Do toca-fitas na infância às pistas e projetos que mudam a cena eletrônica no Nordeste.
Nadejda construiu sua trajetória na música eletrônica a partir de uma paixão que atravessou décadas, fones de ouvido, discos e pistas de dança. À frente do selo MaddaM, ela vem transformando o cenário clubber e underground de Recife e do Nordeste, criando espaços onde mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ têm protagonismo garantido, não só nas cabines, mas também nos bastidores e no mercado da música.
A artista pernambucana é figura essencial na cena underground, com sets que cruzam house, techno e sonoridades que carregam identidade, representatividade e resistência. Seu som reflete tanto suas raízes quanto sua visão de futuro, criando pontes entre público, pista e cultura.
Na entrevista especial da Colors DJ Magazine, confira como essa história foi construída e como segue abrindo caminhos. De projetos transformadores a grandes festivais, esta é a trajetória de quem é DESTAQUE quando o assunto é fazer a música eletrônica pulsar com sentido e propósito.
Lá no comecinho… Quando foi a primeira vez que você se lembra de ter se apaixonado por música? Foi naquela fase futucando os discos do seu primo ou teve algum outro momento que marcou?
A paixão pela música vem desde cedo.. não consigo apontar um momento em específico, acredito que foi uma construção. Meus pais tinham gostos musicais bem distintos. O rádio foi meu primeiro veículo de descoberta e experimentações. Depois com a chegada do meu primeiro computador fui aprendendo a usar outros recursos e a coisa só evoluiu.
Do Gradiente Avanti às mixtapes… Como era esse seu laboratório musical na infância e adolescência? Já rolava uma curadoria ali ou era tudo na base da curiosidade e da diversão?
Eu ouvia muito rádio e ficava esperando pelos lançamentos musicais de alguns programas para gravar em fita as minhas canções favoritas. Gostava de criar mixtapes e colocar pra ouvir depois só com as melhores daquele mês (ou que eu considerava como sendo “as melhores”. Pra mim, era uma diversão passar a tarde depois da escola fazendo isso. Hoje eu entendo que eu já estava alí o comecinho de um processo de depuração auditiva que mais tarde seria uma parte importante da minha trajetória como DJ.
Violão, baixo, bandas de garagem… Em que momento você começou a se entender como alguém que não só consumia música, mas também criava e experimentava ela de dentro pra fora?
Na adolescência veio muito forte esse desejo por fazer música, tocar instrumentos e sentir mais profundamente essa conexão. Estudei por algum tempo, tive uma banda de garagem formada só de meninas, mas não cheguei a levar muito adiante. Sempre foi mais algo mais para mim e entre minhas amigas. Logo vieram as cobranças familiares relacionadas a estudo e vida profissional que me fizeram desistir do sonho de gravar disco, cair na estrada em turnê, essas coisas. Eu tinha que focar em construir uma profissão sólida e acabei enveredando para uma área totalmente diferente que foi o Direito.
Da música pro Direito… e de volta pra música. Como foi essa virada de chave? O que te fez largar a estabilidade da carreira acadêmica pra se jogar de vez na cena cultural e musical?
Mesmo durante a faculdade de Direito eu frequentava festas de música eletrônica, tinha alí meu interesse por discotecar e tudo corria em paralelo. Já durante o mestrado em Direito eu comecei a trabalhar na área e com a grana que ganhava pude finalmente investir nesse desejo, então fui fazer cursos e adquirir equipamentos, tinha meus dias de me trancar no quarto para criar sets e postar no SoundCloud pros amigos ouvires. Mesmo que ainda vendo isso como um hobby, naquele momento já era uma realização pessoal pra mim, mas que na minha cabeça talvez nunca saísse do meu quarto. Em paralelo ao trabalho como professora no curso de Direito eu já tocava numa festa ou outra de amigos, em âmbito privado. Já tinha alí uma pesquisa voltada para house music, techno, anos 80, synthwave.. e sempre queria descobrir e tocar mais músicas produzidas por mulheres. E aí a vida trouxe uma reviravolta inesperada: a faculdade em que eu trabalhava trocou a maioria do corpo docente após uma fusão com uma universidade estrangeira e me colocou em um momento de transição de carreira. Foi aí que eu peguei o dinheiro da rescisão e investi tudo em equipamento de DJ. Isso foi em 2014 para 2015. Eu tinha acabado de finalizar o curso de DJ Profissional pelo Instituto de Música Eletrônica de Pernambuco.
A chegada na música eletrônica… Quando e como a discotecagem entrou na sua vida de forma profissional? Teve algum set, algum curso ou alguma noite que foi o start real?
Olhando pra trás eu sinto que a vida se encarregou de me colocar num momento de tudo ou nada. Eu tinha recém terminado o curso de DJ Profissional e me vi sem emprego. O curso de DJ me deu mais controle e confiança sobre a performance e foi pra mim o momento que eu entendi que eu queria levar aquilo adiante de maneira profissional. Eu decidi que iria fazer aquilo dar certo, de algum jeito. A vida deu um empurrão e eu mergulhei de cabeça. Mas aí eu esbarrei numa dificuldade absurda de ser aceita nos line-ups das festas que já ferviam na cidade. Eu gravava sets, enviava semanalmente para os amigos e também para os produtores de eventos e até recebia ótimos feedbacks, mas as respostas eram quase sempre evasivas, do tipo:
“na próxima a gente te chama”, “o line já tava fechado”, “seu material é bom, mas dessa vez não rola.. quem sabe numa próxima?!”
O processo de me tornar DJ profissional foi de muita persistência e ainda continua sendo.
Nascimento da MaddaM… Qual foi o momento exato que você decidiu criar a MaddaM? Era mais um grito de resistência, uma vontade de ocupar espaço ou uma mistura de tudo isso?
Em 2015 a MaddaM era apenas uma ideia, de juntar pessoas em torno da Música, das Artes e da Dança. A palavra MaddaM é o palíndromo formado por Música, Artes e Dança. Eu queria criar experiências com essas linguagens, mas isso era só mais um projeto pessoal que provavelmente não sairia do papel… mas que foi ganhando vida nos encontros com outras DJs. A MaddaM veio como uma resposta àquela negação de espaço. Como eu disse eu gravava set toda semana, enviava para produtores de tudo quanto era festa e nada.
Em 2017 uma amiga abriu um bar no centro do Recife e foi aí que as coisas foram tomando forma. De tanto ouvir Não, de tanto ver artistas talentosas sempre de fora dos lines eu decidi fazer uma festa só com mulheres tocando e produzindo.. Já que ninguém dava espaço, vamos lá criar o espaço. A primeira festa da MaddaM foi lançada próximo do meu aniversário, usei esse argumento para fazer meus amigos aparecerem para ver um line up praticamente desconhecido, formado só por mulheres.
Depois da primeira festa logo apareceram pessoas perguntando como poderiam aprender a tocar e aí eu comecei a dar oficinas de Discotecagem como uma forma de trazer mais integrantes. As oficinas de formação de DJs, gratuitas para mulheres e pessoas trans, e a realização de eventos só com mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ em toda a produção era algo inédito. A MaddaM surgiu como um movimento em várias frentes. A gente formava, lançava e acompanhava a jornada das novas DJs. O site oficial www.maddammusic.com lançamos no mesmo ano, para termos uma página própria de conteúdo. Comecei a criar um perfil para cada DJ, com informações e espaço para contato e booking. A ideia foi crescendo.
Projetos como o Medusa, o LAB e o Techtrônica… Olhando pra esses 8 anos de história com a MaddaM, qual realização te dá mais orgulho quando você para pra olhar pra trás?
Olha, eu entendo que são realizações complementares entre si e todas elas trazem uma satisfação imensa. Cada uma é um espaço de criação e ocupação importante. O MaddaM LAB eu vejo como uma ferramenta de transformação, pois é a partir dele que muitas mulheres e pessoas trans tem o primeiro contato com o universo da música eletrônica. Assim, conseguimos atrair mais pessoas para dentro da cena musical com formação em discotecagem, produção musical, music business e técnica de áudio.
É gratificante ensinar um pouco do que sei para quem está começando e ver que algumas DJs que hoje estão no nosso casting, tocando em várias festas, começaram nas nossas oficinas.
O programa de rádio Techtrônica foi conquistado via seleção por edital, mas nele tivemos uma oportunidade única de explorar pesquisas sonoras e de contexto histórico para levar ao público ouvinte a história a partir do olhar de quem nunca a protagonizou ou teve reconhecimento sobre suas contribuições. Fazer rádio é de uma responsabilidade gigantesca! A gente tinha um compromisso com a pesquisa e com trazer a informação para a massa, e mais ainda: o compromisso de dar voz às mulheres que tiveram suas trajetórias apagadas na música eletrônica.
No nosso primeiro programa, remontamos os primeiros passos na direção da história da música eletrônica, ressaltando a importante participação das mulheres no desenvolvimento de criações tecnológicas que influenciaram e transformaram a estética sonora ao longo do tempo. O programa de estreia traz referências históricas que consagraram a música eletrônica, trazendo também uma tracklist que reconta toda essa história através da música.
Cada ação traz uma satisfação diferente para todas as envolvidas. Em cada projeto uma equipe diferente, mas sempre conectadas pela vontade de realizar um propósito maior.
A cena eletrônica de Recife e do Nordeste… Como você enxerga a evolução da cena clubber e underground da sua região? O que ainda falta acontecer e o que você acha que já é motivo de comemoração?
A cena tem crescido ao longo dos anos, muitas festas novas vem surgindo e mais núcleos voltados para música eletrônica vem ganhando destaque no cenário local. Pena que ainda faltam mais mulheres nos line-ups. De uns anos pra cá algumas festas colocam uma mulher ou pessoa trans no line, mas ainda é um contingente simbólico. Acredito que podemos melhorar esses números.
Prêmios, festivais e reconhecimento… Como foi subir no palco de tantos festivais importantes nos últimos anos? Qual foi aquele momento que fez você pensar: “É… eu cheguei”?
Olha eu já toquei em festivais incríveis, para milhares de pessoas, ganhei 1º lugar em competições de discotecagem e me sinto feliz e honrada por todas essas conquistas, mas sempre acho que ainda tem muito por fazer.
Gosto de tocar para o grande público mas adoro pistas intimistas também, onde temos uma proximidade maior com os dançantes e sentimos mais de perto a energia do público.
Tocar no Carnaval do Recife sempre tem algo de especial para mim pois me permite conectar com um público muito diverso e que só acontece alí, naquele momento.
Esse ano fui selecionada para o grande Festival Pernambuco Meu País onde viajei para Caruaru para abrir shows de artistas que admiro como Joyce Alane (PE), Criolo e IZA.



Das minhas últimas apresentações a MIMO foi muito emocionante e bem especial para mim, por ter sido na cidade onde eu cresci (Olinda), e o local onde eu toquei, foi justamente o Coreto Histórico da Praça do Carmo, onde minha mãe me levava pra brincar quando criança, então teve uma energia diferente e foi muito muito muito especial. Alguns amigues foram com a camisa da MaddaM e a produção ainda colocou a logo da MaddaM e minhas fotos num telão gigantesco enquanto eu me apresentava. Nossa, eu me emocionei em vários momentos dessa apresentação.
O futuro que vem aí… Quais são os próximos sonhos e planos? Tem novos projetos com a MaddaM? Novas pistas pra dominar? Produções próprias vindo aí?
Como DJ eu pretendo investir na circulação do meu trabalho para outras regiões.
Dia 27/06 recebemos pelo segundo ano o selo “Empresa que Valoriza a Diversidade” concedido pela Comissão da Diversidade Sexual e de Gênero da OAB/PE e comemoramos com uma grande festa no dia 28/06 dia do orgulho.
Foi uma grande celebração da diversidade e uma reafirmação nossa desse compromisso com o protagonismo de mulheres e pessoas trans na cena eletrônica.
Os próximos planos incluem nosso fortalecimento enquanto selo, com o lançamento de álbum com produções inéditas de artistas da coletiva.
A abertura de um novo estúdio no centro do Recife, para receber DJs, produtoras musicais, criadoras de conteúdo para rádio e podcasts. Queremos ser um espaço de democratização do acesso à tecnologia aplicada à música.
Ainda quero alcançar outros lugares com meu trabalho e desejo tocar para públicos diferentes, em setembro desse ano fiz turnê em São Paulo onde me apresentei em casas incríveis como o Club Jerome e a D-Edge, além do Gaspar e Bandeira Bandeira, mas, acima de tudo isso, eu queria mesmo era fazer o mundo enxergar a potência das artitas que temos aqui no Nordeste e o quanto nossa maneira de fazer arte é única.
Fechei o ano de 2025 participando do maior evento da indústria criativa. O MICBR Ibero-América como membro integrante da Delegação de Música, representando Pernambuco ao lado de outros conterrâneos para apresentar a MaddaM num encontro internacional de empreendedores criativos.
“O Mercado das Indústrias Criativas do Brasil (MICBR) + Ibero-América 2025 é um grande evento de negócios do setor produtivo cultural no país e um dos eixos centrais da política do Ministério da Cultura (MinC) para impulsionar os mercados criativos. Mais do que um evento, é um espaço dinâmico onde ideias, negócios e talentos se encontram com o objetivo de fortalecer os setores criativos, abrir caminhos para que produtos e serviços culturais circulem dentro e fora do Brasil, e profissionalizar quem faz a cultura acontecer. A cada edição, o Mercado reúne centenas de empresas, milhares de criadores e empreendedores – além de atrair olhares internacionais para o que o Brasil produz de mais inovador em cultura.” – Fonte: site do Ministério da Cultura.
Diante de tanto esforço e muitas conquistas eu só tenho a agradecer a todes que contribuíram nessa jornada ainda em construção e me coloco o desafio de fazer ainda mais em 2026, pois a MaddaM é muito mais do que uma produtora, um estúdio, uma escola ou um selo de música eletrônica.. a MaddaM é para mim um propósito de vida!É uma ferramenta de transformação para mim e para muitas.
Depois de 8 anos, eu sinto que ainda estamos só começando.Então que venha 2026, pois temos muito mais sonhos a realizar!
Os próximos planos incluem nosso fortalecimento enquanto selo, com o lançamento de álbum com produções inéditas de artistas da coletiva. Ainda quero alcançar outros lugares com meu trabalho e desejo tocar para públicos diferentes, mas, acima de tudo isso, eu queria mesmo era fazer o mundo enxergar a potência que temos aqui no Nordeste e o quanto nossa maneira de fazer arte é única. E ainda teremos a festa de 8 anos para fechar o ano de 2025.
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