ENTREVISTA | DJ Lagoeiro e o resgate a cena eMusic de BH

Foto de divulgação.

Trazendo uma série de vertentes sonoras e referências em sua bagagem, o DJ Vitor Lagoeiro conta como trilhou seu caminho no mundo da música eletrônica.

De BH a Londres, passando também por importantes coletivos de São Paulo, ele levou seus sets para diversos clubs e festivais e compartilha aqui suas vivências e impressões sobre construção de identidade sonora, representatividade na pista, troca entre as festas e muito mais.

“eu prefiro oferecer a possibilidade das pessoas (e para mim mesmo) de presenciarem diferentes experiências em uma única jornada.” Vitor Lagoeiro.


Também Cofundador da MASTERplano, coletivo de exímia importância para a cultura eletrônica de BH, Lagoeiro nos conta como idealizou e fomentou o projeto que reavivou a cena local.

Confira agora a nossa entrevista exclusiva:

Techno, House Clássico, Breaks e Leftfield Bass são algumas das vertentes que você traz em sua sonoridade. O que você considera ser mais marcante e característico na sua identidade sonora?

Eu sinto que justamente a mistura entre os estilos pode ser essa característica. Eu já ouvi de algumas pessoas que o que as agradava em meus sets era justamente a forma como eu passeava sem muito pudor entre um estilo e outro, sem ficar preocupado em estar fazendo um set que fosse fiel só ao Techno, ou só ao House, ou só ao Electro. No começo, eu ficava inseguro em relação a isso, achando que talvez eu precisasse me entender de uma forma mais delimitada e que se ater a um estilo fosse o que garantisse com que um set fosse mais coerente, mas com o tempo fui entender que, na verdade, eu prefiro oferecer a possibilidade das pessoas (e para mim mesmo) de presenciarem diferentes experiências em uma única jornada.

Quando você idealizou o projeto da MASTERplano, em 2015, qual era sua relação e proximidade com a música eletrônica e suas vertentes?

A minha relação com música eletrônica já vinha de mais tempo. Eu sempre apreciei música dançante. Na adolescência eu era muito interessado em música com sintetizadores, desde bandas meio Indie Dance até sons de origem mais latina como o Reggaeton, que bombou muito quando eu entrei na faculdade. Em Belo Horizonte também existia o Festival Eletronika, que trazia DJs e live acts do Brasil e do mundo com frequência pra cá (que foi quando fui cair no Deputamadre pela primeira vez, rs). Mas eu apreciava meio à distância, sem entender muito sobre esse universo e sobre a cultura de pista. Até que, em 2012, fui morar em Londres com uma bolsa de estudos do governo e eu acho que foi nesse momento que eu fui conhecer melhor sobre as vertentes da música eletrônica de uma forma mais específica, simplesmente porque lá eu escutava estilos como Garage, House e Drum’N’Bass sem precisar me esforçar.

Nessa época, eu comecei a namorar um cara alemão que se mudou de volta para Berlim e eu comecei a ir pra lá com frequência nos feriados, e foi nessa ocasião que eu emburaquei de vez nesse universo, conseguindo entender melhor a diferença entre estilos e também sobre a noção de comunidade que pode nascer a partir da pista, e como isso foi importante para ajudar a transformar a energia de uma cidade com cicatrizes tão profundas de guerra, intolerância e violência. Quando eu voltei para o Brasil, em 2013, o espírito de ocupação festiva dos espaços públicos estava estourando em BH com o Carnaval, o Duelo de MCs e Praia da Estação. E, ao mesmo tempo, eu ia muito a São Paulo nessa época e frequentava festas como Voodoohop, Capslock, Metanol, que naquela época me mostraram a possibilidade de conectar a rua com a música eletrônica. E foi dessa mistura aí que eu comecei um grupo de amigos de Belo Horizonte no Facebook para trocar músicas e planos. Juntos, nós enxergarmos que BH tinha tudo pra fazer uma pista linda, viva e colorida. E assim fomos para a rua testar. Acho que deu certo.

Como você enxergava a cena eletrônica de BH até então?

Belo Horizonte é uma cidade que já abrigou muitas fases da música eletrônica. São várias as histórias de importantes clubes e raves que do fim dos anos 80 até os anos 2000 construíram uma história interessante na cidade. Mas nos anos 2010, que foi quando eu comecei a sair na cidade, eu acho que BH tinha perdido um pouco esse pique. Eu e meus amigos não nos sentíamos muito confortáveis nas festas, que eram de uma forma geral muito heteronormativas e totalmente produzidas e conduzidas por homens cis, o que influenciava muito a energia e o pensamento por trás dos rolês. Hoje em dia (antes da pandemia obviamente), eu acho que as festas já se tinham se tornado espaços muito mais seguros, acessíveis e críticos, quando comparadas com o começo da década.

Após se fixar por anos na cena local, a MASTER também levou a frente um projeto de lei de incentivo a cultura, o Festival Clubbers da Esquina. Conte um pouco sobre como surgiu essa ideia e como conseguiram a aprovação do estado.

A ideia do Clubbers da Esquina tem a ver justamente com uma inquietação sobre o fato da cena de BH ter vivido momentos áureos nos anos 90 e começo dos 2000 e, depois, ter vivido uma espécie de hiato em termos criativos e de pensamento crítico até 2015, quando a MASTERplano e outros coletivos começaram a surgir. Para nós da MASTERplano, a hipótese é que faltaram oportunidades que abordassem a festa não somente como entretenimento, mas também como cultura e, até mesmo, uma forma de pedagogia e de transformação social. E foi daí que surgiu a ideia de pensar o Festival Clubbers da Esquina, que articula música eletrônica, performance, tecnologia e pedagogia urbana em uma programação gratuita de uma semana composta por oficinas, debates e festas. O Projeto foi aprovado pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte e seria realizado presencialmente em maio de 2020. Entretanto, a pandemia chegou e nós, em um primeiro momento, adiamos o festival, pensando que o isolamento social não fosse durar tanto tempo. Agora já entendemos que não vai ter como mesmo fazer o festival presencial em 2020 então vamos realizá-lo 100% online (incluindo os cursos e os debates) nas duas primeiras semanas de dezembro. E a partir do ano que vem, podemos planejar a realização presencial de outras edições do festival se tudo der certo com as vacinas.

“Eu entendo as festas como uma espécie de utopia em relação ao mundo lá de fora.” Vitor Lagoeiro.

Foto de divulgação.

Muito da cena independente acaba trazendo uma maior representatividade de corpos insurgentes e LGBTQIA+ para dentro dos coletivos. Na sua visão qual é o papel social implícito desse movimento e como ele dialoga com as festas e eventos mais comerciais?

Eu entendo as festas como uma espécie de utopia em relação ao mundo “lá de fora”. Na pista, podemos ensaiar uma outra forma de coexistência entre as pessoas, mais acolhedora e mais amistosa. Óbvio que esse objetivo nem sempre é alcançado, porque as festas às vezes varrem para dentro de si situações de ódio e fobia que poderiam muito bem ter sido deixadas do lado de fora, mas eu acho que a incorporação de pessoas insurgentes e LGBTQIA+ como protagonistas da festa (seja na cabine, no palco, na produção) contribui para dar o recado de que ali esses sujeitos não são somente bem-vindos, mas são também respeitados e celebrados. Óbvio que isso não resolve nenhum problema estrutural, mas, na minha opinião, já contribui para que a festa seja pelo menos um lugar seguro para todas as pessoas que desejarem estar presentes. Isso pode parecer trivial, mas em um lugar como o Brasil, em que essas violências são tão naturalizadas, eu penso que nós devemos nutrir com muita garra esses espaços seguros.

“…as discussões entre as pessoas que pensam e fazem a noite se intensificou ainda mais pela necessidade de pensarmos soluções para a crise que estamos todos atravessando.” Vitor Lagoeiro.

Foto de divulgação.

Você já tocou nas festas de São Paulo como a Mamba Negra, Carlos Capslock, ODD e Caldo. Fale sobre sua relação com os coletivos de SP e como acontece essa troca entre os artistas de cada estado.

Desde o começo da MASTERplano, nos conectamos com outros coletivos e produtores não somente de São Paulo, mas de várias outras cidades do Brasil. Acho que para além do intercâmbio de artistas, que é muito importante para viabilizar nosso trabalho como DJ, essa conexão serve também para compartilharmos experiências e conhecimento, o que para mim talvez seja a parte mais especial dessa história. Acho que se não fossem essas trocas, o Brasil não teria cenas tão ricas de norte a sul. Acho que isso ficou super evidente durante a pandemia, pois a troca e as discussões entre as pessoas que pensam e fazem a noite se intensificou ainda mais pela necessidade de pensarmos soluções para a crise que estamos todos atravessando.

Em suas vivências internacionais nos clubes de Dalston Superstore, em Londres, e o Salon zur wilden Renate, em Berlim, o que você sentiu do público quando tocou nesses locais?

De uma forma geral, eu senti uma boa recepção do público. Foram duas ocasiões em que eu fiz mais questão de tocar músicas feitas na América Latina, o que me deixou seguro por saber que eu poderia estar trazendo músicas que aqueles públicos ainda não conhecessem. Eu fechei as duas festas em que toquei e isso foi bom porque no final as pessoas estavam felizes e gritando, então eu acho que deu certo, rs. Mas esses dois clubes têm atmosferas muito familiares e as pistas estavam super animadas, então eu sinceramente me senti em casa, no Deputamadre. Foi maravilhoso.

Quando a pandêmia surgiu, vimos muitos artistas ressignificarem suas artes através das redes sociais. Como tem sido esse momento para você enquanto DJ e artista?

Eu aproveitei esse hiato das festas para me dedicar um pouco à produção musical, que é uma prática que eu sempre deixava para depois por falta de tempo. Eu peguei algumas aulas com amigos super talentosos e comecei a criar as minhas próprias faixas. Acho que até o final do ano já vou ter lançados algumas coisas por aí. Além disso, eu também tive mais tempo para me dedicar a A-MIG, que é um projeto que começou como uma plataforma de mixtapes e agora está aos poucos se configurado como uma label, lançando alguns artistas que nos inspiram muito! Ah, e eu também faço parte do Micrópolis, um coletivo de design e educação do qual eu participo com a Belisa Murta, minha companheira de MASTERplano. Nós também aproveitamos esses tempos para dedicar um pouco mais a esses projetos. Em relação às redes sociais, para ser bem sincero, eu não sei se eu soube ou quis explorar isso muito. Acho que na pandemia eu estou vivendo uma exposição excessiva às telas e isso acaba fazendo com quem eu prefira gastar mais tempo off-line.

E o que você enxerga nesse momento para você o futuro das festas?

Ah, eu não gosto muito de bancar o futurólogo, então vou ser bem básico. Eu espero que a gente consiga em breve se reunir com segurança de novo porque deu muito trabalho (para todas e todos nós) construir essa cena em BH e nós não queremos que ela perca seus ânimos tão cedo. E no mais, acho que é importante estarmos abertos para continuar fazendo a música acontecer da forma que for possível, segura e economicamente viável (para nós e para o público), sem ficar idealizando coisas que talvez, em um primeiro momento, não vão estar ao nosso alcance.

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