COLUNA | “Abra sua mente, DJ também é gente”

Fala galera tudo bem? Meu nome é Allison Nunes, sou DJ e hoje vamos falar um pouco sobre a influência das tendências musicais nos clubes, e também sobre respeito pelo artista.

Eu comecei a frequentar festas LGBTQIA+ em meados anos 2006, e de lá pra cá pude acompanhar uma mudança radical na sonoridade dos clubes. Muito disso se deve às tendências, de tempos em tempos sabemos que a sonoridade das músicas mudam, e de modo geral acabam seguindo um rumo bem parecido em cada vertente musical.

Nesse ano de 2020, por exemplo, pudemos notar o retorno da Disco Music,presente nas principais músicas da cena Pop Internacional. Grande parte dos grandes e renomados artistas seguiram esse rumo, e obtiveram êxito, afinal essa sonoridade é muito rica e mesmo sendo algo “old”, jamais passará de moda. Algo interessante a observarmos é que por mais que essa era Disco tenha retornado, os artistas seguiram produzindo outros estilos, essa era veio para somar ao que já existe e ao que virá no futuro.

A música tocada nos “clubes gays” desde sempre foi influenciada pelos hits que alcançam o topo das paradas no mundo, temas de filmes, novelas, afinal isso é uma mão na roda para o DJ que quer tocar algo que a pista se familiarize rápido, é “o tiro certo”.

Hoje temos muito presentes também os grandes hits nacionais, desde funk a MPB, é bem comum escutarmos tudo misturado nos sets, algo que até há um tempo atrás não existia.

Sou a favor do novo sempre, desde que seja pra somar e enriquecer ainda mais a nossa cena LGBTQIA+, afinal somos defensores da diversidade e é maravilhoso isso se estender a música também, sem barreiras, sem rótulos, a música precisa ser livre.

Um dia li um artigo do saudoso mestre DJ e produtor Peter Rauhofer, que dizia que o público das festas Tribal é bem exigente e ao mesmo tempo com a mente fechada para a música nos clubes. Será que isso é verdade?

Recentemente no Brasil foi inserido uma sonoridade latina, proveniente do México e Colômbia, conhecida como “Guaracha” (em breve escreverei uma coluna sobre esse gênero musical), caracterizada principalmente por conter saxofones, trompetes, acordeões, entre outros instrumentos usados em em ritmos latinos como a salsa, e também uma batida forte e bem característica. Eu confesso que amo músicas latinas e essa influência está presente nos meus sets há anos.

Hoje no Brasil a grande maioria dos DJs tocam esse estilo de música, é possível encontrar um set com essa mesma base do início ao fim misturado apenas com vocais que estão “na moda”.

Está certo ou errado? Acredito que não existe certo ou errado, temos que respeitar todos os estilos e principalmente a música, o artista, mas particularmente falando tudo o que é “over”, repetitivo, me cansa.

Mas voltando lá em 2006 até meados 2015, lembro de uma cena onde o DJ tocava o seu set livremente, e a pista esperava surpresas, uma batida diferente, uma boa mixagem.

Hoje a impressão que tenho é que grande parte das pessoas vão à boate pra ouvir a playlist do Spotify mescladas com um estilo de batida muito peculiar. A música eletrônica é infinita, chega a ser um crime nos limitarmos tanto. Será que Peter tinha razão? Chegamos num ponto em que muitas vezes o artista não é respeitado e acaba ficando preso a tendências, e consequentemente a música parece ser a mesma do primeiro play até o final.

Já vi grandes DJs se limitarem e se “adequarem” a essas tendências, perdendo sua essência e identidade.

Outro fator importante que devemos levar em conta é o aumento considerável no consumo de substâncias ilícitas, muitas vezes feito sem controle, que dá a impressão que a música precisa ser cada vez mais “pesada”.

O novo sempre será bem vindo, mas não podemos nos limitar, precisamos de mais diversidade e respeito pela música, pelos DJs…

Ao sair de casa, saiam com a mente aberta, não queiram apenas ouvir o que está na moda.

A missão do DJ não é apenas agitar a pista, mas também educar o ouvido das pessoas na pista, surpreender com algo inusitado, contar uma história através da música.

Tenho a absoluta certeza que nenhum DJ é unanimidade, mas todos fazem o seu trabalho com amor e isso deve ser respeitado.

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