Da mixagem de cinema ao “ilusionismo sonoro” das pistas: conheça o DJ que transformou o rigor técnico e o som 100% autoral em sua maior marca registrada.
Marcos Campos não apenas toca; ele dirige a pista. Nesta edição da Colors DJ Magazine, apresentamos o perfil do artista que transpôs sua bagagem multidisciplinar no teatro, cinema e publicidade para o centro da cabine. Com uma trajetória que une a precisão da mixagem de áudio para TV ao universo hard e fetichista do Tribal House, Marcos se destaca por uma escolha radical: entregar apenas material que passou por suas mãos. O texto explora sua ascensão meteórica — que o levou de iniciante a headliner internacional no Chile em tempo recorde — e sua visão cerebral sobre a “revolução musical”, onde a harmonia é a regra inegociável e a surpresa é a ferramenta principal.
Marcos é o que chamamos de artista criador. Enquanto muitos se apoiam em fórmulas prontas, ele mergulha no Ableton Live para garantir que cada drop seja uma quebra de expectativa positiva. Ex-residente e produtor da TUNTS em Curitiba, ele utilizou o clube como laboratório para refinar uma técnica de otimização de áudio que hoje é sua assinatura. Independente por natureza e ambicioso por vocação, Campos transita entre o Tribal e o Underground com a mesma fluidez de um ator que muda de personagem, sempre zelando pela narrativa emocional do set. Ele representa a vanguarda técnica que entende a música eletrônica como uma experiência teatral: ensaiada, potente e absolutamente inédita.
A descoberta de que o software de cinema era o mesmo da música eletrônica, o impacto de seu álbum manifesto pela E-Pride Music e o “batismo” decisivo na Victoria Haus são alguns dos temas desta entrevista profunda. Marcos abre o jogo sobre os custos de manter uma identidade autoral e revela seus planos para 2026, incluindo um projeto misterioso que promete desafiar as fronteiras entre o sagrado e o proibido. Confira agora o nosso conteúdo DESTAQUE e entenda por que o som de Marcos Campos é um segredo que o Brasil e o mundo estão descobrindo agora.
Sua relação com a arte começou no teatro e cinema. Em que momento percebeu que o som seria uma ferramenta de expressão tão forte quanto a imagem?
A música sempre esteve presente, mesmo no teatro musical e na propaganda, onde compus jingles e trilhas. Se hoje sou produtor, devo isso à trajetória na mixagem de áudio para teatro e TV. Eu ainda não pensava em ser DJ quando descobri, através do Rodrigo Maia, que o Ableton Live — que ele usava para música eletrônica — era o mesmo que eu usava para cinema. Eu já dominava o software! Esse “click” acendeu a luz para o meu caminho como DJ.
Como seu repertório multidisciplinar em roteiro, direção e mixagem moldou sua forma de produzir e tocar?
Venho de um lugar onde o rigor técnico fala alto. Sou o tipo de DJ que ensaia e marca pontos de transição com o afinco de um ator decorando marcação de cena. Para cada pista, tenho um repertório planejado. Se preciso mudar a estratégia ao vivo, uso tracks que chamo de “revolução musical” para migrar de estilo. Outro ponto inflexível: se não respeita a harmonia, não é mixagem. “Mixagem Harmônica”, para mim, é um pleonasmo.
Ao trabalhar com som para cinema e publicidade, você aprendeu a contar histórias. Como essa narrativa migrou para a pista?
Sempre zelei para que minha construção fosse coesa. O set conta uma história não-verbal, uma progressão entre emoções. Uma emoção sustenta a outra. Assim como no teatro há um caminho para ir da fúria à lágrima, na eletrônica há um caminho para ir da alegria à euforia. E, como num drama existe o alívio cômico, na noite o DJ precisa deixar a pista respirar. Mais importante que contar a história, é o “como” você conta.
O que o álbum “Hard Boys, Hard Beat, Hard Bitches” representa na sua trajetória?
Esse álbum leva o nome da minha primeira original mix no tribal. O vocal evoca meu lugar favorito: o universo hard, fetichista e contracorrente. A proposta é um resgate da psicodelia na cena erótica. Lançar por uma gravadora célebre como a E-Pride Music apenas seis meses após começar a tocar foi estratégico; os bastidores começaram a me observar de perto e consegui me apresentar ao mercado já com essa chancela.
O que o período na TUNTS, em Curitiba, te ensinou sobre curadoria e identidade?
Eu ainda era iniciante e foi um privilégio ter esse laboratório para exercitar meu repertório toda semana. Como eu também era sócio e produtor, aprendi a ver o ofício do DJ pelo lado de quem contrata, o que me ensinou muito sobre conduta profissional. A afinidade com o sistema de som também me ajudou a desenvolver técnicas de otimização de áudio ao vivo usando recursos da CDJ.
Qual foi o momento em que você sentiu que seu som tinha atravessado fronteiras?
Minhas primeiras gigs eram no Sul e Centro-Oeste. A virada foi em Brasília, num extend após a Festa da Lili na Victoria Haus em 2023. Grandes produtores estavam presentes e a repercussão foi tamanha que saí de lá com datas fechadas em SP e no RJ. Ali os ventos mudaram. Depois vieram os convites da Nitro Party para estrear no Chile como headliner. Desde então, retorno ao Chile como atração principal em diversos selos, sempre com a benção da Nitro.
Você toca apenas material autoral ou semi-autoral. De onde vem essa postura e o que ela te custa?
Sou um artista criador. O tesão de subir no palco é ver a reação da pista ouvindo o que eu criei ou remixei. Sem isso, a mixagem seria um ofício mecânico. Essa escolha tem custos: tempo e uma dedicação muito maior que o habitual. O principal prejuízo é na política de bastidores, pois a troca de músicas é uma moeda de networking que eu acabo não usando. Tenho consciência desse isolamento, mas de outra forma o trabalho não faria sentido para mim.
Como você enxerga o caminho independente em uma indústria tão competitiva?
Aconteceu pela força das circunstâncias. É compreensível que agências tenham resistência com DJs que também são produtores de festas, pois o agente acabaria competindo com o próprio artista. Já conversei sobre isso com recrutadores e é um consenso. Mas, como agora retomei a produção de teatro e publicidade e não estou mais produzindo festas, é o momento ideal para negociar uma representação oficial.
O que você busca provocar no público ao entrar na cabine sabendo que ninguém ouvirá algo “previsível”?
Busco a sensação do inédito. Mesmo um hit do momento ganha uma roupagem nunca antes vista. Gosto de construir uma quebra de expectativa positiva, dropar melhor do que as pessoas estavam esperando. É tipo um ilusionismo, só que com o som.
Para fechar: que tipo de futuro artístico você quer reinventar dentro da música eletrônica?
Precisamos ter sabedoria para entender o que pode ser reinventado. Se sou um DJ comercial, preciso surfar na crista da onda. Mas também quero mergulhar profundo no universo conceitual. 2025 foi um ano em que me dediquei muito à cena underground (House e Melodic Techno) e fiquei feliz por ainda ser lembrado no Tribal. Sou ambicioso: no underground, talvez eu precise criar uma segunda persona, um projeto chamado “Apócrifo”. Prometo convidar vocês para o batizado!
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