DESTAQUE | ETCETERA: A Cor da Liberdade

Do technicolor de Dona Zizi aos palcos do Tomorrowland: a jornada de autodescoberta e som da DJ que redefiniu sua própria existência.

A história de Etcetera é uma narrativa de renascimento visual e sonoro. Nesta edição da Colors DJ Magazine, acompanhamos a trajetória da artista que cresceu no interior de São Paulo absorvendo as referências artísticas de sua avó e a paixão do irmão pela eletrônica. O texto percorre os momentos de sombra e luz da DJ, revelando como a música foi o fio condutor para superar desafios pessoais e como a arte drag serviu de ponte para a descoberta de sua verdadeira identidade feminina. É um relato sobre a coragem de abandonar a estabilidade para viver da arte e a busca incessante por autenticidade no centro da pista.

Com um som profundamente enraizado no House, no Groove e na Disco, Filipa construiu uma carreira que deslancha através da performance e da mensagem. Após transitar por sonoridades mais densas, a artista encontrou sua assinatura em sets solares e repletos de referências à cultura ballroom. Ocupando espaços de prestígio e dividindo line-ups com lendas mundiais, ela se consolidou como uma voz essencial da cena, unindo curadoria musical apurada a uma presença de palco que hoje não performa apenas uma persona, mas sim a sua totalidade como mulher trans e artista.

A experiência de abrir para gigantes como Carl Cox e Fatboy Slim, os bastidores da criação do alter ego Etcetera e a recente transição de gênero são os eixos desta conversa profunda. Discutimos a importância de ocupar festivais como Time Warp e Tomorrowland sendo porta-voz de uma existência política e artística. Confira agora o nosso DESTAQUE completo e entenda como a fusão entre vulnerabilidade, glitter e pesquisa musical transformou a trajetória desta artista em um dos caminhos mais inspiradores da música eletrônica atual.

Você se lembra do seu primeiro contato com a música? Como foi crescer no interior de SP ouvindo música pop, eletrônica e também os clássicos que sua avó te apresentou?

A música sempre esteve presente; eu era uma criança que podia passar horas assistindo clipes. Minha avó tinha um bom gosto musical incrível, tenho muitas lembranças dela com jazz e disco. Provavelmente ouvi Donna Summer pela primeira vez com ela. Como cresci em uma cidade muito pequena e limitada, as influências artísticas vieram de “Dona Zizi”: o carinho pela costura, pintura e artesanato. Ela é uma multiartista incrível.

Seu irmão teve um papel importante na sua relação com a música eletrônica. Em que momento você percebeu que aquilo era mais do que uma curiosidade — que a música era mesmo seu lugar?

Meu irmão sempre foi apaixonado por eletrônico, enquanto eu ouvia muito pop rock e emo (acredita? rs). Apesar das diferenças, os momentos que nos aproximavam envolviam música; eu adorava os álbuns da Jovem Pan e o Summer Eletrohits que ele consumia. Entender que a música era meu lugar de criação veio mais tarde. Comecei profissionalmente em 2014 e, em 2019, larguei a produção de moda para viver da discotecagem. Foi minha maior loucura até hoje.

Em 2015 veio um momento muito delicado da sua vida. Como foi encarar o diagnóstico de HIV e de que forma isso impactou a forma como você se expressava musicalmente?

O primeiro impacto foi um susto. Eu fazia parte de uma parcela ignorante sobre o assunto por falta de educação sobre saúde sexual. Vivi um tempo “obscuro”, onde só usava preto e buscava me desligar da realidade. Foi nessa época que migrei do Open Format para o eletrônico, mas com um som voltado ao Techno e Tech House, com uma sonoridade mais pesada e melódica.

O que te levou a mudar a energia dos seus sets daquela fase mais densa para o retorno da cor, da alegria e do brilho? Quando a arte drag entrou em cena, o que ela despertou em você?

Dar vida à Etcetera enquanto alter ego era mágico, pois me trazia liberdade. A arte drag me trouxe redescoberta, quase um renascimento. Me devolveu a vontade de viver, a fome de criar e a curiosidade de ser, a cada dia, uma persona ou uma diva diferente. Isso encanta.

Como nasceu a Etcetera? Você se lembra do momento exato em que sentiu que aquilo não era só uma montação, mas sim uma virada de chave?

Fui convidada para tocar na minha primeira festa Castro em 2017. Meu som já tinha influência dos grooves e, ali, tive contato próximo com o camarim das drags. Em 2018, decidi me montar para a Pride e eu sabia que, se fizesse uma vez, não teria volta. Logo veio o projeto Etcetera e nunca mais subi ao palco sem glitter e peruca. Meu som se consolidou no House quando entendi a ligação da drag com a disco e o movimento ballroom. Foi ali que minha carreira começou a deslanchar.

Em que momento você começou a se reconectar com o feminino dentro de você e a entender que a sua verdade ia além da arte drag?

Foi na própria vivência drag. A liberdade foi tomando força. Eu já entendia que não era um menino cis por volta dos 15 anos, mas fugia do assunto. Com a drag, entendi que esse momento de transição chegaria; era um processo do qual não dava para fugir. Foi uma luta interna grande porque a parte mais difícil era a minha própria aceitação. Tenho uma rede de apoio incrível que fez tudo ser mais leve.

A sua transição é recente, mas já te transformou profundamente. Como esse processo tem refletido na sua música e na forma como você se apresenta no palco?

A maior mudança é que não performo mais a arte drag. Continuo levando o nome e a personalidade do meu alter ego, mas não me conecto mais com a performance drag. Quero que me vejam como eu mesma no palco. Na música, tenho dado mais atenção à curadoria, à trajetória dos artistas que replico e às mensagens que as letras trazem.

Ao longo da sua trajetória, você passou por diversos estilos e públicos. Qual foi o momento mais simbólico da sua carreira até agora?

Dezembro de 2023 e janeiro de 2024 foram marcantes. Tocar após o Carl Cox, no Museu do Amanhã, para uma galera enorme, me fez acreditar que eu estava no caminho certo. Semanas depois, aqueci a pista para o Fatboy Slim e foi surreal. E, claro, 2025 marcou minha vida para sempre com o Time Warp e o Tomorrowland, já sendo eu mesma em totalidade.

O que significa, pra você, ocupar espaços tão importantes da cena eletrônica sendo quem você é?

É engrandecedor. É um privilégio viver em um tempo onde ocupar esses lugares é uma possibilidade. Abrir espaço para os meus e as minhas é parte das minhas metas. A responsabilidade de ser porta-voz traz um frio na barriga forte, mas espero ser digna e fazer cada vez mais pelo movimento.

Se você pudesse desenhar o futuro agora, o que vem aí para a Etcetera? Quais sonhos você ainda quer realizar?

Sou viciada em conquistas! Quero girar o Brasil e o mundo, tocando para quem tem sede de dança. Mas, além disso, quero viver meu caminho me divertindo e tratando cada pequena conquista como a maior delas. O plano é não me perder no caminho, seja ele qual for.