DESTAQUE | FAEH: A Disciplina da Curadoria e a Força do Groove

Das fitas cassete ao comando das pistas de Tribal: como o ex-baixista de rock trouxe o peso das cordas para a percussão eletrônica e conquistou São Paulo.

Faeh é um artista que entende que a música se constrói no detalhe. Nesta edição da Colors DJ Magazine, exploramos a trajetória de um “Destaque” que começou organizando fitas cassete em caixas de sapato e hoje organiza multidões em pistas icônicas. O texto percorre sua transição de músico de bandas cover de rock para o universo das boates LGBTQIAPN+, revelando como o peso do contrabaixo influenciou sua visão de pressão sonora no Tribal House. Morando há sete anos em São Paulo, Faeh detalha como a competitividade da capital lapidou seu profissionalismo e sua capacidade de ressignificar hits clássicos com um frescor inesperado.

Com oito anos de estrada, Faeh consolidou uma identidade que foge do óbvio. Sua pesquisa musical é minuciosa, buscando “joias perdidas” para transformá-las em hinos de pista através de remixes que surpreendem o público. Com passagens marcantes por selos como Hey Hey Club e Kiki, ele defende um Tribal House rico em elementos psicodélicos, hi-techs e também do gênero Afro House, onde a percussão é protagonista. Faeh é um observador atento: frequenta a pista como cliente para entender o desejo do público, garantindo que cada drop seja uma troca de energia real, fugindo do “mais do mesmo” e investindo em uma presença que une técnica, imagem e conexão.

A herança das melodias sonoras, a importância do networking em São Paulo e a atenção e feeling de pista que o DJ precisa ter, são alguns dos temas desta entrevista franca. Faeh revela como sua formação autodidata se uniu à formação profissional de 2017 para criar um artista que sabe ler o movimento da festa antes mesmo de subir na cabine. Confira agora o nosso conteúdo DESTAQUE completo e conheça o projeto especial que ele prepara para 2026: um mergulho em sua história através de produções que carimbam sua assinatura definitiva na cena nacional.

Faeh, sua história começou gravando fitas cassete e organizando tudo em caixas de sapato. Como essa disciplina de “curadoria” da adolescência te ajuda a montar seus setlists hoje no Tribal House?

Essa disciplina me fez ter uma visão ampla de como construir playlists e organizar de acordo com o estilo/gênero, facilitando inclusive a localizar músicas e ouvir por categorias. Contribui também com a produção de sets, principalmente quando existe algum tema específico.

Antes da eletrônica, você foi músico de bandas cover de Silverchair e Foo Fighters. O que o rock e o peso do contrabaixo trouxeram de bagagem para a pressão sonora que você coloca nos seus sets?

Apesar de serem gêneros musicais distintos, as marcações das batidas influenciam na produção dos sets. Acredito que o princípio básico que auxilia na minha visão musical atual são as melodias trazidas de outros estilos como o rock e o pop, dentre outros.

Aos 18 anos, você mergulhou nas boates LGBTQIAPN+ e festivais. Em que momento percebeu que não queria mais estar apenas na pista, mas sim no comando da cabine?

Não me recordo o momento exato dessa mudança de chave, mas acredito que tenha sido todo o processo de frequência em festivais e boates. Ver os DJs renomados em cima do palco, trocando energia positiva com o público e tendo aquele retorno com dança, euforia e sorrisos no rosto… Tudo isso foi me tocando aos poucos, até eu entender que também queria estar naquele lugar e fazer parte disso.

Você segue pelo Tribal House, mas flerta com Full On e Afro House. Como injetar essas influências variadas sem perder a identidade que o seu público espera?

Na minha opinião, o Tribal House tem muitos elementos interligados ao Full On e ao Afro House. Apesar de serem BPMs totalmente diferentes, existe a percussão presente nesses gêneros, além da essência em raízes africanas e indianas. É possível incluir esses elementos sem perder a essência da proposta. São projetos distintos, com sets criados de forma independente para públicos muitas vezes diferentes.

Dos palcos como Euphoria After, Hey Hey Club e Bar do Deca, qual você considera o seu “cartão de visitas” definitivo até agora?

Os lugares citados foram apresentações em épocas e com propostas diferentes, como After, Night Party e Pool Party. Mas, para mim, o set mais marcante foi na Hey Hey Club, na noite Private, onde tudo saiu exatamente como eu esperava. Minha apresentação mais recente na Kiki Club também foi uma das preferidas, com casa cheia e ótimos feedbacks dos produtores e outros DJs, o que me fez lançar o Live Set no meu SoundCloud.

Como é o seu processo de pesquisa para achar aquela “joia perdida” — músicas antigas em versões novas — e transformá-la em um hit de pista atual?

Costumo iniciar minha pesquisa pelo Google, buscando a música que quero e incluindo “Tribal Mix”, o que facilita uma busca ampliada. Gosto de ouvir prévias de packs de produtores onde normalmente existe aquela música antiga que todo mundo conhece, mas não costuma ouvir em Tribal. Quando gosto, entro em contato com o produtor para adquirir a track, mas também valorizo as tracks free download, pois existem muitos remixes bons.

Na sua visão de “cliente e artista”, o que o público de 2025 mais deseja sentir quando entra em um club de Tribal House?

Entendo que o público gosta de ouvir os hits que não saem de moda, mas valorizam muito o diferencial: aquela track que todo mundo canta e que, depois do drop, chega com um remix inesperado. Ressignificar sucessos das pistas apresentando novas versões é o que faz o público sentir aquela animação e troca de energia. O público sempre espera se divertir e sentir o que cada música representa em sua história.

Como a mudança do litoral para São Paulo ajudou a elevar o seu nível profissional e artístico?

É inegável que a capital paulista é referência em entretenimento. Eu me mudei para cá preparado para essa competitividade. As oportunidades que se abriram me fizeram adquirir muito conhecimento profissional e entender como funciona o processo da noite paulistana, das produções ao networking. Me ajudou a saber por onde caminhar e como agir para estar sempre em evidência.

O que é, para você, o maior erro que um DJ de Tribal pode cometer hoje e como você evita o senso comum?

O maior erro é não estar atento ao que anda tocando nas pistas e à reação do público. Outros erros são não chegar antes para sentir o espaço e o que o DJ anterior está tocando (para não repetir músicas) e não ter troca de energia. Também é um erro não investir na imagem e no engajamento das redes sociais.

Para fechar: sendo um dos Destaques de 2025, o que o DJ Faeh está preparando para 2026?

Meu próximo projeto é investir em produção musical. Em paralelo, estou produzindo um novo Setmix que irá contar minha história no Tribal House nesses 8 anos de trajetória, trazendo minha personalidade em conjunto com tudo o que já toquei e que teve retorno positivo dos ouvintes.