DESTAQUE | THIAGO MELLO: A Alquimia entre o Vinil e a Macumba Eletrônica

Do palco do Juntatribo ao fenômeno das pistas brasileiras: conheça o DJ que uniu o “wall of sound” dos anos 90 ao sagrado dos terreiros.

A história de Thiago Mello se confunde com a própria história da cena alternativa brasileira. Nesta edição da Colors DJ Magazine, mergulhamos na trajetória do artista que, aos 19 anos, já assinava a curadoria de festivais lendários como o Juntatribo, lançando nomes como Raimundos e Planet Hemp. O texto percorre sua jornada da infância em Campinas a um programa de rádio em Sydney, revelando como ele se tornou um dos maiores defensores do vinil e, posteriormente, um mestre em transpor a música de matriz africana para o soundsystem moderno, criando uma experiência de pista que é, ao mesmo tempo, ancestral e futurista.

Thiago é um curador por excelência. Sua assinatura sonora é um “passeio” por BPMs e estilos que desafiam o purismo: do Dub ao Amapiano, tendo sempre a Música Brasileira como espinha dorsal. Conhecido por fundar a “Festa Macumba” em Curitiba — um fenômeno que transformou pontos de ijexá em hits de clube —, Thiago utiliza uma técnica única de masterização em WAV para garantir que a espiritualidade dos tambores chegue ao PA com o peso necessário. Artista autista com hiperfoco na discotecagem, ele desenvolveu uma segurança ímpar na leitura de pista, provando que a “Macumba Eletrônica” é uma das forças mais potentes da cultura clubber atual.

A influência das fitas cassete na infância, a volta do vinil em Curitiba e a lição aprendida com mestres como Tahira e Tatá Ogan são os pilares deste bate-papo histórico. Thiago abre o jogo sobre sua mudança para Florianópolis, a superação de barreiras na comunicação através da música e seus planos ambiciosos de levar seu som para os grandes festivais de 2026. Confira agora o nosso conteúdo DESTAQUE completo e entenda como este “maestro do underground” está redesenhando as possibilidades do Open Format no Brasil.

Thiago, você começou aos 12 anos e produziu o lendário Juntatribo em 93. Como essa vivência no coração da cena alternativa dos anos 90 moldou sua visão de “curadoria” e “atitude” hoje?

Eu comecei a tocar com 12 anos porquê meu irmão fazia umas festas no bairro, ele montava o equipamento, tocava 4 músicas e ia curtir a festa, quem ficava tocando mesmo era eu. Cresci em uma casa com muitos discos e cultura. O Juntatribo nasceu em 1993 com um conceito multimídia que depois apareceu nas Raves. Essa vivência foi determinante; ali soube que estaria envolvido com música para sempre. Hoje aplico a estética sonora do underground 90, o “wall of sound”, em meus sets como DJ, principalmente pelo uso de equipamentos que me permitem colocar efeitos similares aos que curtíamos na época.

Você é um dos responsáveis por “forçar” a volta do vinil em Curitiba. Por que era tão vital manter essa tradição viva?

Sou um apaixonado por vinil! Em 2013, quando voltei a Curitiba, comecei a levar os LPs para os bares. A cena de vinil tinha perdido espaço e muitos diziam que era cafona. Eu insisti tanto que acabou virando moda e uma nova cena se criou na cidade. O vinil me ensinou a alma da música de pista: o bass. Saber equalizar um bom bass em um PA é o diferencial de qualquer DJ, e aprendi isso com a agulha no sulco do disco.

Como foi o processo de precisar sair do Brasil para enxergar a potência da nossa própria sonoridade em uma rádio na Austrália?

Foi em 2000, no programa Brazil SOS Brasil em Sydney. O locutor australiano me cobrou: “Como pode você, brasileiro, com a melhor música do mundo, gostar de rock?”. Aquilo me “bugou” e passei a ver que ele tinha razão. Comecei a programar o show, tocar meus vinis e ali aconteceu a mágica da música brasileira na minha vida.

A “Festa Macumba” é um fenômeno rítmico. Como o público reagiu a essa mistura sagrada na primeira vez que você a levou para a pista?

Aconteceu aos poucos no bar Soy Latino. Eu tocava ijexás e pontos de macumba no vinil e o povo amava. Quando começaram a surgir os remixes eletrônicos de macumba, como os do Tahira e da Tatá Ogan, a coisa explodiu. Já vi B-boys querendo dançar comigo tocando macumba eletrônica e professoras de colégio gritando por “Macumba!” na pista. Há uma magia nesse som que faz o público cantar e vibrar intensamente.

Como foi para um colecionador purista aceitar o digital e como isso expandiu seu set?

Mudou tudo! O digital me permitiu incluir mixagens que antes eu não conseguia. Hoje toco tudo em WAV de alta fidelidade para que o som soe tão potente quanto o vinil no PA. Desenvolvi técnicas para masterizar as tracks, ressaltando percussões e desenhando o baixo para que a experiência seja forte sem ser agressiva. O arquivo digital permitiu que eu incluísse a música brasileira contemporânea, que muitas vezes não sai em vinil.

Você dividiu cabine com mestres como Tahira, Ubunto e Lucio K. Qual foi a maior lição que aprendeu com eles?

A lição de que sou capaz. Sou autista e sempre tive dificuldade de comunicação, mas o hiperfoco me ajuda na leitura de pista. Ver a Tatá Ogan arrasando na pista me mostrou que dava para fazer. Cada um desses artistas possui técnicas diferentes e provam que a nossa música deve estar nas pistas. Eu só toco macumba porque eles abriram esse caminho antes de mim.

Qual o segredo para fazer uma pista “ferver” com estilos como Amapiano, Arabic House e Dub?

O segredo é a música brasileira! Ela é a base que me permite transitar entre vários BPMs e estilos. O ouvido do público evoluiu e não dá para tocar hoje como se tocava em 2005. Me orgulho de ser um dos poucos DJs que conseguem segurar uma noite inteira bombada apenas com música brasileira contemporânea, sem precisar de hits gringos.

Recentemente você se mudou para Florianópolis. Como está sendo o desafio de “recomeçar”?

Está difícil me inserir na cena local, mas foi importante para diminuir o ritmo e ter uma vida saudável. O legal é que esse tempo me ajudou a melhorar minhas masterizações e produções de edits autorais. Quero levar meu som para outras pistas em São Paulo, Rio, Salvador. O Brasil é grande demais para eu me fixar em um só lugar.

Qual a importância de “personalizar” o set com edits exclusivos em um mercado tão competitivo?

É o meu diferencial. Este ano tive um remix de uma música do João Gomes (na voz da Mãeana) que viralizou no YouTube e recebi muitos elogios. Gosto de cortar, brincar com o som e dar o meu toque. Em 2026, sai um remix que fiz para o Ubunto que ficou bem bacana.

O que o Thiago Mello de 2026 está preparando para levar a “Música Brasileira de Matriz Africana” para o mundo?

O set está tinindo de músicas novas! Estou preparando vídeos de sets ao vivo para abrir portas pelo Brasil. Quero tocar no Rio, São Paulo, BH, Recife… cidades com cenas vibrantes onde a “macumba” ainda tem muito espaço para crescer. Penso que posso contribuir para levar mais axé para as pistas de dança do Brasil. Festivais e mercado internacional virão como consequência.