DESTAQUE | KAMIE DEVOUR: O Techno como Ritual e Rendição

Com 10 anos de cabine e uma alma forjada no fogo do circo e no peso do rock, a fundadora da Twisted.rec revela como transforma o Hard Techno em uma experiência de hipnose, sombra e renascimento.

Kamie Devour não entrega apenas um set; ela conduz um pacto. Nesta edição especial, mergulhamos no universo de uma das artistas mais viscerais do underground brasileiro. Recém-completados 10 anos de carreira, Kamie une sua bagagem no audiovisual, rádio e pirofagia para criar uma narrativa onde o Techno Industrial assume o papel de “metal da música eletrônica”. Da solitude criativa à fundação da Twisted.rec na icônica Rádio Veneno, ela detalha como o fogo deixou de ser espetáculo para se tornar um espelho de sua própria intensidade. Uma conversa sobre maturidade, a coragem de ocupar o centro do palco e o presságio de um 2026 onde “algumas flores mordem”.

Kamie Devour é um mosaico vivo. Sua identidade artística é atravessada por uma visão 360º da cultura: o corpo que aprendeu a ouvir na dança, a mente que entendeu as engrenagens nos bastidores da rádio e a alma que se despiu no circo. Seus sets são construídos como capítulos de uma história densa, onde batidas industriais e camadas atmosféricas provocam uma “hipnose coletiva”. Como educadora e mentora, ela defende a busca pela voz verdadeira acima da técnica comercial. Kamie é a personificação da resistência estética, mantendo-se autêntica em um mercado veloz, provando que o Techno, quando verdadeiro, toca zonas da alma que as palavras não alcançam.

A transição do rock visceral para o Hard Techno, o pacto silencioso com o fogo e a celebração de uma década de discotecagem. Kamie Devour abre o coração para a Colors DJ Magazine em um depoimento que transborda filosofia e paixão inabalável. Descubra por que ela decidiu “fugir com o circo”, como a Twisted.rec está pavimentando novos caminhos no centro de São Paulo e o que esperar de sua próxima imersão internacional. Confira agora o papo com o nosso DESTAQUE do ano.

Kamie, sua jornada envolve dança, música, rádio e audiovisual. Como essa visão 360º ajudou a construir a identidade Devour que vemos hoje?

Acredito que, para um artista, nada passa despercebido. Na dança, aprendi a escutar meu corpo antes de falar. Na rádio, vi o mecanismo invisível do encanto. No audiovisual, aprendi que ninguém constrói nada sozinho. Quando subo ao palco, não apenas toco; sinto o espaço e as pessoas. O trabalho começa muito antes do show, na intenção e no invisível. Sou um acúmulo de memórias e desejos.

O que restou da energia da sua banda de rock da adolescência na sua performance de Techno e Hard Techno hoje?

Restou tudo. O rock é meu pilar mais visceral e primitivo. O techno me seduziu porque carrega a mesma tensão e rebeldia. Gosto de pensar que o techno é o rock da eletrônica, e o hard techno é o metal: metálico, noturno e perigoso. O rock é o combustível que ainda queima.

De que maneira a pirofagia e o circo deixaram de ser um “show” para se tornarem parte da sua narrativa sonora?

O circo nunca foi espetáculo, mas um chamado impossível de ignorar. O fogo é um espelho: indomável e sensível. Quando danço com ele, há uma força viva ali comigo. Isso me ensinou a olhar o público nos olhos e sentir a troca genuína. O mesmo processo acontece quando estou nos decks; é um estado de presença absoluta.

Você completou 10 anos como DJ em dezembro de 2025. Qual foi o maior desafio de transitar dos bastidores para o centro do palco?

O desafio não foi técnico, mas aceitar ocupar meu lugar. Passei anos observando engrenagens invisíveis. Precisei entender que estar pronta é uma decisão de ir. Estar no centro exige maturidade e coragem para carregar a energia de todos que cruzaram meu caminho. Aprendi a reconhecer a hora, mesmo quando a mente hesita.

Foto de @Butosfilms
Como você trabalha a curadoria para que o set seja uma “experiência de provocação e transformação”?

Não vejo música apenas como som, mas como estados, texturas e cores. O prazer nasce do contraste. Construo picos e capítulos para criar uma hipnose coletiva. O techno desce às camadas densas da alma, desperta sombras e desejos. Ele não vem para agradar, ele apenas é. Quando a verdade está ali, o som se torna estado e a única opção é a rendição.

Qual é o propósito principal da Twisted.rec para a cena alternativa?

É um laboratório criativo. A única regra é existir e se expressar de forma autêntica. Começamos na Rádio Veneno e expandimos para as ruas de São Paulo. O objetivo é criar espaços seguros de experimentação onde música, performance, diversidade e acessibilidade se conectam de forma viva e caótica.

Como professora, qual lição você passa sobre unir técnica e expressão?

Técnica se aprende, mas há algo secreto em cada artista: a nossa voz verdadeira, sem maquiagens. É essa voz que devemos escutar. Uma mentira pode vender, mas não sustenta um espírito criativo. Meu interesse é conduzir os alunos para que tenham intimidade com seu ritmo. Não é sobre aprender a mixar, mas o quanto você está disposto a despir sua alma no palco.

Em qual momento desses 10 anos você sentiu que seu trabalho se tornou uma revolução pessoal?

Quando eu “fugi com o circo” e tive que encarar a pergunta: é isso ou não é? Quando disse sim, minha vida mudou. Entendi que liberdade não é ausência de risco, mas assumir a direção da própria trajetória. Isso exige renúncia e solitude, mas entrega a sensação de estar inteira dentro da própria escolha.

Como você enxerga a evolução do Hard Techno no Brasil e como mantém sua linguagem própria?

Vivemos um momento de expansão linda, com labels e artistas fortes. O Brasil é indomável na mistura e no excesso criativo. Para manter a identidade, precisamos preservar esse nosso “sabor” único, independente da rapidez do mercado. Isso constrói coisas potentes que atravessam o tempo.

O que a Kamie Devour prepara para 2026?

2026 será um intenso mergulho. Estou preparando performances que não querem apenas ser vistas, mas sentidas com o coração. Iniciei um novo ciclo de produção autoral com muita diversidade. Em março, volto para a Argentina, marcando o início de uma nova jornada internacional. Coisas incríveis estão florescendo… e aviso: algumas flores mordem!