos desafios?

Olá, obrigada pelo convite e interesse em meu trabalho.

Minha influência inicial, o ponta pé para tudo, foi a DJ de techno Mara Bruiser, pois, até então, eu nunca tinha visto uma mulher discotecando e acabou que nunca tinha parado para pensar que isso era algo que eu poderia fazer, mas minhas influências são muitas: Madonna, Marvin Gaye, Prince, David Bowie, Grace Jones, Donna Summer, DJ Marky, Laurent Garnier, Sylvester, Rita Lee.

Sim! Todos nós enfrentamos desafios e como mulher são ainda maiores, pois precisamos enfrentar todo o machismo que está encalacrado no preconceito da sociedade. E digo mais, enfrento até hoje e acredito que eles sempre existirão. A luta é constante.

Em todos esses anos de profissão, quais foram os momentos mais marcantes da sua carreira? Destaque suas conquistas mais importantes.

Acho que o mais marcante foi o dia que decidi que esta seria minha profissão, então larguei faculdade, emprego e me joguei de corpo e alma.

No decorrer, aconteceram conquistas realmente importantíssimas como ter sido campeã do Desafio DJ Brasil 2012 (que aconteceu no Warung), ter sido convidada para ser professora de DJ’s na AIMEC Campinas, ter me tornado a primeira mulher residente da festa Carlos Capslock (em São Paulo), ter sido campeã do Burn DJ Residency 2019, ter lançado a “Assédio” com a Jout Jout, e agora uma conquista gigantesca vai ser lançar minha gravadora e editora, com minha sócia Maíra Gracini: Diversall Music.

O que você busca transmitir para o público com suas produções e apresentações?

Gosto de transmitir minhas influências, de tocar as pessoas com a minha música e de provocar. Todas as minhas referências são ou foram artistas que provocaram algo, que saíram da zona de conforto, que não flertaram com a mediocridade. Os ícones que temos, os imortais, foram artistas que se posicionaram, que falavam e lutavam por causas e eu sou este tipo de artista.

Quero ser lembrada por ter feito algo relevante e não esquecida como tantos outros que fizeram o som da moda e depois desapareceram do mapa.

“…empatia sempre esteve em falta no mercado, né?” Ella De Vuono.

Foto de divulgação – Recreio Clubber.

Vejo que você utiliza muito da expressão corporal e visual em suas apresentações, como a body paint. Qual o seu propósito ao acrescentar esse diferencial à sua arte?

Meu propósito é fisgar a atenção das pessoas pela maior quantidade de sentido possível, ou seja, não só pela audição, mas também pela visão e a emoção.

A ideia é ser marcante, é provocar e ser uma experiência inesquecível para quem está na pista.

Como é a experiência de ser professora em uma escola de DJs? O quão importante foi para a sua carreira?

É uma experiência enriquecedora. Com certeza faz toda a diferença em minha carreira, pois meu nível técnico é realmente muito aguçado, muito lapidado e estou em constante aprendizado para sempre passar tudo para meus alunos.

Eu aprendo muito ensinando e muitos alunos se tornaram parceiros de trabalho ou amigos, ou as duas coisas.

Recentemente você postou um vídeo em seu canal no YouTube com sua apresentação para o festival online do TikTok, TODXS Music Festival, e ela estava carregada de mensagens sobre representatividade e ainda tinha um apelo para os DJs mais famosos da cena. Pode nos contar o que te inspirou para criar essas mensagens?

Uma inspiração, que na verdade é uma constante em minha vida, é a representatividade. Eu fico inconformada com a pobreza de diversidade nos line-ups dos principais festivais e festas do país. É sempre mais do mesmo e a maioria massacrante é de homens, brancos, héteros, jovens e que tocam um som muito parecido. Então, quando fui convidada para um festival online que levava o nome TODXS, mas tinha em sua maioria este tipo de artista, quis levantar esse questionamento, sabe?

Por que sempre os mesmos nomes? Vão dizer: porque o público consome. Mas já tentaram mostrar para o público que existe muito mais que isso que sempre mostram? Talvez o público consome porque é só isso que sempre tem.

E o apelo aos DJs mais famosos é que: vimos e estamos vendo nesta quarentena uma mínima parcela de DJs com trocentos patrocínios e, ao invés de se lembrarem o quão difícil foi para eles no começo e que agora, em plena pandemia, muitos tiveram que abandonar suas carreiras por não ter o que comer, eles fizeram lives astronômicas com trocentos mil lasers, com guindastes e fogos de artifício.

NENHUM deles pensou em usar sua popularidade e o investimentos dos patrocinadores para arrecadar dinheiro para os outros DJs que estão sofrendo muito neste momento e isso é revoltante. Isso é o resumo de tudo de cruel e errado que temos no mundo, total desigualdade e esta mudança deveria partir dos artistas que hoje estão no topo, mas empatia sempre esteve em falta no mercado, né?

Foto de divulgação – Recreio Clubber.
Parada LGBTQIA+ Campinas – Recreio Clubber.

Você está dando um novo passo em sua carreira e vai lançar uma gravadora + editora chamada Diversall Music. Pode nos dizer o que te motivou para isso?

Sim! Estou muito empolgada com esta nova etapa.

Bom, como eu disse na resposta anterior, a representatividade é uma constante para mim e prezo muito pela diversidade, por isso o nome Diversall. A ideia é dar valor à música em primeiro lugar, sem pensar em números e estilos, e sim em qualidade, focar mesmo na diversidade estética sonora e visual e ser um caminho para as pessoas ouvirem novas sonoridades de artistas que estão emergindo.

O que me motivou foi que 2020 foi o ano que eu me lancei como produtora musical com o nome de Ella, pois eu produzo há anos e tenho lançamentos como Rafaella apenas. E logo no primeiro lançamento eu tive muitos problemas com falta de conhecimento do music business da minha parte, má gestão do meu ex manager em relação à parte burocrática e, em paralelo, eu estava assinando um contrato mega abusivo para um próximo lançamento, mas que consegui pular fora antes de vender minha alma para uma gravadora de extrema má índole.

Então, minha sócia Maíra Gracini, que trabalha no meio corporativo e tem uma competência ímpar em lidar com questões burocráticas e administrativas, viu meu sofrimento e nos unimos, fazendo cursos, contatos e nos informando sobre esta parte do ramo ainda tão obscura para artistas. E com isto está nascendo a Diversall Music, gravadora e editora. Não só lançamos músicas no mercado, mas cuidamos do music business para os artistas.

O que você espera de 2021 e quais os planos para o próximo ano em um cenário otimista?

Olha, depois de 2020, expectativa é algo que está liquidado em minha vida. Continuarei sempre trabalhando para evoluir como ser humano e isso ser refletido em minha arte, em meu trabalho.

Não quero pensar em um cenário otimista, nem pessimista, apenas estou trabalhando com o cenário atual. Então, se eu conseguir me manter de forma digna fazendo o que eu amo, neste momento, já é muito privilégio.

A única coisa que tenho de certo é o lançamento da Diversall Music, em fevereiro. Estamos super abertas a conhecer novos artistas, então para quem se interessar, segue o contato: contact@diversallmusic.com.

Sets recentes:

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: