DESTAQUE | RODRIGO LOBBÃO: 30 Anos de Legado e Vanguarda

Do vinil ao digital, de Brasília a Fortaleza: a trajetória do pesquisador que transformou o Ceará em um celeiro do underground e continua ditando o ritmo das pistas.

Poucos artistas podem dizer que viram a história ser escrita enquanto a protagonizavam. Nesta edição da Colors DJ Magazine, celebramos os 30 anos de carreira de Rodrigo Lobbão, uma figura central que atravessou a transição do analógico para o digital sem perder a essência. O texto percorre suas raízes em Brasília, influenciadas pela audição apurada de seu pai, até sua consolidação em Fortaleza, onde fundou o coletivo Undergroove e ajudou a colocar a capital cearense no mapa mundial da música eletrônica. Lobbão reflete sobre a importância da pesquisa musical profunda em tempos de algoritmos e como a semente plantada nos anos 90 floresceu em um cenário vibrante e diverso.

Rodrigo é a personificação da resiliência e da evolução constante. Com uma bagagem que mistura Rock, Disco Music, Freestyle e House, ele construiu uma identidade baseada na narrativa e na conexão real com a pista. Mentor de gerações e articulador nato, ele foi peça-chave na rede Pragatecno, unindo o Norte e o Nordeste em torno da cultura clubber. Em 2025, celebrou suas três décadas de estrada com o projeto “Lobbotomia”, provando que o formato de long set e a curadoria refinada são atemporais. Lobbão não é apenas um DJ; é um guardião do feeling, um comunicador que entende o som como um processo de construção emocional contínua.

A influência vintage dos anos 80, o desafio de criar uma cena do zero em Fortaleza e o segredo para se manter relevante por 30 anos são os temas desta conversa magistral. Rodrigo Lobbão compartilha lições valiosas para os DJs de 2026, reafirmando que o amor pela música deve ser sempre o protagonista. Confira agora o nosso conteúdo DESTAQUE completo e conheça os planos deste ícone que, ao lado de seu filho DeFarias no projeto Family Tree, prova que a caminhada do bom som não tem fim.

Rodrigo, são 30 anos de carreira. Como é para você olhar para o cenário de 2025 e ver que a semente que você ajudou a plantar lá atrás floresceu desse jeito?

Primeiramente, é um prazer conversar com a Colors DJ Magazine. A palavra que define esse momento é gratidão. Gratidão por ver tudo isso acontecendo e perceber que Fortaleza e o Ceará se transformaram em um verdadeiro celeiro de artistas: produtores, DJs e um cenário vivo, que vai de grandes festas a pequenos eventos underground. Hoje existe pluralidade e uma cena que se sustenta. Ver isso em 2025 é perceber que aquela semente realmente criou raízes fortes.

Sua influência veio de casa, com o equipamento vintage do seu pai. Qual é a memória mais viva daquela época e como aquele som “oitentista” ainda aparece nas suas escolhas hoje?

Fui muito abençoado. Meu pai é audiófilo até hoje e nunca abriu mão do seu equipamento vintage. Tenho lembranças fortes dos finais de semana da infância, com ele colocando discos de rock, disco music, MPB, samba raiz e forró. Isso me marcou muito, somado à convivência com primos mais velhos que ouviam o “balanço”. Ali, aos 11 anos, aconteceu o despertar para o freestyle, Miami Bass e House Music. Esse som aparece nas minhas escolhas até hoje, seja na estética ou no respeito à pista.

Você começou em Brasília e se tornou central em Fortaleza. Como foi o desafio de iniciar uma cena do zero na capital cearense, produzindo as primeiras raves em um terreno inexplorado?

Saí de Brasília aos 17 anos. Lá eu estava no processo embrionário, absorvendo tudo de DJs fundamentais como Elyvio Blower e Celsão. Mas foi em Fortaleza que minha carreira realmente começou: residências todo fim de semana, rádio e internet ainda engatinhando. Foi aqui que tudo ganhou corpo.

Qual a importância de ter trabalhado no coletivo “Undergroove” para fortalecer o underground e ditar o ritmo do que a cidade é hoje?

O Undergroove foi um divisor de águas. Éramos amigos insatisfeitos com a conjuntura da época: as mesmas músicas, zero risco. Então nos organizamos, criamos festas e um portal de informações. Nos conectamos ao Pragatecno, que virou uma rede de ideias com coletivos do Norte/Nordeste inteiro. Vale lembrar que antes do Undergroove já existiam trabalhos importantes de DJs como Fran Viana e a produtora Disco Voador, que trouxe DJs holandeses nos anos 90.

Como pesquisador, qual o segredo para manter o “feeling” de busca por sons novos sem se deixar levar apenas por tendências passageiras?

Confiar, acima de tudo, na sua pesquisa e no seu feeling, mais do que seguir trends ou hypes. É importante estar atualizado, mas a pesquisa deve ir em várias direções: tanto nas tracks lançadas no dia quanto em músicas do passado que não foram exploradas no seu tempo ou que hoje fazem mais sentido do que antes.

Qual foi o momento mais emblemático desses 30 anos em que você sentiu que Fortaleza tinha finalmente entrado no mapa mundial do underground?

Tivemos vários momentos. Nos anos 2000, eventos como o Ceará Music e o FW Electronics colocaram a cidade no radar dos grandes festivais. Houve edições com nomes como Marco Carola, Adam Beyer e Valentino Kanzyani. Hoje vemos novamente grandes produtoras investindo em megaeventos e empresários apostando em clubs voltados ao underground. A cena segue em movimento.

O que os novos DJs de 2026 poderiam aprender com a cultura das raves dos anos 90 e 2000 que se perdeu com o tempo?

Amar mais a música. Ela é a protagonista. Em tempos de streaming, é essencial entender e respeitar o processo. Use IA, use tecnologia, mas entenda que nem tudo é imediato. Vejo muitos jovens frustrados porque os gigs ainda não apareceram. É preciso agir: criar festas, coletivos, se movimentar. Uma hora, o retorno vem.

Como a experiência no rádio influenciou sua forma de construir um set? Você ainda o pensa como um programa com começo, meio e fim?

São universos diferentes. No rádio, o foco era apresentar tendências e falar de artistas. No clube, não existe nada engessado. Ainda assim, acredito muito na ideia de construção. Um set precisa ter narrativa e climas diferentes, principalmente em long sets, onde você conduz a pista por várias camadas emocionais.

Se você tivesse que escolher uma única track ou álbum que resuma esses seus 30 anos, qual seria?

Essa é difícil… (risos). São muitos, mas se tivesse que escolher um álbum que resume bem quem é o Rodrigo Lobbão, seria “Unreasonable Behaviour”, do Laurent Garnier.

O que o Rodrigo Lobbão de 2026 está preparando? Podemos esperar novos projetos vindo de Fortaleza?

Em 2025 comemorei os 30 anos com o projeto Lobbotomia, tocando a noite inteira em formato long set. Para este ano, pretendo seguir com a Lobbotomia, dar continuidade ao Family Tree (com meu filho DeFarias), focar mais em produção musical e continuar tocando na cidade e em outros estados. A caminhada continua.